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Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola.

A máxima do cronista desportivo brasileiro Armando Nogueira sintetiza a metafísica de Pelé, mais do que um jogador, a quintessência do futebol.

Pelé que sozinho tem o mesmo número de mundiais do que a Argentina com Maradona e Messi juntos, e mais do que a França, o Uruguai e a Espanha.

Foto: DR

Um Pelé que não pode ser medido pela mesma régua de Maradona, Messi, Cristiano Ronaldo e tantos outros génios da bola com lugares garantidos no panteão do futebol.

Mas todos ele jogadores de carne e osso, com nome e sobrenome. Diferentes de Pelé, um titã cristalizado numa alcunha, num apelido, sinónimo de futebol.

Pelé dribla as comparações pois vem de um tempo sem imagens, sem replay, sem VAR, sem câmara lenta, sem cor, um tempo sem tempo.

Pelé veio antes do primeiro apito, do primeiro giro da bola, antes do primeiro drible, do primeiro golo.

Pelé nasceu um minuto antes do futebol.

Pelé é o futebol em preto e branco, preto de Pelé, branco da bola. E nada mais.

Pelé é do tempo da memória dos adeptos, da palavra dos torcedores, da tradição oral.

Pelé é do tempo da fé.

Não é preciso ter visto Pelé jogar para crer nos milagres que fez com ou sem a bola no pé.

Eu não vi, mas acredito.

Acredito no Pelé que fez golos de todo jeito e com todas as partes do corpo. Creio também  no que fez muito mais do que mil golos, todos eles bonitos, pois como dizia um de seus mais fiéis discípulos, Dadá Maravilha, feio mesmo é não fazer golos.

Acredito num Pelé maior que o Edson Arantes do Nascimento, um homem de carne e osso, com seus defeitos, conservador, reacionário até, e que além de tudo, cantava mal.

O Edson que não resistiu ao tempo.

Pelé, não, Pelé não morreu.

Driblou a morte como fez com tantos outros à sua frente. Pode não estar mais no relvado com o uniforme e as chuteiras, mas sempre lá estará, eterno, onde o futebol estiver.

Pois se Pelé nasceu gente, agora vai ressuscitar como bola.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comentário

  1. Parabéns pelo texto, Álvaro Filho. Entrar no túnel do tempo de Pelé me deixou emocionada. Obrigada.

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