Igor olha para o topo da encosta do Porto Brandão, em Almada, onde fica o antigo Lazareto de Lisboa, hoje também conhecido como Asilo 28 de Maio, e desabafa: “Os meus pais sempre me contaram histórias, mas eu não conhecia a do Lazareto. Gostava mesmo de entrar.”
Com 16 anos, é um dos jovens da associação Lifeshaker, do Monte de Caparica, que, durante quatro semanas, embarcou numa aventura: construir um espetáculo de teatro de sombras a partir do território de Porto Brandão. Uma localidade da União das Freguesias da Caparica e Trafaria, em Almada, parada no tempo há 50 anos – como contou a Mensagem nesta série.
É aqui que se encontra o Lazareto de que Igor fala, o edifício abandonado que foi lugar de quarentena no século XIX, orfanato no início do século XX, casa para os que vieram das ex-colónias depois do 25 de Abril e, agora, propriedade da empresa REFORMOSA, que ali propõe a construção de um hotel.
Este edifício foi ponto de partida para a criação de “A sombra à sombra”, apresentado no dia 15 de dezembro na Oficina de Artes e Ofícios de Porto Brandão – um espaço cedido pela Fundação Serra Henriques, num projeto promovido pelo Colectivo Trilhos em parceria com a Lifeshaker, e financiado pela DGARTES.




A criação e direção artística é de Letícia do Carmo e Sandra Cardoso, com colaboração de Sara Wittmann, música ao vivo de Hugo Wittmann, contando ainda com o apoio à criação de Sónia Vieira Cardoso, de Joana Aleixo e Julie Musialek.
Porquê Porto Brandão?
Serafim, de 13 anos, sai de trás da cortina com uma coroa reluzente na cabeça, e ordena: “Construam outra cidade!”.
Por detrás da cortina, blocos são derrubados e recolocados numa nova configuração. É assim que começa “A sombra à sombra”, um espetáculo que faz uma “atualização” da sátira política de Rafael Bordalo Pinheiro (que passou pelo Lazareto vindo do Brasil).
E que propõe um novo olhar sobre o território de Porto Brandão.

Mas como surgiu o interesse por esta localidade esquecida? Para Letícia, do Colectivo Trilhos, o fascínio por Porto Brandão já remonta há vinte anos quando, ainda estudante de Arquitetura, projetou uma escola de artes para o Lazareto ou Asilo 28 de Maio. “Fiquei fascinada com a história.”
Entretanto, o Colectivo Trilhos tem vindo a desenvolver trabalho com a comunidade à volta do teatro de sombras. “Nas sombras, há uma componente plástica e de contacto entre público e atores que nos interessa neste trabalho com a comunidade”, diz Sandra Cardoso. Para além disso, acrescenta Letícia, “no teatro de sombras, há a escolha entre expores-te ou não. Conjugamos entre quem quer ficar atrás da cortina ou à frente.”
Assim, depois de terem trabalhado com a comunidade sobre o Monte de Caparica e a Trafaria, fazia todo o sentido continuar no Porto Brandão.


O trabalho que coincidiu com a publicação da série da Mensagem, que serviu de material de apoio para a criação do espetáculo.
“Os miúdos, quando viam os episódios, diziam: ‘ai, eu conheço este senhor, eu conheço este sítio!’”, conta Letícia.
Por detrás da cortina na Oficina de Artes e Ofícios é, pois, possível encontrar figuras e marionetas alusivas a algumas personagens que surgem também na série da Mensagem, como Joaquim Xarepe, o último morador do Asilo 28 de Maio.

Construir cidade, construir um espetáculo
“Constroem-se cidades, destroem-se cidades…
Um dia o Povo acorda. Mas…
É dia de eleições no Bairro Amarelo e há discussões, abraços, brigas e danças.
Viaja-se do Monte da Caparica até Porto Brandão.
E que ruína misteriosa é aquela lá em cima da ravina e que histórias tem para nos contar?
Que relações de poder existem entre espaço e pessoas no Lazareto/Asilo 28 de Maio e no Bairro do Asilo, sítio onde hoje vivem os novos moradores daquele imponente edifício?
Voltam-se a construir cidades, mais cidades, sem parar. Eles fazem planos, e nós, o que achamos? Como será o futuro em 2030?”
Sinopse de “A Sombra à sombra”
“Tudo começou com a ideia de construir cidade”, contam Alice, Sofia e Mara, das mais velhas de um grupo com idades entre os 12 e os 16 anos. O processo de construção começou com um período de investigação, em que o coletivo se dedicou a extensivas leituras sobre Bordalo Pinheiro e o território de Almada – leituras que seriam, claro, fontes de inspiração.
Depois, fizeram de Porto Brandão morada para uma residência artística, onde perceberam como trabalhar sobre esta terra.
Até que chegou a altura dos mais pequenos se juntarem à aventura. Com objetos reciclados, os jovens construíram a sua cidade, o seu bairro. E, a este exercício, seguiu-se uma visita aos bairros reais. “A ideia era que nos apresentassem o bairro deles, e daí tirámos alguns elementos para o espetáculo final: fizemos desenhos, captámos sons, tirámos fotografias…”, recorda Sandra.



Palmilharam o Monte de Caparica, onde o Colectivo Trilhos percebeu que havia um bairro por todos admirado: o Bairro Amarelo – e daí o espetáculo também começar ali mesmo, no dia de eleições.
A aventura continuou com mais visitas. Primeiro, a Lisboa, ao Museu Bordalo Pinheiro, para que percebessem melhor a ideia de sátira política por detrás dos desenhos e gravuras de Bordalo, alguns dos quais estes pequenos atores representam em forma de estátua no espetáculo.
Depois, a Porto Brandão, claro.
Desse território, que a maioria já conhecia, o que melhor recordam são as entrevistas aos moradores, especialmente a Joaquim Xarepe, e a história do Lazareto/Asilo 28 de Maio. “É sem dúvida a história mais interessante!”, dizem Igor e Serafim com entusiasmo.
Todas estas visitas serviram como inputs criativos. “Juntámos as peças todas: áudios, fotografias, fizemos exercícios de escrita criativa e de teatro do improviso…”, relata Sandra. E tudo culminou num grande espetáculo. Em sombras.

Como será Porto Brandão em 2030?
Com base nesse trabalho, descobriram-se talentos escondidos em todos os miúdos: há quem saiba brincar com onomatopeias, quem faça rap como ninguém e quem muito goste de cantar em inglês… Mas não foram só descobertas, foram aprendizagens. “Aprendemos a trabalhar em grupo, passámos a conhecer as histórias antigas”, dizem Sofia, Mara e Alice.
Sandra resume: “Para os mais velhos, ficou a ideia do trabalho criativo com pensamento crítico por detrás”. O pensamento crítico que foi também estimulado como uma grande pergunta que se lança no espetáculo: “Como será o futuro em 2030?”. E Letícia conta, divertida: “Houve um menino que disse que o Minipreço ia ser o Grande Preço e que o hotel do Lazareto seria assombrado!”.
Sandra recorda como todos mostraram uma grande preocupação com o lixo. “Achei engraçado que havia entre todos esta ideia de que, em 2030, quem vai construir vai ter de limpar.” Uma ideia que talvez surja ligada ao grande projeto do Innovation District, que nascerá em Almada, abrangendo a zona do Porto Brandão.
Para todos, “A sombra à sombra” foi isso mesmo: a descoberta de um outro Porto Brandão, das suas vidas passadas e futuras.
Quanto a tudo isto, a pequena Alice tem algo a dizer: “Porto Brandão é um lugar com coisas estragadas mas, se fosse reconstruído, ficaria um lugar bonito.”


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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Assisti a este espectáculo e adorei. Onírico e um pouco confuso, como não podia deixar de ser, feito por adolescentes e crianças. As imagens tinham força e eram envolventes. Criativo e sedutor, sem dúvida.
Os resultados do projecto “A sombra à sombra”, foram apresentados sob a forma de um Teatro de Sombras que se revelou encantador e encantado.
A criação e direcção artistica de “A sombra à sombra” foram de Leticia do Carmo e Sandra Cardoso e contou com a colaboração activa de crianças e jovens do território.