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Em tons ocres, avermelhados, certos amarelos, laivos de azul e cor metálica, as marés do rio Tejo imprimiram níveis distintos de oxidação em placas de aço que ali estiveram submersas, todas em diferentes períodos de tempo desde 2020. Foram ali mergulhadas (umas durante duas semanas, outras até dois anos) pelo artista, velejador e surfista Rui Soares Costa, que decidiu deixar a criação da sua arte ao sabor destas marés. E, quando recolhe estas peças da água, traz uma mensagem com elas.

Batizadas num projeto chamado “Rising Series“, estas obras de arte nasceram como fruto de mais de dez anos de observação do artista, a admirar o rio Tejo desde as janelas do seu atelier no cais de Olho de Boi, em Almada. “As pessoas sempre me disseram que o lugar era inspirador. Embora, na altura, o meu trabalho essencialmente conceptual pudesse ser realizado num bunker. A série Rising, pelo contrário, resultou da influência de ver o Tejo o tempo todo, de olhar ao meu redor”, vai contando o artista, ali com Lisboa ao fundo, neste início de Primavera.

E não o fez sozinho.

Cada placa de aço, de diversos tamanhos, foi pendurada no cais do Olho de Boi, com a ajuda de braços dos pescadores da região e com a força de uma antiga grua – que ainda ali está a lembrar os tempos em que existia a Companhia Portuguesa de Pesca e o bairro dos operários que laboravam na reparação naval da frota de navios de pesca da empresa. Em parte destes terrenos, está hoje o Museu Naval de Almada.

O que dizem as marés (e a arte) sobre como está o mundo a mudar

Algumas das peças de aço (com dimensões que variaram entre 30 x 20,75 e 200 x 140 centímetros) ficaram suspensas em alturas diferentes, expostas à ação das marés por duas ou três semanas, conforme as suas variações de amplitude (entre meio metro e até cerca de quatro metros de altura).

E a colocação das peças obedeceu a um certo critério: “Os parâmetros foram a geolocalização (coordenadas de GPS), a altura relativa ao Zero Hidrográfico (plano de referência convencionado, situado abaixo do nível da maré astronómica mais baixa) e o período de tempo em que cada peça ficaria exposta às marés. Isto para termos os dados exatos desta operação e para que todo o processo possa ser reproduzido daqui a 20, 50 ou 100 anos e, assim, ser possível percecionar os efeitos das alterações climáticas”.

A obra de Rui traz um alerta: as alterações climáticas. Fotos: Rita Ansone

Mas como é que podemos avaliar o impacto das alterações climáticas através daquilo que as marés imprimem neste quadro? Mesmo que os parâmetros sejam exatamente repetidos, o artista calcula que o processo de oxidação será com toda a certeza diferente, pois as placas de aço ficarão mais tempo submersas devido à prevista elevação do nível médio das águas do mar e, consequentemente, do rio Tejo.

Como o artista diz, a ameaça das alterações climáticas não é vista como tangível, a perceção desta questão é abstrata, com uma projeção num futuro indeterminado. Mas Rui Soares Costa quer trazer à ribalta o assunto de uma forma que estimule o público a refletir.

“Sempre tive um fascínio pelo que está fora do círculo restrito das artes plásticas. Tento relacionar o meu trabalho com o mundo que me rodeia e isto tem sido uma forma de reflexão e alerta. A ideia é sempre produzir conhecimento e tento ter uma perspetiva filosófica. Por isso, o tempo é um elemento fundamental e as peças oxidadas desta série Rising são uma forma de memória de um tempo.”

Para completar a série Rising e proporcionar uma experiência imersiva, o artista convidou o músico André Gonçalves para criar uma banda sonora. “É um som que remete para o rumor que a ondulação faz quando encontra a margem do Tejo”, detalha Rui Soares Costa. A colaboração com o músico já é de longa data desde uma outra série, Sweet, com quadros de grandes dimensões feitos com açúcar e verniz.

Artista, velejador, surfista e PhD

O escoar do tempo é um tema recorrente na obra do artista. “O tempo é a única coisa que não podemos acrescentar à existência”, afirma ele que além de artista visual, é velejador e surfista. E tem no seu currículo um pós-doutoramento em Psicologia Social (ISCTE- Instituto Universitário de Lisboa) e em Social Neuroscience realizado nos EUA (Princeton University), além de um doutoramento (PhD) no ISCTE e na Universidade da Califórnia.

Além de artista, Rui é velejador, sufista e formado em Psicologia Social. Foto: Rita Ansone

A trabalhar exclusivamente com arte desde 2013, Rui Soares Costa expõe as obras desde 2016, data em que também foi inaugurado o Programa de Residências Artísticas no atelier em Olho de Boi e no qual já participaram mais de 50 artistas, maioritariamente internacionais.

Com obras presentes em coleções na Alemanha, Holanda, Suíça, Espanha e Índia e também na Coleção Berardo e na Coleção José Costa Rodrigues, Rui Soares Costa é representado pela Galeria Salgadeiras em Lisboa.

“As várias séries de obras que já realizei estão sempre em andamento, umas a originar as outras num processo contínuo.” Cada série tem uma característica distinta, com materiais e técnicas diferentes mas todas remetem para a questão da representação e perceção do tempo.

Para Rui, a arte liga-se quase sempre às questões ambientais.

A trilogia “Três Casas para a Humanidade”, um projeto em colaboração com Pedro Campos Costa e João Galante, é composta pelas ‘Casa de Ar’, ‘Casa de Água’ e ‘Casa do Tempo’, criadas à margem do Tejo. “A Casa de Ar por exemplo é uma escultura sonora, está aqui no cais e foi feita com armação de ferro, peça de ferro de vários tamanho e fios de pesca, ecoando conforme o vento sopra ali.”

“Casa de Ar” é um escultura sonora do artista. Foto: Rita Ansone

Outra série em andamento e que foi apresentada no Convento dos Capuchos em Almada, na exposição Antropoceno & Grande Aceleração, utiliza também as águas do Tejo. “Desta vez escolhi um papel de aguarela super denso (com 380 gramas), embutido dentro de caixas de madeira e acrílico, mergulhadas no Tejo e que foi impregnado pelas partículas em suspensão no rio.”

Nesta mesma exposição, Rui Soares Costa incluiu peças com um forte impacto, baseadas nas projeções dos cientistas climáticos para o ano 2100. “Uma delas é um bote de borracha suspenso a 2,5 metros de altura, indicando visualmente a potencial elevação das águas. A outra é uma peça com cinco momentos diferentes – cinco lâminas de papel vertical, com alturas variadas – a representar a prevista subida do nível do mar daqui a 80 anos.”

Fotos: António Jorge Silva

A completar a exposição, o artista trabalha agora num livro que reunirá textos de cientistas, filósofos e curadores a abordar todas estas questões ambientais, especialmente ligadas ao mar e às alterações climáticas, e o potencial reflexo que poderá ter na vida das pessoas numa escala global.


*Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, autora de diversos livros sobre regatas oceânicas internacionais, fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos-CCOceanos – uma série de palestras livestream e presenciais a abordar os mais diversos temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos.


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