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Estávamos a 24 de abril de 2012 quando sobe ao palco do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian António José Rodeira Zambujo para lançar “Quinto”, o álbum que, depois de “Por esse rio acima”, de Fausto Bordalo Dias, inaugurou cronologicamente uma nova era na música popular portuguesa.

Andou por aí, reinventando preciosamente a roda, até que, dez anos depois, numa noite deitada no cacimbo e sem nevoeiro o romeiro voltou melhor do que nunca.

Passaram-se 10 anos e “o rapaz de camisola verde”, benfiquista ferrenho ainda que tenha no verde a sua cor favorita, já não é só um alentejano vagaroso, é uma lenda e a prová-lo o tributo a Max que ofereceu a uma Lisboa à beira-rio, com ventos e mares aquecidos pela voz deste fadista do jazz com o poder de amainar as ondas e embalar as caravelas.

Maximiano de Sousa nasceu em 1918 no Funchal (Madeira), na Rua das Pretas. Não podia ter nascido em lugar melhor. Filho de um pequeno comerciante e de uma doméstica, entre as linhas que lhe costuravam a vida conhece, em 1927, Freddy Jones que o apresenta a um outro palco da vida: a música. E não fosse esta uma linguagem universal, Max não se teria atrevido a, mesmo sem saber inglês, desfiar temas de reportórios internacionais num hotel na Madeira.

Nos finais dos anos 1990, António Zambujo, o TóZé das noites das farras, deixa Beja, quiçá com a mesma melancolia com que Max terá deixado o Funchal nos anos 1940, “no azul do céu encantador”. Ambos em direção a Lisboa, numa viagem “em quatro luas”, cientes de que partir é morrer um pouco, “quem morre, não sofra mais /mas para quem parte é dor demais”.

António Zambujo homenageou o lendário madeirense, Max, no palco do Santa Casa Alfama. Foto: Rita Ansone

E é com o perfume das viagens que o baterista madeirense André Santos arranca comandando as cordas numa noite em que a voz de António Zambujo vence o homem dopado pelo músico. Melhor que ele próprio, superior a si mesmo, deificado. Se no palco está um António Zambujo visivelmente nervoso, no ar reina a voz de um António Zambujo que se transmuta a cada palavra, um pássaro de Euterpe, andrógino e sensualizado, às vezes soando a contralto.

Em “Noites da Madeira”, um tema com letra e música de Max, Zambujo interpreta o suspense, colocando no tema mais ais, em sintonia com a guitarra de André Santos, justo diretor musical do concerto, a puxar pelos blues. Em contramão, mas na mesma direção, um procura o fado nos blues e o outro arranca blues ao fado.

No porto da América Latina, por onde Max viajou e aonde Zambujo vezes sem conta chegou, há uma chave mandada ao Tejo a abrir portas fechadas com o “Cha Cha Cha de Lisboa”.

Há um homem ainda nervoso e um fadista com bossa-nova no pé como peixe na água ao interpretar este tema em que Max, como um cineasta, sai em rodagem pelos bairros de Lisboa – da Madragoa até Alfama – pelos locais da cidade – dos salões ao mercado – e pelos sons dela que quer o destino que seja fado.

Há um bailinho da madeira presente neste tema interpretado por tantos outros músicos portugueses que António Zambujo não desdenha ao fazer-se acompanhar de Graciano Caldeira, Gustavo Paixão e Bruno Ponto nos Cordofones. E se a voz de Zambujo é toda ela fado em Lisboa, o contrabaixo de Francisco Brito é extraordinariamente forro em Havana.

É na boémia Lisboa que Max se profissionaliza e começa a atuar com o conjunto de Tony Amaral onde, para além de cantar, tocava bateria. O homenageado madeirense compôs, escreveu e interpretou, muito provavelmente, os primeiros fados canção, fugindo do fado castiço de Maria Teresa de Noronha e do fado tradicional de Amália Rodrigues.

Com uma forte influência dos sons da América Latina – tangos, boleros, rumbas e demais – e do Brasil com os ares da bossa nova, dedicou muito do seu reportório à música tradicional da Madeira, integrando sempre os ritmos do bailinho nas suas interpretações, mas também outros estilos de música tradicional como o vira ou o corridinho.

Mais uma ovação e mais um tema, “Noite” com letra de Vasco Lima Couto e música de Max, um fado menor feito à imagem e semelhança de Zambujo entregue à filosofia de Eugénio de Andrade e das “Palavras” que “são como um cristal”.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem

Depois de três temas majestosamente interpretados, Zambas (para os amigos) faz-se mais seguro e enche o peito em “Sinal da Cruz”, letra de Linhares Barbosa e música de Max com Ferrer Trindade. Em Max, o fado sempre de mão dada com as sonoridades da América Latina num tema que cita Lisboa e faz um rapport a obras que cruzam a história da cidade, espelho do panorama criativo da época, a exemplo “aldeia velha a branquinha”.

Max inicia a sua carreira a solo em 1948 e assina o primeiro contrato com a Valentim de Carvalho em 1949. Estreia-se como ator em 1952 tendo integrado o elenco de várias peças de Teatro de Revista. Também pela Revista passou António Zambujo quando, entre Lisboa e Beja, se juntou ao elenco de “Amália” dirigido por Felipe La Féria.

Entre ovações merecidas, aterramos em “Porto Santo” como que aterrando no Cante Alentejano. Max de volta à saudade da sua ilha e Zambujo de regresso à melancolia da sua planície.

Numa balada à ilha de Porto Santo, Max volta não só às homenagens à sua terra, à saudade e ao Fado de quem vive longe das suas raízes, como também faz jus às raízes sonoras da música popular portuguesa em rimas naif, mais ao agrado do ouvinte despreocupado do que propriamente procurando a construção do poema. A exemplo: “Por isso te quero tanto/ Como quero minha mãe”. António Zambujo interpreta “Porto Santo” de uma forma mais adulta, amadurecida. Na voz dele há vagar, há canto, há dizer, há penas, há saudade, há gentileza, há a Fortuna do fado. Ó fadista. Ah! Canção.

Sem sair da alta dignidade da música popular portuguesa interpreta um “Tingo, Lingo, Lingo” menos folclórico e mais eclético. Na voz de Max o tema faz a ponte entre a música e a dança, que está presente não só na letra que nos fala de uma nova dança, mais leve que o vira; mas também na música.

Aliás, as músicas de Max têm sempre esta característica de retratar o seu tempo, os modos e costumes das suas gentes, dos bairros e das ruelas por onde passou, numa espécie de registo etnográfico de um povo.

Neste aspeto, Max era um músico cineasta com o especial prazer de compor fotogramas. Neste tema Zambujo deu a “Tingo, Lingo, Lingo” mais seriedade, fez vénia ao corridinho, ao vira e a um misto de fado cantado, desgarrado, sem respirar. Genial intérprete, acompanhado de um composto guitarrista a arrancarem os dois, no final, a ovação merecida.

Foto: Rita Ansone.

E continuamos no fado, que é o mote da festa de Alfama e da Santa Casa, para relembrarmos a história da “Júlia Florista”, composição de Joaquim Pimentel e Leonel Villar. O fado faz-se de memórias e António Zambujo, que canta ser meio distraído, sempre em fatos feitos à medida, estreia a guitarra no cantar da noite para que, muito menos nervoso, a Amália que já nos ouvia, como alertara Jorge Fernando, ressuscitasse.

Esplendoroso segue com o púbico mano a mano em “Nem às paredes confesso”, uma teima tantas vezes sangrada por Amália Rodrigues e Carlos do Carmo, com letra de Artur Ribeiro e música de Max e Ferrer Trindade, e depois, a solo, voz e guitarra, sem precisar de provar o irrevogável grande fadista que é. Ouve-se o fado “Rosinha dos limões”, letra Artur Ribeiro e música de Max.

Com as “Vielas de Alfama” a seus pés e a marcar golos na atenção de André Santos qual guitarrista ponta de lança, António Zambujo inunda a noite nos intervalos onde esta “Esconde-se” (pausa) “envergonhada” (fim). E o músico com a dor do fado remata o jazz.

E o resto conta-se assim, primeiro “Maria Tu Tens a Mania” e logo depois “Casei Com Uma Velha”, dois temas de Max que trazem uma outra faceta do homenageado, a da canção humorística vestindo o bailinho da Madeira, cobrindo-se de influências populares (no sentido em que ele popularizou estes temas) e também folclóricas (no sentido em que ele recupera com sabedoria e inteligência os ritmos e fonética da sua terra natal).

Seguindo o tom humorístico levado à séria, “A coisa” é cantada sem se perder na letra. O “Bate o pé” acompanhado pelas incansáveis palmas do público, pelos chapéus de palha e a bandeira do “Bailinho da Madeira”. Tudo corrido, em passo marcado, bailado à beira-mar.

E antes que chegasse “A Mula” e o fadista entoasse os ais sem gritar, houve voz para “Pomba Branca”, letra de Vasco de Lima Couto e música de Max, com o coprotagonista num dramatismo suave em mais um tema que Max inscreveu na História da Música Popular.

Maximiano Sousa, um homem que era música, interpretava a música, criava personagens performatizando tudo o que cantava, tornando a música ora numa ópera tosca, ora num forro, ora numa sátira onde nem o transformismo faltava, como quando Max interpretava as mulheres portuguesas de lenço, agulha e dedal.

Como o seu discípulo da noite, Max foi um viajante pelo mundo, viveu nos Estados Unidos da América durante três anos, onde entrou com a carteira profissional de artista. Fez digressões em vários países, percorrendo desde o continente africano (Angola, Moçambique e África do Sul), passando pela América do Norte (Canadá, Estados Unidos), pela América do Sul (Brasil, Argentina), Austrália e pela Europa (Alemanha, Bélgica).

Ó Maria vai/ Ó Maria vem”. Porquê? – perguntam em coro os músicos – “Porque eu casei com uma velha”. É um festival em Alfama, é o fado em Portugal.


* Ulika da Paixão Franco é mulher, negra, filha de Angola e sobrinha de Portugal. Na infância lia alto as palavras que saltavam dos manuais de português e na adolescência trocava as matinés no Crazy Nights, em Lisboa, pelo sofá a ler O Independente. A trabalhar entre a comunicação e a cultura, espera pelo dia em que o Arco-Íris marchar para contar com o título: «Homem Pisa Planeta onde as Pessoas são todas Iguais».

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