Bárbara Bulhosa, editora da Tinta-da-China, tem aberto a porta do mercado português aos clássicos da literatura brasileira. Foto: Rita Ansone.

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

“Uma mulher forte”, comenta a fotógrafa num sussurro, após registar Bárbara Bulhosa na penumbra do próprio escritório, por entre estantes repletas de livros e a decoração sóbria, a objetiva da câmara da fotógrafa a retratar em alta definição a personalidade de uma mulher desabituada de conjugar os verbos hesitar, desistir, temer.

Bárbara Bulhosa é a editora da Tinta-da-China, a casa editorial lisboeta que concebeu há 17 anos, nascida sob o signo da luta, educada para o confronto, ciente desde os primeiros passos da tarefa difícil que é crescer no mercado português, mas assim como a mulher que a trouxe a este mundo, destemida e determinada a vencer.

“É uma guerra longa”, reconhece Bárbara, sentada a uma das mesas espalhadas no convidativo jardim da nova morada da Tinta-da-China, no palacete da Quinta dos Ulmeiros, no Lumiar. “A guerra é longa, mas estamos a ganhar algumas batalhas”, ressalva a comandante, permitindo-se gozar os louros das breves vitórias.

Bárbara Bulhosa, editora da lisboeta Tinta-da-China, que tem apostado no diálogo maior entre a literatura do Brasil e Portugal. Foto: Rita Ansone

“Os portugueses têm um desconhecimento profundo da literatura brasileira.”

Bárbara Bulhosa

Uma das batalhas travadas pela Tinta-da-China nesta longa guerra é a da difusão da literatura do Brasil, dividida entre várias frentes, como a publicação em Portugal de autores contemporâneos brasileiros, de Gregório Duvivier a Tati Bernardi, António Prata, Ruy Castro ou Paulo Scott, este último finalista do conceituado Booker Prize.

Outra frente de batalha concentra-se nos nomes clássicos da literatura brasileira, o catálogo da Tinta-da-China munido de Machado de Assis, Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, um arsenal pesado, cujos tiros reverberam nos ouvidos dos leitores portugueses, mas nem por isso lhes é familiar aos olhos.

Bárbara reforça o sentimento das demais casas editorias portuguesas de que o autor brasileiro é pouco lido em Portugal. Salvo os gregórios, tatis e pratas, incensados pela intensa presença mediática, os drummonds, assis e rosas inacreditavelmente ainda encontram dificuldade em circular pelas mãos do leitor médio local.

A secretária no escritório onde Bárbara Bulhosa comanda as batalhas travadas pela editora. Foto: Rita Ansone

“Os portugueses têm um desconhecimento profundo da literatura brasileira”, lamenta a editora, que se prepara para combater esse lapso cultural com as armas que sempre teve em mãos, a literatura, a reflexão, a educação, todas apontadas para a série de encontros da oficina Os melhores deles todos.

A comandante e o seu novo palacete

Bárbara ciceroneia a reportagem da Mensagem por entre os corredores e salas da sua editora, dispostos pelos quase 300 metros quadrados no primeiro piso do palacete. O dobro da área da antiga sede, de onde foi convidada a sair em plena pandemia, a bater em retirada à pressa, expulsa pelo exército da especulação imobiliária.

“Estávamos a trabalhar de casa, em home office, quando chega uma carta do senhorio a dizer que tínhamos alguns meses para deixar o prédio”, lembra. A antiga sede era cobiçada por um hospital vizinho e até mesmo Bárbara sabe que há lutas que não se pode ganhar. Hoje, onde funcionava a editora, opera o call center do novo inquilino.

Como uma força invisível, porém, o vírus tinha o seu próprio feng shui. No reposicionar das peças no tabuleiro imposto pela pandemia, acabou por vagar o primeiro piso do Palacete da Quinta dos Ulmeiros, no Lumiar. O imóvel estava destinado a um escritório de advocacia angolano, que desistiu de arrendá-lo, demovido pelo mesmo vírus.

Como dizem no Brasil, Bárbara “caiu para cima”. Com praticamente a mesma renda paga na antiga sede, a Tinta-da-China passou a contar com o dobro do espaço e a mais-valia de um belo jardim, onde passaram a acontecer os lançamentos editoriais e outros eventos, como a recente celebração pelos 17 anos de vida da editora.

A mudança para a nova sede está umbilicalmente ligada à nova série de oficinas propostas pela Tinta-da-China. O evento sobre literatura brasileira Os melhores deles todos é o quarto que acontece, aproveitando-se do espaço com que a editora passou a contar após ocupar as dependências do palacete.

“Na nova casa da editora, estamos a construir uma comunidade literária mais dinâmica.”

Bárbara Bulhosa

“Quando nos mudámos, comecei a pensar em como poderíamos otimizar o privilégio dos espaços a mais na editora. Como havia o propósito de lidar de forma abrangente com a literatura, interagindo com os leitores, as ideias foram surgindo. Primeiro, criámos um clube literário, depois vieram as aulas no projeto Tinteiro”, conta.

Em breves palavras, as sessões do Tinteiro partem de livros e autores publicados pela editora para discutir a literatura sob aspectos diversos. Assim, as oficinas já abordaram a escrita da crónica, a fotografia de memória e o século XX português, antes de abraçar a missão de difundir a literatura brasileira entre os portugueses.

Nesta nova edição, o Tinteiro navega pela produção de Machado de Assis, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa e Rubem Braga. Seis encontros semanais que decorrem até meados de dezembro, em formato híbrido, à distância, e nas instalações no palacete da Tinta.

As aulas estão a cargo de Abel Barros Baptista, Carlos Mendes Sousa, Clara Rowland e Joana Matos Frias e duram cerca de duas horas. A versão presencial, como nas anteriores, além do jardim e do palacete, conta com a oportunidade da troca de ideias tête-à-tête com os professores e escritores.

“Expulsa” da antiga sede durante a pandemia, a Tinta-da-China acabou por encontrar uma morada nova e ainda maior. Foto: Rita Ansone

“Estamos a construir uma comunidade literária mais dinâmica. Aqui na editora, recebemos até 25 pessoas por sessão, mas a participação online é muito mais vasta. Há muitos participantes do Brasil e mais ainda de imigrantes que querem manter o contacto com o país através dos livros”, conta Bárbara.

A primeira sessão navegou pela imensidão de Machado de Assis, conduzida por Abel Barros Baptista. A próxima, no dia 16 de novembro, será dedicada a Clarice Lispector. Todas as informações de como participar estão na sessão da Tinteiro, no site da Tinta-da-China.

Os novos ventos da Tinta no Brasil

Bárbara passeia o dedo entre os livros na estante, antes de me estender dois deles, Vai, Carlos! e Memorial de Aires, um Drummond e um Machado de Assis, dois dos autores dissecados nas sessões do Tinteiro. Livros de capas coloridas, em azul e púrpura, em tons intensos, nada discretos, como reza a tradição capista da Tinta.

A nova sede da Tinta-da-China, instalada num palacete no Lumiar; a chancela brasileira sofreu com a pandemia e o bolsonarismo. Foto: Rita Ansone.

Em tons intensos também sempre foi a relação da editora com o Brasil. Tanto que Bárbara chegou a abrir um braço da Tinta-da-China no outro lado do Atlântico. “A dinâmica era publicar autores brasileiros cá e portugueses lá”, resume. A aventura transatlântica manteve-se próspera, até colidir contra dois sinistros icebergs:

A pandemia e o bolsonarismo.

“A crise na área da cultura no Brasil, renegada pelo governo, atingiu o setor livreiro. De repente, passei a não receber mais das livrarias sobre os livros que vendia. Imprimia-os, eram vendidos, mas não recebia. Também estava impedida pelo confinamento de viajar, de ir lá e resolver, cobrar. Uma realidade insustentável”, conta.

“A crise da cultura no Brasil, renegada pelo governo, atingiu o setor livreiro. De repente, passei a não receber mais das livrarias.”

Bárbara Bulhosa

A primeira alternativa foi escoar o stock à rede pública de bibliotecas. “Mas as secretarias de educação em São Paulo, alinhadas ao governo bolsonarista, não demonstraram interesse”, continua. A alternativa, para não encerrar as atividades em definitivo foi encontrar um parceiro local, o que acabou por acontecer.

Hoje, a Tinta-da-China Brasil está sob os cuidados do jornalista e publisher Paulo Werneck, entre outras coisas, ex-curador do Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, responsável pela edição da Quatro Cinco Um, a mais conceituada revista sobre livros do país e, agora, novo editor da chancela brasileira da editora portuguesa.

“O Paulo é um amigo, um fã da Tinta-da-China e a solução caminhou de forma natural. Foi uma espécie de doação, mas ele tem total autonomia. A única condição foi manter o nível editorial, o que não é problema para um profissional como ele, e a unidade do projeto gráfico, com as capas assinadas pela Vera Tavares”, explica Bárbara.

O “desconhecimento profundo” dos portugueses

Uma outra condição imposta ao novo editor da Tinta-da-China no Brasil, implícita mas tácita, que certamente Paulo Werneck está ciente é a de não “adaptar” as obras escritas em português de Portugal para o do Brasil, assim como os livros de autores brasileiros publicados cá mantêm a grafia original em que foram escritos. 

Bárbara Bulhosa defende o fim da “adaptação” dos autores brasileiros publicados no mercado português. Foto: Rita Ansone

“Não faz o mínimo sentido essa adaptação, essa tradução”, comenta Bárbara, sem esconder o tom de indignação. “Não se vê o mesmo em autores que escrevem em espanhol ou inglês. Os livros são publicados nos países hispânicos e anglófilos na forma original em que foram escritos e isso não é um empecilho para a leitura ou as vendas.”

Bárbara ressalta que essa “cultura” é uma característica do mercado editorial português. “Os leitores brasileiros leem o Saramago, o Eça, o Ricardo Araújo Pereira, o Valter Hugo Mãe em português de Portugal sem problema. Só Portugal criou essa barreira, talvez pelo sentimento injustificável de se achar o dono da língua”, critica.

“É ridículo ouvir dizer que o português de Portugal é o português de verdade. É um pensamento que abomino.”

Bárbara Bulhosa

Para a editora, esse entrave é um indício de que a “língua portuguesa sempre foi muito mal trabalhada pelos portugueses”, o que tem travado a divulgação da literatura de países lusófonos em Portugal e até certo ponto explica o “desconhecimento profundo” dos leitores portugueses dos autores brasileiros.

Tinta-da-China. Foto: Rita Ansone

Um desconhecimento que Bárbara Bulhosa tenta remediar com as aulas nos moldes das sessões do Tinteiro e através da publicação dos antigos e novos clássicos da literatura brasileira. O próximo nome a figurar nas estantes será o de Rubem Braga, reputado como o maior cronista brasileiro, já publicado em Portugal no passado.

“Houve uma época em que líamos bastante a literatura brasileira. O Rubem Braga já foi publicado cá, mas depois isso mudou e os livros desapareceram”, conta Bárbara, decidida a recuperar o cenário de convivência pacífica entre as literaturas produzidas por nações fraternas, hoje separadas por um preconceito.

“É ridículo ouvir dizer que o português de Portugal é o português de verdade. É um pensamento que abomino”, comenta a comandante da Tinta-da-China, recuperando o ar bravio capturado pelas lentes da fotógrafa, a tradução fiel de uma mulher forte, de Bárbara Bulhosa, a editora que redescobriu o Brasil.


Ferreira Fernandes pega na iniciativa da Tinta-da-China de promover a literatura brasileira em Portugal, para nos brindar com uma crónica de Rubem Braga, “talvez o maior dos cronistas jornalísticos da língua portuguesa”. Leia aqui.


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz dantes pagava-se com anúncios e venda de jornais. Esses tempos acabaram – hoje são apenas o negócio das grandes plataformas. O jornalismo, hoje, é uma questão de serviço e de comunidade. Se gosta do que fazemos na Mensagem, se gosta de fazer parte desta comunidade, ajude-nos a crescer, ir para zonas que pouco se conhecem. Por isso, precisamos de si. Junte-se a nós e contribua:


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

Entre na conversa

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *