O Lisbon Project começou com uma ideia simples, mas poderosa: construir uma comunidade que integre e empodere migrantes e refugiados. Foto: Rita Ansone

Numa quente noite de quarta-feira, no coração de Arroios, um dos bairros mais multiculturais de Lisboa, uma reunião de migrantes, voluntários e membros da comunidade enche o ar de calor, risos e conversas. O cenário é o The Lisbon Project, uma organização liderada por Gabriela Faria, cuja visão e paixão para ajudar migrantes e refugiados transformaram o espaço num refúgio de apoio e pertença.

Há uma serenidade na presença de Gabriela. Muito antes de se tornar líder em Lisboa, Gabriela era uma criança curiosa, sempre fazendo perguntas. “Eu sempre fui curiosa,” diz ela com um sorriso. “Acho que todos deveríamos fazer mais perguntas. O mundo seria um lugar melhor se todos fossem mais curiosos.”

Esse sentido de curiosidade tem sido um princípio orientador ao longo da sua vida, levando-a de um sonho de infância de ser jogadora de futebol a estudar política e relações internacionais na Escócia.

Mas, como a vida costuma fazer, levou-a por um caminho diferente. Hoje, Gabriela é a CEO do Lisbon Project e pastora da Riverside Lisbon Church. Embora o seu percurso de vida tenha sido variado, o fio condutor, segundo ela, é a Justiça. “Isso permaneceu.”

“Sou portuguesa sul-africana”, explica. “Os meus pais são portugueses, mas emigrantes na África do Sul. Nasci lá, e depois voltamos para Portugal.” A experiências no estrangeiro, incluindo o tempo de estudos na Escócia, deram-lhe uma perspectiva única sobre identidade, migração e comunidade.

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Gabriela Faria: “Acho que todos deveríamos fazer mais perguntas. O mundo seria um lugar melhor se todos fossem mais curiosos.” Foto: Rita Ansone.

Quando perguntada sobre sua vida pessoal, o rosto de Gabriela ilumina-se ao falar das suas duas filhas, Jade e Sky. “Tenho duas meninas lindas”, diz com orgulho, “e a maternidade me fez mais confiante. Se consigo criar dois seres humanos, sinto que posso fazer qualquer coisa.”

O nascimento do Lisbon Project: uma visão de comunidade e conexão

A jornada de Gabriela Faria com o Lisbon Project começou com uma ideia simples, mas poderosa: construir uma comunidade que integre e empodere migrantes e refugiados. “Isso nasceu há oito anos, pelo menos no meu coração, idealizando ou sonhando com uma comunidade verdadeiramente inclusiva e diversa, onde as pessoas se relacionassem umas com as outras e fizessem perguntas antes de tirar conclusões.”

O momento de inspiração surgiu quando Gabriela estava de volta a Portugal, a visitar a família nas férias. “Comecei a encontrar migrantes e refugiados, à mesa, ouvindo sobre as suas vidas,” lembra ela. Não eram apenas as lutas comuns — encontrar empregos ou aprender o notoriamente difícil idioma português — que se destacavam. Era o tema recorrente de solidão e isolamento.

“Percebi que não sou advogada, não sou médica, não tenho todas as respostas. Mas acho que posso mobilizar pessoas,” diz Gabriela. “Podemos criar uma comunidade onde ninguém esteja sozinho.”

E foi exatamente isso que ela se propôs a fazer. A visão do Lisbon Project é simples, mas profunda: garantir que todos os migrantes e refugiados em Portugal se sintam em casa.

Transformando um sonho em realidade, um passo de cada vez

Criar o projeto não foi fácil, mas Gabriela não deixou a enormidade da tarefa detê-la. “Acho que às vezes não avançamos porque as coisas são grandes demais, ou o sonho é grande demais,” ela reconhece. “Mas às vezes só temos que começar um dia de cada vez.”

Por trás do sucesso está não apenas a determinação de Gabriela, mas também o apoio de uma comunidade mais ampla.Foto: Rita Ansone.

O primeiro passo foi garantir um espaço físico. Assim que as portas se abriram, a notícia espalhou-se rapidamente. De uma mulher grávida do Nepal em busca de orientação sobre a saúde, a um homem do Afeganistão a precisar de ajuda com questões legais. As pessoas traziam uma variedade de necessidades. Gabriela nem sempre sabia como ajudar, mas conhecia pessoas que podiam. “Liguei para a minha irmã, que é enfermeira, ou para os meus amigos advogados,” recorda. Pouco a pouco, começou a conectar pessoas — migrantes a profissionais, refugiados a recursos — e foi assim que o Projeto cresceu.

Por trás do sucesso está não apenas a determinação de Gabriela, mas também o apoio de uma comunidade mais ampla. Além de doadores individuais e empresas, o Projeto colabora com universidades, clubes desportivos e outras organizações. A ideia é envolver o maior número possível de pessoas, trabalhando em prol do objetivo comum de construir uma comunidade onde todos saem ganhando.

Caminhando pelo edifício do Lisbon Project, fica claro que tudo gira em torno das pessoas. “Estas são apenas algumas fotos da nossa história,” diz Gabriela, gesticulando para uma parede coberta de fotografias. “Tudo o que fazemos aqui é sobre as pessoas. Não se trata de números ou estatísticas. Trata-se destes rostos, destas vidas.”

Um dos componentes centrais é o programa Vida Comunitária, que se foca na construção de relacionamentos e na celebração da diversidade. “Dizemos que não toleramos a diversidade — celebramos,” explica Gabriela. O programa organiza atividades sociais como jantares, viagens à praia e celebrações culturais, criando oportunidades para que migrantes e refugiados se conectem, se divirtam e se integrem na sociedade portuguesa.

Há também programas especializados para diferentes grupos — crianças, adolescentes e mulheres — e mais serviços de apoio prático, como oficinas de empregabilidade, cursos de idiomas e o Clube de Tarefas. “Sabemos que a burocracia é difícil em Portugal,” reconhece Gabriela, então oferecem assistência nos processos legais e administrativos, ajudando as pessoas a obter as informações de que precisam para ter sucesso. “O conhecimento é poder,” diz ela.

Uma pastora: fé no centro da missão

Fora do seu trabalho no Projeto Lisbon, Gabriela também atua como pastora na Riverside Lisbon, uma igreja internacional, não-denominacional que lidera ao lado do marido. A igreja reúne no mesmo edifício que o Projeto e a parceria permite que ambas as organizações partilhem recursos. “A igreja ajuda com o espaço, e fazemos parcerias,” explica Gabriela.

Quando perguntada sobre o papel de um pastor, Gabriela dá uma resposta ponderada: “Um pastor lembra as pessoas de quem elas são e da graça, da verdade e do propósito.” Para ela, ser pastora significa guiar as pessoas na jornada para descobrir por que estão aqui. “Mark Twain diz que há dois dias importantes na vida: o dia em que você nasce e o dia em que descobre o porquê. Estou realmente comprometida em caminhar com as pessoas para entender por que estamos aqui.”

A fé é uma parte central de quem ela é, tanto como líder quanto como indivíduo. Tem a passagem favorita da Bíblia tatuada no ombro: Jeremias 29:11: “Se me buscares, me acharás.”

O coração do projeto: jantares semanais e espírito comunitário

A liderança de Gabriela Faria no Projeto Lisbon é construída sobre uma base de amor e comunidade, exemplificada através dos jantares comunitários semanais. “A nossa marca é o amor,” ela diz com um sorriso. Todas as quartas-feiras, das 19h às 20h, as portas abrem-se a qualquer pessoa — voluntários, estagiários, funcionários, membros da comunidade ou parceiros — para uma refeição gratuita.

O espaço tem a sua própria história de resiliência. “Isto era apenas um armazém,” recorda Gabriela. Quando se mudaram para lá, os fundos eram limitados, então a equipa trabalhou com o que tinha, trazendo móveis desalinhados e itens doados para tornar o espaço funcional.

Lisbon Project
No jantar comunitário, o cheiro de comida caseira enche o ar, e um sentimento de calor e pertença invade o espaço. Foto: Rita Ansone.

Mas então, no final de 2022, ocorreu um desastre. Enchentes varreram Lisboa, incluindo o edifício. “Perdemos tudo,” lembra Gabriela. Mas doações chegaram, permitindo que a equipa renovasse o espaço e criasse o ambiente bonito e vibrante que existe hoje.

À medida que a noite avança, o jantar comunitário começa a tomar forma. O cheiro de comida caseira enche o ar, e um sentimento de calor e pertença invade o espaço.

Quando perguntada sobre o apoio de Lisboa e Portugal como um todo aos migrantes, Gabriela reconhece que ainda há progresso a ser feito. “Acho que há espaço para crescer,” admite. Ela acredita que, embora existam recursos e pessoas inteligentes trabalhando na questão, é necessário melhorar os sistemas, aumentar a eficiência e, acima de tudo, fortalecer o senso de comunidade. Para Gabriela, não se trata apenas de lançar recursos sobre o problema, mas sim de mobilizar as comunidades para se unirem e alinharem seus esforços.

Quando questionada sobre como Lisboa e Portugal como um todo apoiam os migrantes, Gabriela reconhece que ainda há progressos a serem feitos. “Acho que há espaço para crescer”, admite. Acredita que, embora haja recursos e pessoas inteligentes trabalhando na questão, é necessário melhorar os sistemas, torná-los mais eficientes e, acima de tudo, criar um senso de comunidade mais forte. Para Gabriela, não se trata apenas de destinar recursos ao problema, mas sim de mobilizar as comunidades para se unirem e alinharem seus esforços.

Portugal, como muitos países, enfrenta tensões em relação à migração. Gabriela é rápida em apontar que a migração não é inerentemente boa ou ruim—é simplesmente parte da experiência humana. “Sempre migramos. Sempre vamos migrar”, diz, incentivando as pessoas a pararem de tratar a migração como um bode expiatório para os problemas na saúde, educação ou habitação. Em vez disso, defende que as questões reais sejam abordadas, em vez de usar a imigração como uma explicação abrangente.

Política: uma possibilidade para o futuro?

Quando perguntada se consideraria uma carreira política, Gabriela não descarta a ideia. “Talvez, se isso fizer diferença. Se eu sentir que posso fazer a diferença, então sim.” Gabriela hesita, pois não gosta de ver as questões a preto e branco. Para ela, o progresso significativo requer conversas abertas e honestas, não apenas ganhar debates. “Eu não quero ganhar uma discussão. Quero ter uma conversa”, diz.

Gabriela: “Eu não quero ganhar uma discussão. Quero ter uma conversa”. Foto: Rita Ansone.

Instigada sobre qual seria o seu slogan de campanha, Gabriela partilha uma frase comumente usada no Lisbon Project: “A integração começa com a pertença.” Ela também se inspira na famosa citação de Nelson Mandela: “Parece impossível até ser feito.”

Um dos casos mais difíceis que Gabriela enfrentou envolveu uma mãe de Gana fugindo da mutilação genital feminina (MGF) com a sua filha. Ao chegar a Portugal, a mulher entrou em trabalho de parto no aeroporto e foi levada à pressa para o hospital. Tragicamente, por causa de um mal-entendido em relação aos seus documentos, o recém-nascido e a filha de três anos foram levados pelas autoridades. Esta mãe fugiu para Portugal em busca de segurança, mas enfrentou uma separação inimaginável.

Gabriela, profundamente tocada pela situação, especialmente porque ela mesma havia acabado de dar à luz, trabalhou ao lado de advogados três meses para reunir a mãe com os filhos. “Foi uma história que realmente me comoveu e me mudou de certa forma”, reflete ela, enfatizando o impacto profundo que essas experiências têm em seu trabalho.

Empatia

Quando perguntada por que continua a fazer esse trabalho desafiador, a resposta de Gabriela é clara: “Quero mobilizar as pessoas para a empatia.”

Ela acredita em ajudar as pessoas a perceberem que fazem parte de algo maior que elas mesmas, incentivando-as a viver com propósito e compaixão. A missão não é apenas fornecer apoio, mas também transformar a maneira como as pessoas veem seu papel no mundo.

Ao encerrar a conversa, Gabriela deixa uma mensagem simples, mas sincera: “Viva a vida com um propósito. Entenda por que está na terra e viva isso.” As suas palavras, como o seu trabalho, são uma chamada à ação—um lembrete de que cada pessoa tem o poder de fazer a diferença na vida dos outros.

O Lisbon Project é uma organização sem fins lucrativos dedicada a construir uma comunidade que integra e capacita migrantes e refugiados. Para mais informações, visite Lisbon Project.

Este texto é uma parceria da Mensagem com o projeto People of Lisbon, de Stephen O’Reaggen e Rita Ansone. Inscreva-se na newsletter do People Of Lisbon em People of Lisbon Meetups

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