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Ainda o mundo que estava longe da vista era a preto e branco quando se eternizou aquele instante em que Benvindo Fonseca, criança apenas, deu os primeiros passos de dança de que tem memória. Dança, não ballet ainda.

Fazia calor, como é habitual do clima tropical de Moçambique, onde nasceu. E nem isso o dissuadia de suar na pista – um velho tapete. Como par, tinha uma amiga dos pais, adulta e médica – porque a emoção que já levava no passo era conversa de gente grande. Lembra-se de ser aniversário de alguém. Embora, para ele, nunca fossem precisas desculpas para dançar.

Todos “achavam graça” àquela criança dançarina que punha emoção nos movimentos das mãos e dos pés. “Eu dançava muito, eu imitava tudo. E quando havia festas pediam para eu dançar. ‘Chamem lá o Fonsequinha’ – nome para os íntimos e para os meus pais, o único petit nom realmente meu, já que o resto são nomes dos meus avós.”

Benvindo Fonseca, na fotografia do lado superior esquerdo, com a mulher com quem dançou pela primeira vez. Foto: Inês Leote

Mas, no dia em que os sapatos dançaram naquele tapete, Benvindo não esperava vir a fazer história numa das companhias de dança mais célebres de Portugal: o Ballet Gulbenkian, já extinto. Ali, atuou como Primeiro Bailarino, mas também como o primeiro homem negro nesta função, lembra.

E porque importa dizê-lo?

“Porque as pessoas questionam-se, para o bem e para o mal”. Não porque isso lhe sirva de bandeira. “Eu não me lembro disso. Não sou o Benvindo com esta cor, eu sou o Benvindo. Ponto. Nem nunca as pessoas com quem me cruzei na dança me faziam lembrar isto.”

A primeira vez que ouviu alguém chamá-lo de negro, não com as melhores intenções, tinha ele 15 anos e estava já em Portugal. “Os meus pais acalmaram-me com o orgulho que tinham em mim.”

Um casal sempre muito à frente do seu tempo. A mãe não questionava as pulseiras do Benvindo, acariciava-as. E fazer do ballet vida nunca foi sequer uma questão em casa. “Eu acho que eles não quiseram que eu passasse pelo que eles passaram. Por isso é que não tenho medo de gente, só das emoções.”

Benvindo tem 58 anos e uma carreira de mais de 30 como bailarino. Foto: Inês Leote

O sonho que se revelou numa televisão em Lisboa

Abrimos a porta de inox que dá para o átrio do prédio e ouvimos passos pequenos, leves, a descer as escadas. Joshua, um cocker spaniel manchado a branco e castanho, é quem nos recebe. E o dono bailarino, no alto das escadas, agradece. Diz “entrem” e não nos prepara para a vista por detrás daquela pequena porta escura: parece que Lisboa inteira se juntou neste quadro, com mais Tejo do que casas para assinalar. Atrás, outra tela, a vista para o Palácio da Ajuda.

Seria de esperar uma paixão pela cidade que nos recebe assim mal abrimos os olhos pela manhã, mas a história de Benvindo com Lisboa não é de amor.

Nasceu em Moçambique há 58 anos, filho de pais cabo-verdianos, bisneto de portugueses de Portalegre e de indianos. “Ainda tem franceses e judeus do lado da mãe”, diz, frisando a mistura de que é feito. O avô era um padre jesuíta que saiu de Goa “e deixou toda uma prole em Cabo Verde”. Talvez por isso – atira – “nunca me senti a pertencer a lado nenhum e a pertencer a todo o lado”.

Se é verdade que “torna qualquer lado casa em três segundos”, também o é que não sente todo o lugar como dele. “Eu sinto que é meu o Porto, o Alentejo, Sevilha, Granada, Madrid e o México. Lisboa não. Até é ingrato dizer, eu sei”. Afinal, foi aqui que passou grande parte da vida.

Diz que só ficou, primeiro pelo Ballet Gulbenkian e depois porque Lisboa ainda é a morada dos pais.

Há qualquer coisa nesta cidade que não lhe pertence, mas que inspira. “Lisboa inspira em tudo. Para criar, a dor inspira e nisto a cidade é um vulcão de inspiração. Parece antagónico”.

É.

Mas Benvindo explica, então, na melhor linguagem que conhece, a dança. Abre os braços, qual pássaro no ar, ao mesmo tempo que vira as pontas dos pés uma para a outra. E vai cruzando movimentos, no que parece ser um abraço que nunca acontece realmente.

“Imagino Lisboa como o sítio onde fui abraçado. Esta é a flor de nenúfar, que quer dizer que daqui eu giro para o mundo e continuo. Deixa-me zonzo, continua à volta. Mas também há [em Lisboa] um lado com um certo cinismo, com o qual sei lidar mal”, termina vertido sobre o lado direito do corpo e com uma careta.

Assim seria Lisboa, para ele, traduzida num passo de dança.

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Vídeo: Inês Leote

Mas se Benvindo deve a Lisboa esta estranheza, também lhe deve os primeiros palcos.

A semente, essa, está em Moçambique. “Lá, metia-me no galinheiro a cantar ópera ou uma coisa parecida com ópera. Fazia uns sons, tenho esta imagem muito presente na minha cabeça.” E dizia que queria ser Beatle. Quer isto dizer: ter uma vida de artista – fosse qual fosse a sua arte.

O outro sonho era “ter uma casa com crianças e cães – cada um com o seu cão”. Isso, garante, é o que vai fazer aos 60 anos. “Porque Beatle já tenho sido.”

Deve-o à morada que ganhou aos 13 anos, quando veio para Portugal, Lisboa, ele e a família – eram seis. “O meu pai era cooperante dos portugueses lá em Moçambique. Foi convidado para o governo de Cabo Verde, mas os meus pais achavam que não nos iríamos ambientar a Cabo Verde.” Por isso, a direção lógica foi vir para Portugal.

“Lembro-me de estar no avião, a minha mãe ao lado a chorar, a porta a fechar, e aperceber-me: ‘Aqui não volto mais'”, engole a memória em seco.

Lisboa cheirava a peixe e soava a ditados populares. “Era sempre assim na rua, as senhoras a vender e aqueles ditados… E eu imitava tudo o que ouvia e via”, ri.

Primeiro, ficaram os seis alojados na Avenida Almirante Reis. Depois, na casa de um amigo do pai, no Cacém. “Um prédio de cabo-verdianos que compraram todos casa ali.”

Nesta altura, Lisboa não era sentida como é hoje, tinha para Benvindo uma imagem mais serena. Nunca o abraçou, mas isso não o assombrava. Tudo terá mudado a partir da grave lesão que teve, que lhe travou as piruetas, os pés em ponta, e azedou a visão que tem sobre o mundo, admite.

Benvindo arrecadou vários troféus ao longo da vida, entre os quais o da Criatividade Juvenil com a ONU, Troféu Carreira da Associação Primo-Canto, Câmara Municipal de Oeiras e RDP África.

Quando a morada ainda era o Cacém, a dança ainda não era mais do que aquilo que tinha já experimentado naquele velho tapete em Moçambique. Embora já se dançasse na família: a irmã fez ballet, ainda que nunca com pretensões de exercer dança – é advogada. “E eu tinha muito músculo, porque joguei basquetebol, fiz ténis, patinagem”.

Ele, vindo de uma família de atletas, jogadores da bola, numa época em que jogar futebol ainda não dava tanto dinheiro, tinha músculo e converteu-o à dança, em frente a uma televisão, em Lisboa, quando começou a assistir à série Fame, na década de 1980.

“Havia qualquer coisa naquela possibilidade de dançar a toda a hora, quase viver num sítio de arte, que eu queria.”

O bailarino que quis morrer e renasceu

Da TV, o salto para o Ballet Gulbenkian não demorou.

“Houve uma audição com o Francisco Nicholson (ator, dramaturgo, argumentista e encenador), no Parque Mayer, não para fazer uma revista. Era um musical. Ensaiámos três meses, pagaram-nos e nunca estreou, porque havia uma pressão para não fazer um musical quando o teatro de revista estava a ficar frágil. Mas eu entrei na audição e comecei a ter contacto com este mundo.” Devia ter 16 anos, calcula.

E, “no meio daquela gente toda, a Liliane Viegas ofereceu-se para me dar uma bolsa de estudo para ficar a fazer aulas com eles e fazer parte do grupo Sétima Posição”, conta.

Agora, em perspetiva, Benvindo consegue explicar exatamente o que causava espanto nos outros. “Sempre tive a dança como intuição. Eu vejo e faço. A coisa mais difícil no ballet, tecnicamente, é saltar no ar e dar duas voltas. Eu quase dava três. O nome não sei, estar em quinta posição (que é fechar as pernas) muito menos, mas eu saltava e rodava. E rodava sempre com emoção.”

Ser homem e bailarino nunca gerou preconceito na família. Ele, filho de pais muito à frente do seu tempo. Foto: Inês Leote

Entretanto, a Gulbenkian abre uma audição, “audições sempre com 300 e tal pessoas” candidatas, Benvindo ficou entre os últimos dez, mas viu o sonho negado porque “estava muito gordo”.

“Então, treinei e treinei durante um ano e voltei. Entrei, mais magro, para a escola da Gulbenkian, tradicionalmente uma transição para a companhia de Ballet Gulbenkian.” Era a porta para um sonho que começou por instinto e se solidificou de tal forma que Benvindo não sonhou mais nada.

Integrou a Companhia de Dança de Lisboa, viajou para Nova Iorque e, por cá, já tinha fama: “Diziam: ‘Apareceu o Leroy português'” – por referência à personagem do musical Fame. “Acho que tem a ver com esta coisa de ser bicho, de não haver amanhã, quando danço. Há uma paixão que eu não explico, porque ali eu estou inteiro.” 

Benvindo já trabalhou com grandes nomes mundiais como Mats Ek, Jiri Kylian, Hans Van Manem, Orad Naharin, Itzik Galili, Vasco Wellenkamp, Olga Roriz, Paul Taylor, Christopher Bruce e Nacho Duato.

Esteve inteiro, até o corpo dar de si e atirá-lo para o que diz ter sido o mais perto que esteve da morte. “Tive uma fratura na tíbia. Acontece a quem faz muitas pontas. E eu morri. Aí eu morri”. Porque o que um bailarino sente quando perde o seu movimento mais básico “é morte”, diz.

O estado de saúde, físico e psicológico em que se encontrava deixou-o um mês a dormir, internado num hospital, a soro e medicação.

“Acordei depois daquele mês e disse: ‘ai é? Se acabou, então vamos morrer’. Levei dez anos a tentar morrer. Estava numa depressão. Queria acabar com tudo, mas não de forma gratuita.”

E embora toda a vida tivesse renegado o consumo de drogas, assumindo-as como “terríveis”, a certa altura deste processo de recuperação, Benvindo experimentou cocaína e sentiu que esta “poderia ser a solução”. Afinal, “abafava a dor física e psicológica e eu nem tinha de comprar, ofereciam-me”.

Daqui, instala-se uma grave adição, “claramente com o intuito de ir morrendo todos os dias”. Fez mais de dez tratamentos para a dependência e para as depressões e hoje já leva 16 anos sem consumir.

“Ainda tentei dançar, só com a emoção.” Sem pernas, sem pés. E fez galas mundiais a valer-se disso apenas, “com pessoas a dizerem que estava melhor do que nunca”. Mas as dores, essas, eram insuportáveis. Até para alguém que vê arte na dor.

“E depois voltei a nascer.”

Virou-se para o outro lado do pano e tornou-se coreógrafo – tarefa que já não lhe era estranha. E começou a racionalizar mais os movimentos de um bailarino, para que pudesse transmitir a outros.

Cada quadro na casa de Benvindo conta uma história sobre a sua vida. Foto: Inês Leote

O “ser mágico” que deu um filme

Na arte, diz que fez tudo o que quis. E com o sucesso que quis.

O que lhe valeu o olhar atento e uma ode com o alemão Adrian Stolzle ao comandos. O realizador dedicou um filme biográfico a Benvindo Fonseca. Chama-se “Cidade Lúcida” e estreou em 2021. Em várias entrevistas, o realizador lembrou que esta é a história de “um ser mágico”, em palco e fora dele.

O filme “Cidade Lúcida” conta a história de Benvindo e estreou em 2021.

Um dia, o reconhecimento chegou também da ONU, que o convidava para Embaixador. Não é o conhecido passaporte azul, mas um prémio que foi entregue a seis pessoas de diferentes áreas e às quais só era pedido um favor: “Façam com a vossa arte um alertar de consciências”‘.

“Aquilo despertou-me”, lembra Benvindo.

Também por isso não deixou que a vida se resumisse a grandes palcos e foi ensinar dança – e até pintura – às crianças da Cooperativa Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidade (CerciOeiras), onde faz voluntariado. Nas paredes de casa, ergue muitas destas obras.

“Não é porque sou bom samaritano. Se não vou, fico em sofrimento, fico numa tal ansiedade. Tenho de libertar a minha energia, tenho de estar sempre a ocupar o meu tempo com outros. Eu nunca estou a fazer só uma coreografia, tenho que estar a fazer três ao mesmo tempo. E nunca estou a ler um livro, tenho que ler dois ou três ao mesmo tempo. Agora começo a aprender a parar.”

Benvindo Fonseca

Na impossibilidade de continuar a ser um Beatle, começa a chegar o tempo de seguir para o plano B: a casa, as crianças e os cães. Tal como aquela criança, em Moçambique, um dia sonhou.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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