Quem toma conta de quem está a tomar conta? Durante anos, foi este o papel que “Ruca”, como é conhecida Rosa Maria, de 71 anos, assumiu no Largo do Intendente, em Arroios, puxada pela filha, Marta Silva, para a missão da cooperativa LARGO Residências. O de guardiã do espaço, primeiro, e depois de “mãe de todos” – aquela que alimenta, que troca as lâmpadas estragadas e que passa a véspera de Natal à espera de imigrantes que estão a chegar para serem acolhidos.

“Nunca tive outro papel que não o de mãe”, por isso, este papel assentou-lhe que nem uma luva. Ela que “nunca tinha tido contacto com as pessoas vulneráveis, com a miséria”, como encontrou depois naquele largo. E, mais tarde, aos portões do velho Quartel da GNR do Largo do Cabeço da Bola – também conhecido como Quartel de Santa Bárbara – para onde migrou em 2022, no ano em que é transformado num centro cultural e artístico pela cooperativa LARGO Residências.

Este lugar em Arroios deu origem ao podcast da Mensagem de Lisboa: “O Quartel”.

O podcast tem narração de Catarina ReisTomás Delfim e Pedro Saavedra – ator e dramaturgo, que aqui dá voz a excertos de contos fictícios que escreveu sobre o quartel.
Ouça aqui o 3.º episódio:

Ouça aqui os episódios anteriores:

O fim do quartel de Santa Bárbara- e depois?

O quartel fechou. Mas quem o ocupou sempre soube que a estadia era temporária – porque outras prioridades da cidade se levantavam.

Em 2022 a LARGO Residências deixou o Largo do Intendente, para ocupar este edifício grande e vazio, um antigo quartel da GNR. Meio habitado por pessoas em situação de sem-abrigo, de um lado; e, do outro, separados por um muro, meio habitado por centenas de artistas culturais e projetos sociais, incluindo a cooperativa, que não encontraram outra casa na cidade.

De repente, os portões do século XIX, há tantos anos vedados, de onde se viam por frinchas os homens fardados lá dentro, lá ao fundo, abriram-se à comunidade. O quartel deixou de ser um monumento do passado, para ser um ator vivo na cidade.

Lá dentro, já não era a GNR que víamos em ação, mas atores, artistas plásticos, músicos, dramaturgos, arquitetos, bailarinos, mediadores sociais e culturais, cozinheiros… ao lado de uma querida mascote: o gato Capitão. Houve espaço para lisboetas e outros, os que chegavam fugidos de uma guerra num outro país.

Viraram pequenos e grandes soldados na luta por uma cidade de todos, vibrante e sem lugares mortos. Com eles, trouxeram um debate: por que não podem os vazios de Lisboa ser ocupados por quem sonha transformá-los?

E, ao final de dois anos, o que construíram neste quartel tornou-se exemplo urbano, social e cultural em Lisboa.

Mas e agora? Agora que estão de partida para uma outra morada: os jardins do Hospital Miguel Bombarda, para que o quartel sirva a habitação acessível numa cidade onde ela faz falta – bem como espaços comerciais, culturais e serviços. O que aprendemos com este sonho que eles criaram para Lisboa?


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