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Sou filho da quarta vaga de imigrantes brasileiros a aportar em Lisboa, bem antes do bolsonarismo, ainda durante o “morismo”, a perseguição insana e desonesta de um juiz que, faminto pelo poder, engoliu a constituição e vomitou um golpe, afastando uma presidente, asfaltando com o ódio a avenida para o bloco das sombras desfilar.

Já lá atrás, em 2016, sabia onde esse carnaval dos horrores iria dar.

Sempre soube.

Vi nos olhos dos meus filhos, as retinas húmidas dos miúdos o espelho de um oráculo, a refletirem as sombras assumindo a forma de um monstro sem coração e sem alma, apenas uma boca enorme, de onde do futuro soou uma triste gargalhada de escárnio.

Cruzamos os céus, os mares, o avião da TAP uma cegonha de aço a carregar no ventre uma família que deixava o lar e a pátria, que deixava o país e os pais para trás, o passado lentamente a dissipar-se como as nuvens lá fora, o futuro um ponto luminoso no mapa do ecrã preso à poltrona, e Lisboa o nosso presente, um presente.

Morríamos aos poucos para poder renascer, entre o partir e o parto, como os novos filhos de Lisboa.

Mas isso também foi lá atrás.

Desde então, Lisboa acolheu esses filhos dos outros como uma mãe. Nossa nova mãinha, ao mesmo tempo generosa e severa. A loba da mitologia, a oferecer as tetas e alimentar as crias, enquanto exibe as presas e as garras, pois a vida de imigrante nessa selva bela e estranha, às vezes nos quer gente, às vezes nos quer fera.

Aprendemos a lição, mãinha querida, e seguimos em frente. Andando com as próprias pernas, tropeçando numa pedra aqui e acolá, mas sem atrasar o passo, sem perder o prumo, pois o caminho se faz caminhando.

Vez ou outra, olhávamos para trás, para além do horizonte, e víamos a monstruosa sombra a pairar sobre a nossa antiga casa.

E ouvíamos também os ecos do desespero, do pranto de quem lá ficou.

Nada é mais triste do que o Brasil triste.

O Brasil triste vai além do oximoro, dói só de ver. Sabe aquela dor de quem perde o amor da vida, a dor da mãe que enterra o filho, da criança que leva um tapa do pai? Pois é ela, mesma, aquela dor sincera, pungente, que dói mais do que a dor que a gente realmente sente.

A dor do poema do Leminski na canção do Chico César, a dor a qual os ópios, edens e os analgésicos não debelam.

Mas a dor também ensina a gemer. E o brasileiro não ficou calado. Resistiu, falou alto, berrou para quem quisesse ouvir, que não, que ele não. Um grito que se ouviu mais alto no Nordeste, no sertão de Euclides da Cunha, onde o sertanejo é, antes de tudo, um forte, no sertão de Guimarães Rosa, onde a vida só quer uma coisa da gente:

A vida só quer da gente é coragem.

Sessenta milhões de corajosos enfrentaram as sombras, mãinha, com a nossa ajuda, com a ajuda dos filhos distantes, das crias desgarradas pelo mundo, mas que nunca abandonaram a luta. Bravos brasileiros que encararam o mal de frente, de cabeça erguida e a consciência tranquila de estarem no lado certo da história.

A mirar diretamente nos olhos das sombras, olhos nos olhos como na canção do Chico, o peito cheio de amor, só para ver o que você diz, com suportará em nos ver tão feliz. Brasileiros de alma lavada e passada a limpo, a pedirem gentis e democraticamente que você que inventou essa tristeza, agora tenha a fineza de desinventar.

Vim, vi, votei e venci.

O caminho se faz caminhando, eu sei, mãinha, e o primeiro passo foi dado. O Brasil que se avizinha ainda está longe do Brasil que conheci, que chamava de casa, o sítio onde me sentia entre os meus, acolhido, seguro, forte e disposto, o Brasil luminoso, o céu azul da nossa bandeira livre das sombras, o verde das nossas matas a salvo.

Mas um dia será novamente assim, eu sei, também vi no espelho do oráculo nos olhos dos meus filhos. As sombras não se afastam tão rapidamente, sem muita luta, e as feridas não curam de uma hora para a outra, é verdade, porém mais cedo do que tarde o Brasil voltará a brilhar, vá por mim, confie, tenha fé.

O curioso, mãinha, é que quando o Brasil voltar a brilhar, já não sei se volto, se cruzo os mares e os céus no sentido contrário. Lisboa acolheu-me em um momento dramático, acarinhou-me de uma forma que não sei dizer.

A loba cuidou dos meus filhos, deu-lhes segurança, educação, uma rede de proteção, um presente, um futuro.

De forma que tenho por essa selva bela e estranha para um imigrante um respeito e um afeto difícil de explicar, como aquele amor que surge sem se esperar, do nada, o amor nas velhas canções do Roberto, que nem mesmo céu ou as estrelas, nem mesmo o mar e o infinito, é maior ou mais bonito.

O Brasil vai voltar, eu sei, como sei também, mãinha, que eu já não volto.

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.


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