A literatura ainda respira no bairro do Rego. Praticamente em extinção numa zona sem livrarias e  bibliotecas públicas, há três anos a editora luso-brasileira Gato Bravo contrariou a tendência e abriu as portas na pacata rua Veloso Salgado. A presença da editora ainda não é sinal do regresso dos livros ao Rego, mas pode servir de ponte para que esse caminho aconteça.

A Gato Bravo funciona desde 2020 num espaço comercial no rés-do-chão do prédio para onde a editora carioca Paula Cajaty mudou-se com o marido e as filhas. Quando escolheu o Rego para viver em Lisboa, Paula não sabia que a área carregava o “estigma” de um bairro social, até porque no Brasil o termo tem um contexto bem distinto.

“Um bairro social no Brasil não se parece em nada com este bairro, nem na aparência urbanística nem na funcionalidade. Quando começamos a procurar um apartamento, não sabíamos que existia esse estigma e só começamos a perceber isso quando vimos que os preços eram mais baixos em relação a Lisboa”, lembra Paula.

Paula Cajaty, editora da Gato Bravo: “O bairro do Rego é tranquilo e bem servido. Não se percebe o estigma que carrega.” Foto: Líbia Florentino.

Esta é uma reportagem do projeto Correspondentes de Bairro

Há três anos no bairro, Paula mesmo assim não consegue perceber o porquê do deságio no preço dos imóveis. 

“O bairro do Rego é muito tranquilo e bem servido em lojas de serviços de estética, reparos de roupas e malas, lavandaria, restauração e pastelaria. As minhas filhas fazem faculdade a uma curta distância de casa. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde era preciso ir de carro para todos os lados, aqui é possível percorrer tudo a pé”, avalia a editora.

A instalação da editora e da família carioca em Lisboa, porém, respeitou o tempo da pandemia e exigiu uma “ginástica” de Paula e do marido. “Como todas as lojas estavam encerradas, compramos o mobiliário para o escritório e a casa no OLX. Agendamos a entrega para um só dia, alugamos um carro e percorremos os sítios um a um, recolhendo os móveis”, recorda-se. 

Devidamente instalados e já sem as restrições dos confinamentos, Paula e a família estabeleceram uma relação com a vizinhança e fazem parte de um grupo de “vizinhos na casa dos 50 pra cima” que frequenta as manhãs de sábado na Tia Ida – a pequena porta entre a mítica Adega da Tia Matilde e o famoso O Nelson. 

“No sábado, quando faz um solzinho, lá pelas onze da manhã, partimos numa expedição cultural para nos reunir com os vizinhos no pré-almoço, tomando uma cervejinha, acompanhada de coxinha de galinha e ouvindo Roberto Carlos. Foi lá, na Tia Ida, inclusive, que descobri a existência do panaché, uma delícia”, revela Paula.

Uma ponte literária entre Brasil e Portugal

As expedições culturais de Paula Cajaty em Lisboa, porém, são anteriores à mudança para a capital portuguesa. Neta de um português que emigrou da vila de Loriga, em Seia, para o Rio de Janeiro, desde o início da carreira de publisher, ainda no Brasil, Paula tem estreitado os laços da literatura lusitana com o mercado editorial brasileiro.

Formada em administração editorial, em 2012 Paula abriu no Rio a editora Jaguatirica, que rapidamente se tornou um canal para a divulgação dos autores portugueses no Brasil. Primeiro, de forma esporádica, atendendo a pedidos dos escritores interessados em aceder ao público brasileiro, depois através de uma coleção específica, intitulada Lusofonia

Ainda no Brasil com a editora Jaguatirica, Paula começou a publicar autores portugueses no mercado brasileiro. Foto: Líbia Florentino.

“Aproveitamos uma iniciativa da DGLAB que incentivava a publicação de autores portugueses fora de Portugal e em 2017 criamos a série Lusofonia, publicando inclusive inéditos de nomes como Luís Serguilha, António Carlos Cortez, Luís Carmelo e Paulo José Miranda. A coleção segue até hoje, mesmo com pouco ou nenhum apoio e, em 2024, sairão os 25.º e 26.º volumes”, afirma Paula.

Mais ou menos na mesma época, a editora brasileira começou a publicar autores portugueses também em Portugal. “Lembro-me de que ainda com os ventos da troika de alguns escritores de Portugal nos procurarem. Foi assim em 2015, quando fizemos um lançamento de uma pequena tiragem de um livro do António Carlos Cortez na livraria Pó dos Livros.”

A partir de 2018, com a chegada de uma nova vaga da imigração brasileira a Portugal, “de classe-média e bem instruída”, a balança de publicações de portugueses no Brasil e de brasileiros em Portugal começou a se equilibrar. “Começou a surgir uma procura de escritores do Brasil interessados em terem os seus livros publicados do outro lado do oceano”, diz Paula.

Vem daí a ideia de a carioca Jaguatirica ganhar um braço lisboeta. “Numa das vindas a Lisboa para assinar um contrato com o Luís Carmelo, que é autor da Abysmo, logo depois fomos jantar com o João Paulo Cotrim (antigo editor da Abysmo, morto em 2021) e tanto ele quanto o Carmelo passaram a noite a me incentivar a abrir uma editora em Portugal”, conta Paula.

“Só me alertaram para escolher um outro nome, pois disseram que dificilmente os portugueses iriam acertar de primeira a pronunciar Jaguatirica. Daí, pensamos num correspondente local ao felino amazónico e lembraram na mesa do gato bravo da serra. Estava escolhido o nome, Gato Bravo”, completa.

Desde então, a Gato Bravo já publicou cerca de 50 autores em Portugal, entre eles 12 escritores brasileiros, alguns premiados no Brasil em Portugal.

Um bairro que poderia ser um livro

As coincidências entre a jaguatirica e o gato bravo vão além de serem felinos selvagens e nomes de editoras. “Ambos estão em constante risco de extinção, assim como os livros”, compara a editora carioca, que tem uma visão otimista sobre o futuro do mercado editorial. 

“Logo quando abri a Jaguatirica, em 2012, estive na Feira do Livro de Frankfurt e o que se só se ouvia falar lá era o fim do livro de papel. Voltei da Alemanha certa de que o papel estava com os dias contados e montei toda a estrutura da editora para ser apenas digital. Mas, contrariando a tendência, todos os meus autores queriam os livros publicados em papel para poderem autografá-los”, revela Paula.

Foto: Líbia Florentino.

É com essa mesma vontade de contrariar as tendências que, a partir do bairro do Rego, a modesta editora tem levado autores brasileiros e portugueses a eventos importantes, como a Feira do Livro de Lisboa e o Festival Literário Internacional de Óbidos (FOLIO).

Sobre como trazer a literatura de volta ao bairro do Rego, os planos começam a surgir.

“Por enquanto, a nossa estrutura funciona como um escritório editorial, onde recebemos os nossos autores, mas há já pensamos em uma sinergia maior com o bairro, quem sabe em parceria com a Junta de Freguesia das Avenidas Novas para criar uma feira do livro e um concurso literário que tenha como tema o bairro do Rego”, revela.

Até porque, remata Paula, “assim como todas as localidades de Lisboa, ou talvez ainda mais, pelo mosaico humano, pela comunidade cigana e de filhos de imigrantes de África, o Rego reúna as condições em ser cenário para um livro”.

A Gato Bravo tem dezenas de autores em Portugal, alguns brasileiros, como autor desta reportagem, o jornalista da Mensagem radicado em Lisboa, Álvaro Filho, escritor de Meu Velho Guerrilheiro.


*Inês de Sousa tem 19 anos, nasceu e cresceu no Bairro do Rego, na freguesia das Avenidas Novas, em Lisboa. É uma das Correspondentes de Bairro da Mensagem. Sempre acompanhou a Associação Passa Sabi, onde nos últimos anos ganhou mais responsabilidade. As paixões que tem hoje foram descobertas aqui, no bairro e na Associação, graças ao trabalho diário e às oportunidades que lhe me proporcionam. Por isso, diz ser uma pessoa feliz.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


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