No coração de Alfama, um dos mais antigos e peculiares bairros de Lisboa, um estilo diferente começa a ganhar as ruas acostumadas à força expressiva do fado. Todas as sextas-feiras, o som do pandeiro atraía um público de saudosos brasileiros reunidos para um samba que tem despertado também – e cada vez mais – a atenção dos portugueses. Ali, quatro mulheres decidiram fazer da música uma ferramenta de intervenção política, sem deixar de lado a energia contagiante de um ritmo que põe até os mais incrédulos a dançar: o samba.

Kali Peres, Emile Pereira, Meli Huart e Tida Pinheiro formam, há dois anos, o coletivo GIRA. O nome traz referência às rodas presentes em rituais de religiões afro-brasileiras, como a umbanda – que, de acordo com a crença, são feitas normalmente de pés descalços, com cantos e preparações para chamados espirituais.

Gira é ainda sinónimo de “bonita”, quando pensado no português europeu. Uma fusão cultural que já provou ter nascido para funcionar.

Foto : Carlos Menezes

O combate às discriminações de género, ao racismo e à xenofobia é grande parte da identidade do grupo e está em cada detalhe: desde a escolha do repertório até o local onde se apresentam.

Aliás, foi justamente o desentendimento com um contratante que fez com que as sambistas precisassem expor o seu posicionamento.

Perto das eleições do Brasil, no ano passado, elas foram pressionadas e repreendidas porque a plateia entoava, com frequência, protestos contra o ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro. Incomodadas com a censura, decidiram emitir uma nota pública que anunciava não só a oposição ao político, mas o rompimento definitivo com a empresa. Naquele momento, entenderam que o propósito do coletivo ia muito além do entretenimento. 

Em busca de um espaço mais alinhado com essa visão, encontraram em Ana Garcia o acolhimento necessário para continuar. Portuguesa apaixonada pelo samba, ela é o rosto à frente da organização do Sambalfama, lugar que recebe semanalmente as apresentações do GIRA no prédio do centenário Grupo Sportivo Adicense. “Antes eu tinha aqui uma roda masculina. Não estou nada arrependida de ter feito esta parceria. Faz todo o sentido, sendo eu mulher, hastear a bandeira com elas”, conta.

Mas, recentemente, o grupo anunciou mudança de morada. A partir de 19 de janeiro, as sextas-feiras de samba são no Clube Oriental, em Marvila, das 20:00 à meia noite.

O microfone na mão e a força das vozes silenciadas

Além das quatro integrantes fixas, já passaram por lá mais de vinte artistas convidadas, como Bibi Nobre (baixo), Lika Mattos (tantan) e Brunão (pandeiro). A intenção é unir forças para marcar posição numa realidade muitas vezes hostil sobre o samba no feminino.

“Ninguém questiona onde estão as mulheres no samba. Tem o estereótipo: ou está dançando ou está aplaudindo eles. Não, a gente quer estar na roda e ser aplaudida também, quer estar com o microfone falando das nossas coisas”, lembra Emile, que no grupo é responsável pela batida grave e marcante do surdo.

E ela conhece bem cada percalço desse caminho. Baiana criada no estado de Minas Gerais, faz questão de recordar a origem simples, quando precisava caminhar muitos quilómetros para ir à escola e a única presença do Estado na comunidade era a polícia.

Em Portugal, demorou para que as portas se abrissem.

Passou a encarar, por vários anos, jornadas de trabalho de doze horas diárias como empregada doméstica e ama de três crianças. Mesmo com uma rotina dura, o samba nunca foi esquecido: era nos fins de semana que conseguia dedicar-se ao que mais gostava e ao que lhe proporcionava uma alegria genuína, mesmo que apenas por alguns instantes.

Iguais na diferença: a dança que também é refúgio

Para Emile, esse reconhecimento traz hoje a missão de não deixar ninguém para trás. “A gente está tentando trazer essa verdade, a de uma roda de samba como um culto, que fala das nossas dores, paga o nosso pão, mas consegue também puxar outras manas. Muitos imigrantes não têm família por perto. Então, chegarem aqui e encontrarem acolhimento é a nossa maior honra”, afirma.

Diversidade é, sem dúvida, a marca do público do GIRA. Não só em relação à nacionalidade, mas porque se vê tantas pessoas de diferentes etnias, profissões, orientações sexuais e idades, desde crianças até os mais idosos. “Isso é uma coisa que me arrepia sempre aqui no Sambalfama”, confessa a percussionista Tida.

Encarregada pela conga, diz que o fascínio pelo som do tambor começou cedo, no terreiro de candomblé (religião típica afro-americana) que a avó frequentava. Mas tocar não era uma opção, já que os pais, católicos, não gostavam da aproximação da menina a uma religião de matriz africana. Também veio da avó a admiração por sambistas como Clara Nunes, nome com que Tida batizou a única filha.

Foto : Carlos Menezes

Clara, a filha, foi um dos motivos que a fizeram procurar uma vida longe da instabilidade económica e política do Brasil. Ficaram um ano separadas, para que pudesse organizar o recomeço em Lisboa e trazê-la.

Mãe solteira, bióloga e professora, precisou de abrir mão da formação académica para se lançar em novas empreitadas profissionais. Aqui, criou um serviço em que fazia montagem de móveis, consertos e instalações de equipamentos elétricos nas casas dos clientes. 

Pagava as contas, é verdade, mas não tinha grande motivação.

Foi o samba que trouxe de volta o entusiasmo para enfrentar os dias difíceis. “O mais importante foi reconectar-me e sair do ‘modo zumbi´. Sabe quando a gente se sente um peso?”, diz com os olhos marejados. “Nas rodas, às vezes eu paro e penso: ‘Eu amo o que eu faço! Apesar de não ir há seis anos para o meu país, sinto-me em casa’”, revela.

Um samba de muitos sotaques

A opinião é partilhada por Meli Huart. “Acho que encontrei o meu pequeno Brasil. Tudo o que eu queria – poder tocar, o calor humano, as amizades e o carinho –  eu tenho aqui”, celebra. Nascida em Nantes, na França, ela formou-se em Cinema e teve experiências com diversas produções audiovisuais, mas a curiosidade levou-a a atravessar o Atlântico, determinada a aprender sobre os ritmos do nordeste brasileiro, como o maracatu, o afoxé e o coco.

De sorriso fácil e voz doce, a aparente delicadeza parece ter sido vista com desconfiança no início da sua estrada no mundo da percussão. Ela lembra que os convites para tocar eram raros e que precisou de se impor em várias situações em busca de oportunidades.

Ainda assim, nada que assustasse uma jovem acostumada a desafios. 

Fez morada na cidade do Recife, onde o português fluente ganhou um charmoso sotaque. Porém, o amor pela região foi atravessado por uma descontrolada pandemia, quando decidiu voltar para a Europa e, assim, tentar a sorte em Lisboa.

A afinidade com o pandeiro e a relação com o samba foram despertadas já em Portugal, ao ser apresentada às futuras parceiras de grupo por um amigo em comum. “Eu falo que fiz a Universidade Kali Peres de Samba”, brinca, referindo-se à vocalista do GIRA.

O futuro é feminino

Não é à toa que Meli enaltece a trajetória da colega. Vinda de uma família de artistas do sul do Brasil, Kali carrega no ADN a inquietude de quem quer sempre levar a cultura mais longe.

Após uma temporada na Irlanda, numa passagem rápida pela terra de Camões decidiu ficar. Morou no Algarve e no Porto, até que recebeu um convite para viver e se apresentar na capital.

Foi num encontro internacional de mulheres do samba que se aproximou daquelas que seriam as suas companheiras inseparáveis. Saíram do evento decididas a criar um projeto. Hoje, o GIRA cativou um público fiel, mas ainda é só o começo.

Nos planos, há a ideia de músicas autorais e de mostrar cada vez mais o trabalho de novas compositoras. No repertório, mantêm uma mistura que vai do tradicional ao popular, com um destaque importante para artistas femininas como Leci Brandão, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Renata Jambeiro e Mariene de Castro.

Para Kali, representante da voz e do cavaquinho do grupo, o crescimento delas vem da liberdade para experimentar, errar e aprender, sem a pressão que já sentiram noutros lugares. Nada disso, acredita, seria possível sem união: “A gente está sempre evoluindo. Mas, no final, o que ganha a parada é a energia, a entrega. Se uma está mal, todas sentem. E aí vamos dar as mãos, puxar para cima. Essa é a nossa terapia. É o nosso remédio”.

Texto atualizado a 12 de janeiro de 2024, com mudança de morada do coletivo GIRA


*Nascida na Amazónia brasileira, Maíra Streit tem uma vida comprida para os seus 36 anos. Ao transgredir as próprias fronteiras, encontrou no jornalismo um território para a liberdade. Cultiva a sede de desvendar o mundo através do olhar do outro e tem um especial interesse por tudo o que acontece à margem das narrativas. Mergulha sempre que pode na cobertura dos direitos humanos porque sabe que, às vezes, é preciso partir-se para continuar inteira.


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7 Comments

  1. Excelente reportagem. Dá para sentirmos a força e a energia dessas mulheres e de suas histórias de luta.
    Parabéns

  2. Excelente matéria, que em linhas muito bem escritas emociona o (a) leitor(a) com a realidade das mulheres sambistas imigrantes.
    Uma mistura cultural onde o samba brasileiro tem lugar no bairro Alfama de Lisboa, espaço típico do fado. Isso é maravilhoso!
    A matéria retrata de forma esclarecedora a consciência política das sambistas, a coragem delas de mostrarem a realidade de seus árduos empregos e a disposição de levar um pouco da cultura brasileira além do oceano. Seus desafios, o não preconceito com relação às raças, religião, dentre outros.
    Bonito de se ver a alegria em meio às tantas lutas.
    Muitas informações nas linhas e entrelinhas da matéria.
    Enalteço o Grupo GIRA. Enalteço o Jornal A Mensagem de Lisboa, pela oportunidade que nos deu de nos informar e até de emocionar diante de tal realidade que nos encoraja só em saber dessa boa energia do samba. Boa energia em terras do fado, levada por mulheres de luta.
    Matéria completa!

  3. Excelente matéria que, em linhas muito bem escritas emociona o(a) leitor(a) com a realidade das mulheres sambistas imigrantes.
    Uma mistura cultural onde o samba brasileiro tem lugar no bairro Alfama de Lisboa, espaço típico do fado. Isso é maravilhoso!
    A matéria retrata de forma esclarecedora a consciência política das sambistas, a coragem delas de mostrar suas lutas, empregos árduos e disposição de levar um pouco da cultura brasileira além do oceano.
    Bonito ver expressa na boa técnica de redação, a diversidade de cultura, o não preconceito com relação à raça, religião, a alegria em meio às lutas das participantes do GIRA. E tantas outras boas informações nas linhas e entrelinhas!
    Enalteço o Grupo das Sambistas. Enalteço a matéria esclarecedora e com o tom de encorajamento.
    Parabéns também ao Jornal A Mensagem de Lisboa!

  4. Dá pra sentir toda a energia do grupo! Texto, vídeo e fotos em sintonia… fui até capaz de sentir o som. Parabéns às brasileiras que escrevem, cantam e tocam nossa cultura!

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