Antes insectos. Em tempos idos, e bons, eram insectos. Bastavam insecticidas, bastava pôr-lhes um pé em cima. Agora não há nada a fazer – é mesmo sofrer a miséria que nos dão.
Lembro-me de ler nas notícias que Lisboa, ao invés de meninas e moças, de mulheres da minha vida, estava cheia de percevejos. As notícias eram claras e lavavam as mãos à cidade: os bichos tinham vindo lá de fora, mordiam-nos à grande e à francesa, corriam pelos colchões para inglês ver, tinham fome de alemão. Mas de nada importava de onde vinham: estavam aí para nos lixar e não mordiam nem sugavam menos do que lá na terra deles. Por várias casas, os lisboetas em pânico puseram as mãos na cabeça, e a seguir puseram mãos à obra: lavar lençóis em água a ferver, inspeccionar os colchões, aspirar a casa toda a vapor quente, procurar ninhos, sentir nojo. Se isto falhasse, havia que chamar uma empresa de desinfestação. Se até isto falhasse, e nos levasse 300 euros para nada, era mudar de casa e pronto, ir para um sítio qualquer onde a praga não estivesse. Tenho uma amiga que saiu da Penha de França assim. Nunca mais a vi desde que se mudou para Almada.
Ora, entretanto chegou a outra praga, e os influenciadores – ou influencers, que é mais chique – tomaram-nos conta da cidade. A lei está do lado deles – não podemos mandar-lhes Raid para cima, nem sequer um gás-pimenta para os deixar à nora dez minutos. Têm um estatuto jurídico igual ao nosso, liberdade para andarem pelas ruas a sorrir para os telemóveis, falando com Tamagotchis como se fossem gente, dizendo “Olá, malta!”, dizendo que “EU AMO os meus followers, são, tipo, bué importantes para mim”, garantindo que estão a pensar neles enquanto estão na fila para a Primark, que toda a gente tem de conhecer, claro, aconselha-se muito, e tem “promoções TOP para uma época natalícia AINDA MAIS mais BRUTAL”. É verdade que o Natal começou de forma bruta: por Belém, Herodes queria matar bebés. Mas os tempos são hoje outros e agora só se quer rabanadas, tapetes peludos, casas quentinhas. Claro que para isto também os influenciadores têm conselhos, não porque percebam disto ou daquilo, mas porque é tudo muito lindo, é tudo muito óptimo, é tudo “OH MEU DEUS, UMA MARAVILHA, LOOOL, VOCÊS TÊM *MESMO* DE EXPERIMENTAR ESTA MANTA COM LANTEJOULAS DA C&A, É BUÉ CONFORTÁVEL!!!”. São criaturas que andam por Lisboa cheias de certeza, mas também cheias de dúvidas: fazem votações online para que o povo português, o séquito, os amigos online, escolham as meias que eles vão levar à missa no domingo seguinte. Expõem filhos, maridos, cães, gatos, sogros, vizinhos, gente que tem o azar de se cruzar com eles no Chiado, e tudo merece um bonequinho com corações no lugar dos olhos. Nunca vi gente tão feliz nem gente tão irritante. Até quando dizem que são infelizes conseguem ser felizes. É que os influenciadores também choram, também têm dias maus. Desengane-se quem achar que a vida é como no Instagram. Às vezes, só para o provarem, tiram uma fotografia de si mesmos, com os olhos molhados de lágrimas a sério ou de gotas da torneira, e escrevem um testamento banal a querer passar por filosófico. Difícil, dos exemplos que tenho visto, dizer-se tão pouca coisa usando tantas letras. Mas a boa intenção está lá, porque são todos boa gente, preocupam-se até com a pele de quem os segue, tal como as marcas TOP se preocupam com o bem-estar da família toda, daí enviarem-lhes um perfume para o marido, “QUE ADORA, É MESMO O PREFERIDO DO LOURENÇO”. Falam mesmo assim, em maiúsculas, histéricos, e a mensagem final é sempre a mesma: “Eu sei que vocês invejam este estilo de vida LIN-DÉR-RI-MO que eu apresento, mas olhem que a minha vida não é um mar de rosas.” Imagine-se o que é passar os dias a fazer parcerias com marcas de amaciadores e óleos para o cabelo, e depois recebê-los às toneladas em casa, e depois ter caracóis hidratados que são assim ao natural – “Woke up like this, e o Lourenço a-do-rou!”.
Eu tento não perder a paciência, mas já se viu que é difícil. Há uns anos, tomei a decisão de não parar a minha vida por causa de turistas. O turista é aquela espécie rara que acha que o mundo tem de fazer uma pausa porque ele quer uma fotografia bem tirada em frente a uma estátua ou a uma montra com latas de sardinhas. Prefiro passar por antipática perante um Kevin qualquer que nem conheço do que perder trinta segundos de dois em dois minutos sempre que passeio pela Baixa. E claro que não me vou pôr a explicar, ainda por cima em inglês, que a ONU não protege coisas destas, que tirar fotografias a solo numa cidade pejada de turistas e sobrelotada de gente não é um direito humano. Ora, depois dos turistas, veio esta espécie, intrometida, barulhenta, totalmente desavergonhada.
Ainda ontem, na feira de Natal do Rossio, lá estava um exemplar. Aquilo moeu-me logo o juízo. Eu só queria uma noite descansada a olhar para chouriços e chocolate quente, levar uns encontrões de vez em quando, estar à vontade de um lado para o outro, sempre com as mesmas voltas. Cheirar o Natal, agora que estamos às portas de Dezembro. Em vez disso, saí de lá já a parecer o Scrooge. É que a influenciadora resolveu raptar o espaço. Pôs-se em frente a uma barraca, teve o desplante de tecer um cordão de segurança, e o namorado ou segurança ou membro da equipa técnica ou eu sei lá filmava-a enquanto fazia as suas tentativas. Num segundo, ei-la soturna. Noutro, eis a máquina fotográfica ligada, e o mesmo discurso: “Malta, isto aqui no centro de Lisboa ’tá TOOOP! Venham, vocês vão AMAR! Resolvi vir com o Lourenço, tem sido um dia óptimo, assim para descomprimir, e a Bebecas também está a delirar com isto! Trouxe este conjunto da H&M, que é mesmo fan-tás-ti-co para este frio, estou quentinha, quentinha, super confortável! Cheira a doces de Natal e ao novo gel de banho que a Dove mandou para o maridão, e que vocês podem comprar através link que está a aparecer aqui na tela! Aproveitem o código #MATILD76 para terem 10% de desconto! Daqui a uma hora, vou estar num evento top, mas ainda não posso dizer qual é! Depois conto-vos tudo! Recebi um convite in-crí-vel! Estou-me a passar, malta, e mal posso esperar para vos contar! Querem saber tudo?” E depois – e isto verifiquei eu na Internet, quando saí do centro de saúde, onde tomei medicação intravenosa para excesso de pontos de exclamação e dor aguda de alma – meteu uma votação online, na qual os seguidores, como quaisquer bons seguidores, tinham duas hipóteses: 1) SIM, SIM, SIM!!!; e 2) OH MEU DEUS, CLAAAAAARO!!! Ora, isto não choca quem já viu os influenciadores a criarem votações para que perfeitos desconhecidos finjam que lhes decidem os nomes dos próprios filhos, mas mói na mesma a cabeça.
Quando alguém tentava furar o cordão de segurança, que servia para que a menina Matild76 apanhasse o Pai Natal lá atrás sem que gente normal a chateasse, era um dia de juízo. A cara alegre, doentiamente alegre, volvia-se outra. Em vez de alegria de plástico, o cinzentismo da vida. E logo o discurso: “Desculpe, mas tem de ir à volta, sim? A gente estamos aqui a trabalhar.”
Cansei-me, saí da feira, eu, que adoro as feiras que já não pertencem aos transeuntes que querem a graça do momento. A feira agora é para meter palha no Instagram. A vida já não serve para sermos felizes juntos, só para ver quem é que, entre nós, consegue roubar likes aos desgraçadinhos que nos vêem lá de casa.
Chegada ao Largo de S. Domingos, ainda vi mais dois ou três. Passei o Martim Moniz, comecei a subir a Rua da Palma. Lá estavam os carros da polícia, e a polícia também, mas eu sabia que não podia denunciar aquilo. Mas há que arranjar um plano b: posso não lhes mandar Raid para cima, mas agora, sempre que saio de casa, esfrego-me em insecticida a ver se os afasto.
A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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