A guerra dos tronos deu-se na Maternidade Alfredo da Costa, centro de Lisboa, entre o Natal e o Ano Novo. Estávamos quase a 31 e talvez ali se lutasse por abrir os telejornais com o bebé do ano. Essa é uma luta de que uma mãe de gémeos abdica de bom grado: ninguém quer ter um filho número 1, se isso implica que o outro passe a filho número 2, muito menos nos primeiros segundos de vida.

Quem segue as notícias, locais ou nacionais, já sabe do que a casa gasta. Os serviços de obstetrícia estão caóticos, faltam médicos, faltam meios, faltam hospitais abertos, falta tudo – só não falta gente grávida a pedir epidural. Pasme-se: no meio de tanta falta, pelos vistos até faltam cadeiras.

Deu-se o azar de as urgências do hospital de Santa Maria estarem em obras. Confirmei isto numa consulta em que, acima da voz maviosa da médica, ouvia um PAM PAM PAM de um construtor civil. Durante essa consulta, pensei na minha avó, falei ao além-túmulo: querias tu que a minha vida fosse esta, querias tu ter tido uma neta doutora que passasse o dia nisto a olhar para pacientes e a levar com marteladas nos ouvidos? Nunca fiquei tão feliz por não ter dado nada de jeito na vida, por ser uma escritora de quem parente nenhum se orgulha. Às vezes, até se ouve o tom piedoso de um primo distante que diz: “Ah, sabes como é, ela não é bem trabalhar, é mais escrever umas coisas ou assim. Na verdade, não sei bem o que é que faz. Cá em casa, nunca ninguém leu os livros dela, que também não devem ser nada de jeito. Nós é mais Colleen Hoover, café e televisão.”

Mas continuemos. Os pisos do Santa Maria em obras e, segundo a Saúde24, o S. Francisco Xavier fechado. Tive pena, era o que me dava jeito e, da última vez que lá fui, as urgências foram como um foguete – e ainda por cima havia luz natural. Pelos vistos, estes dois últimos hospitais, amigos há uns dias, meteram-se há pouco à bulha, e ninguém sabe bem qual será o novo casamento da capital do país. Claro que, se as direcções começam a queimar pontes, daqui a pouco já ninguém se arrisca a fabricar nenhuma.

Lá acabei na MAC, onde já não ia desde que uma amiga confundiu um episódio de incontinência com águas a rebentar a menos de meio da gravidez. Eu, que até sou optimista, coisa que de pouco me tem valido, a achar que de lá sairíamos com um diagnóstico catastrófico, e a catástrofe foi mesmo alguém ter chegado à velhice antes do tempo. Nada disto foi confirmado por médica nenhuma, mas quem não gosta de espetar um alfinete, ainda para mais numa amiga próxima, ainda para mais nesta época de amor?

Voltemos ao cerne. MAC, dia útil a parecer feriado, hospitais à volta em obras ou gazeta, um país a atrofiar num SNS destruído apesar do maior orçamento de sempre para a saúde. Se quem lá vai não estivesse preocupado com o próprio corpo e mais nada, assim como com o ou os que gera lá dentro, talvez tivesse tempo para indagar como raio é que o governo em vias de extinção conseguiu dar cabo de tanta coisa em tão pouco tempo. Claro que Passos Coelho e amigos terão culpa no cartório, mas é uma culpa que em breve deixará de ter escape. A troika tem sido muito útil para muita coisa, mas foi chamada por um PS que não soube para que lado se virava para a esquerda nem soube gerir nem ter pulso para nada.

Oi? Voltemos ao cerne, a sério. Uma coisa é ser optimista crónica, outra é ser estúpida. E só sendo estúpida é que, naquele dia, eu não julgaria que a MAC também estaria o caos. O Bolt deixou-nos à porta, a mim e à minha senhora, porque estacionar em Lisboa já não é para meninos. Logo da porta, vimos o caos instalado. Aquilo era um pandemónio lá dentro. Dezenas de pessoas, umas de pé, outras sentadas, várias línguas, etnias, cores. Vários cheiros de muita gente diferente a suar face ao calor que dava o ar condicionado. Uma miúda com vestido padrão oncinha, que ainda governo nenhum teve a bravura de ilegalizar. Outra com sapatos que pareciam feitos de renda. Uma senhora bem vestida, de sapatinho preto verniz, com um filho todo guna, de fato-de-treino da Lacoste e chinelos metidos numas meias pretas, meio à teen que começou a fazer dinheiro com a droga, meio à beto que quis ser maçã a cair a quilómetros da árvore, mas manteve o crocodilo na lapela. Na secretária de atendimento, pasme-se: ninguém.

Mas enfim, lá chegou o homem, ainda mais antipático do que eu, e deu-se início ao processo. Desse processo não falarei, que não tem graça nenhuma. Mais vale olharmos todos para que se passava nas cadeiras. Poucas para tanta gente, deram ali início à guerra dos tronos. Essa guerra, em vez de feita por mulheres grávidas, era feita pelos acompanhantes. Isso mesmo, no masculino e tudo, esse masculino que não podia ali ser paciente.

Olhando à volta, viam-se muitas grávidas, algumas com barrigas a fazer lembrar abóboras. Aquilo era gente que já tinha gente mortinha por nascer. Umas sentadas, outras de pé, com barrigas a lutar contra a lombar. Nas cadeiras, cinco ou seis homens a brincar com os telemóveis. A prioridade das outras valia pouco face a certo conforto, mesmo que o conforto estivesse em serviços mínimos e consistisse em estar alapado num lugar desconfortável.

Isto de revirar os olhos é uma coisa muito portuguesa, principalmente lisboeta. Em certos lugares do Minho, isto seria resolvido à lapada. Ninguém dizia nada, criticava-se por dentro. Ninguém ia lá espetar um soco aos gajos, que, coitados, talvez tivessem testículos mais pesados do que oito meses e meio de bebé e precisassem mesmo do consolo da cadeira, agora transformada em trono. E por um trono zela-se até ao fim, independentemente do resto.

Passado um bocado, lá veio uma enfermeira furiosa. Dizia só: “Acompanhantes, por favor! Por favor!” Ainda houve quem tivesse perguntado: “Por favor o quê?” Mas o favor que se pedia era o mínimo do civismo: “Por favor, levantem-se, e dêem as cadeiras às senhoras grávidas.” A enfermeira, convém dizer, devia estar ali às portas do esgotamento, tendo seguido uma senhora a quem perguntou se tinha acabado de lhe fazer um CTG.

A seguir, virou costas. Os gajos, nada. Continuaram sentados sem prestar cavaco a ninguém. Minutos depois, levantou-se uma barrigudíssima para a triagem. Outras barrigudíssimas havia, ainda à espera do descanso. Mas nem deu tempo: assim que viu a cadeira livre, um homem resolveu sentar-se lá a mostrar vídeos engraçados do TikTok à mulher que acompanhava. O povo lisboeta, sempre tão manso, agora reforçado pela indignação de uma profissional, começou a mandar vir. O gajo reagiu com indiferença, ao mesmo tempo que parecia saber que estava em falta: “Sim, sim”, disse ele. Mas se “Sim, sim”, para quê criar o problema? Sentou-se lá uma grávida com cara de quem estava prestes a saber o sabor das contracções.

Passou-se outro bocado e o homem sentou-se. Mal uma seguia para a triagem ou o atendimento, aquilo era uma Rosa Mota a correr por ali fora. Havia sempre grávidas de pé. Se as barrigas pareciam abóboras, os tais testículos, pesados e coitados, deviam ser de chumbo – eu, que levo dois na barriga, bem sei o que eles pesam. Para que ninguém ousasse lançar-lhe olhares passivo-agressivos, suponho, o gajo colava o olhar ao telemóvel. Nisto, após a triagem, ausentámo-nos nós por uns minutos. Quando voltámos, assistimos à maior concentração de genitália masculina no mobiliário de uma maternidade pelo menos desde o século XVI.

As grávidas continuavam de pé. Uns seis gajos estavam felizes da vida sentados. Eu encostei-me a uma parede, com a mão na barriga a fazer festinhas aos bebés, que têm andado a fazer sapateado mesmo sem terem sido ensinados. Nova funcionária chegou, e desta vez aos berros, ordenando aos acompanhantes que se levantassem. Completou: “Se as senhoras quiserem sentar-se, sentam-se. Se não, não se sentam. Mas não têm de andar nisto.” Dos seis gajos, só um se levantou. O anterior continuou sentadíssimo da vida, tranquilíssimo da silva. Perder o trono podia deixá-lo de pé durante um período dinástico ou mais.

Pouco tempo passou até que o homem que se levantou achasse que estava mais confortável sentado, isto num dos tais momentos em que uma mulher grávida foi chamada lá para dentro. Voltámos à dança das cadeiras, à guerra dos tronos. Grávidas entravam e os homens, coitados, deviam andar todos ceguinhos. Nem olhavam, nem as viam. Continuavam descansados, que isto de existir sem peso na barriga também custa. Um até aviou dois Mars para ver se também tinha pança. O tal anterior, a quem tive vontade de espetar x-actos nos olhos, ausentou-se por uns minutos, mas só um cepo não se ia precaver: antes de sair, deixou a mochila na cadeira, guardando o lugar, não fosse uma besta de uma grávida meter-se lá sentada.

Com esse, eu ia usando a minha arma mais forte: o meu olhar de quem quer que alguém caia, que na verdade nunca serviu para ferir ninguém. Ali, havia ainda a minha confusão: aquilo seria falta de civismo, de educação, de noção? Aquilo seria a misoginia entranhada que vai sussurrando ao ouvido que as mulheres que aguentem o que houver, mesmo que numa ala hospitalar específica, santo deus, para quem produz estrogénio e pode ter pequerruchos na barriga? De tão avariado da cabeça, de tão sem noção da vida, esse homem fez-me lembrar outro de uma história que me foi contada: esse que se queixou à enfermeira de que o parto demorava mais do que o previsto e que, já agora, lhe pedia se podia atrasar aquilo mais duas horinhas, que tinha um jogo de futebol para ver.

Lá fizemos o que tínhamos ido lá fazer. À saída, ainda reparámos neles, tão refastelados, e numa desgraçada que parecia ter as costas partidas ao meio. No trono, como acontece na vida em geral e no mundo, pareciam estar sempre os mais estúpidos. Cheguei a casa, já mais descansada, sentei-me no meu sofá confortável com a almofada ortopédica de apoio para a lombar, e escrevi uma crónica. Foi uma tarde bem passada.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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