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Mamadou Bah,, Alexandre Venceslau e Maíra Streit – as vozes da rádio Sntoniza-T. Foto: Inês Leote

“Quando quiseres!”. Dito isto, acende-se a luz vermelha por detrás do neon que pede silêncio lá fora: “no ar”.

“Começa agora mais um ‘Sintra em Foco’, um programa financiado pelos Bairros Saudáveis, sob coordenação do Ministério da Saúde. A edição de hoje é patrocinada pela farmácia da Tapada das Mercês e gostaríamos de agradecer à Dra. Susana Lamego que dá início à participação solidária do empresariado para que esta iniciativa continue por muito tempo. Hoje, tenho aqui comigo Carlos Grácio.”

Já no estúdio de paredes forradas a quadrados de esponja cinzentos, e de frente para um microfone, Carlos apresenta-se: é professor numa escola da Tapada dos Mercês, em Sintra, e um homem dedicado à comunidade imigrante desta zona onde coabitam 27 nacionalidades diferentes.

Vem aqui como presidente da Associação CIAPA – Centro Aeroespacial, onde dá a jovens estudantes que gostem das áreas de mecânica, matemática, engenharia e tecnologia, a possibilidade de aprenderem mais sobre estas matérias, em paralelo com o calendário escolar.

Naquele dia, era o convidado de Alexandre Venceslau, um voluntário na rádio Sintoniza-T, uma rádio local e comunitária, feita para colmatar o que os moradores da Tapada das Mercês sempre sonharam e nunca tiveram: informação produzida para eles e para as suas diferentes línguas.

Não é só o professor Carlos Grácio que procura fazer a diferença por aqui – embora o seu projeto de vida já tenha levado jovens de contextos desfavorecidos a trabalhar em grandes projetos internacionais na área aeroespacial. “É que, até há uns anos, os meninos acabavam como os pais”, estagnados no sítio onde nasceram, num ciclo vicioso de pobreza, lembra no programa de rádio conduzido por Alexandre.

Há 16 anos, um outro homem começou a sonhar com uma associação que permitisse ao bairro da Tapada das Mercês viver mais em comunidade e com bem-estar. Chama-se Mamadou Bah, tem 52 anos, e partilha apenas o nome com uma outra personalidade polémica no país, porque a história dele é outra.

Mamadou Bah é o presidente da associação que fez nascer está rádio comunitária. Foto: Inês Leote

O início da mudança, no bairro de todos os desafios

Em 2006, já há mais de uma década residente neste bairro, vindo da Guiné-Conacri, Mamadou sonhou um bairro melhor. Na altura, um bairro vazio e com casas cheias de pessoas perdidas.

“Não havia uma única associação para nos ajudar, a nós imigrantes” – e já eram tantos. Então, numa reunião com amigos e vizinhos, fez nascer a Associação A Comunidade Islâmica da Tapada das Mercês e Mem-Martins, da qual se tornaria presidente.

Nasceria, assim, um ombro-amigo no bairro. A associação surgiu, primeiro, com o objetivo de prestar apoio a todos os imigrantes, sobretudo no que toca à documentação, sempre assunto demasiado burocrático para quem chega.

Depois, um espaço de passagem de heranças culturais. “Pensámos que também podia ser uma forma de, aqui, dar educação sobre a cultura dos pais. Porque a cultura portuguesa eles já aprendem na escola. Mas se nós não contarmos quem somos, eles não percebem.”

A associação nasceu com um centro de apoio ao estudo das crianças do bairro e apoio alimentar. Foto: Inês Leote

E quando perceberam que os filhos traziam tantos trabalhos de casa e que os pais não tinham conhecimento suficiente (nem informativo nem linguístico) para ajudar, criaram ali mesmo um centro de apoio ao estudo. A seguir, também um banco alimentar, para fazer face às necessidades económicas desta população.

Até que, em dezembro de 2021, nasceu também uma rádio: a Sintoniza-T.

A mesma missão, ao ouvido e em seis línguas

Mal a brasileira Maíra Streit imaginava que seria em Sintra que voltaria a unir as duas paixões: a ação social e a comunicação.

Apresenta-se como uma mistura “de muitas zonas do Brasil, como todo o brasileiro” – deu os primeiros passos em Brasília, na região amazónica e morou em vários outros estados. Lá, mantinha uma carreira de jornalista na área dos direitos humanos.

Maíra, brasileira, encontrou neste pedaço de Portugal o sítio para conciliar as suas maiores paixões. Foto: Inês Leote

Chegou a Portugal há três anos e foi o convite de uma amiga a trabalhar na associação da Tapada das Mercês que a tornou coordenadora do novo sonho de Mamadou Bah: uma rádio local e comunitária para o bairro e para ma população que tem, na sua maioria, a língua como entrave para tudo.

“Percebemos que, além de uma presença muito grande de brasileiros, há muitas pessoas do leste europeu e de diversos países africanos. Um caldeirão de culturas.” E a quem as notícias não chegavam. “A população acaba por ficar mais vulnerável por não ter acesso à informação”, sem saber sobre o que se passa no país onde agora vivem, na cidade, na freguesia ou no bairro.

“Esta visão de imigrante ajuda-me muito neste projeto, porque reconheço as dificuldades. Quando as pessoas me falam do que estão a passar, passa sempre um filme na minha cabeça destes três anos em Portugal. Uma situação que se agrava com aqueles que não falam português, uma barreira grande para acesso a direitos básicos”, lembra Maíra.

Foi então que, através do financiamento do programa do governo Bairros Saudáveis, nasceu, na Tapada das Mercês, o estúdio para uma rádio que lhes fizesse chegar toda a informação a que não tinham acesso.

A Tapada das Mercês tem milhares de habitantes de 27 nacionalidades. Foto: Inês Leote

Porquê uma rádio? “Fica no ouvido, ouves a voz das pessoas”, diz Mamadou Bah. Até porque é mais universal – para adultos e crianças, para quem consegue ou não ler. “Aqui há muitas pessoas, principalmente as mais velhas, que ainda usam o dedo para assinar documentos, não sabem escrever.”

A equipa é coordenada por Maíra e depende de um grupo de dez voluntários, de diferentes nacionalidades também – não fosse este espaço o reflexo da comunidade em que se insere.

Alexandre Venceslau é um deles e encontrou a proposta de trabalho no Linkedin. Passado três dias, estava a bordo. É licenciado em Ciências da Comunicação, com mestrado em Audiovisual e Multimédia, um outro curso de rádio e o foco da sua vida concretiza-se aqui, todas as sextas-feiras à tarde, à frente dos microfones do programa “Sintra em foco”. Um prazer que combina com o trabalho numa empresa de telecomunicações. Vem de Lisboa de propósito – e aqui chegou do Algarve.

A rádio pode ser acedida online e tem atualmente três programas de produção própria. Além do “Sintra em Foco”, com entrevistas a agentes de mudança comunitária, o “Arte Urgente”, feito em parceria com a associação Dínamo e que traz artistas emergentes para uma conversa sobre cultura.

E o “Minuto Cidadão”, o programa de notícias que atualiza a comunidade. “Isto é, como se diz no Brasil, o ‘xodozinho’ do Mamadou, que tem um carinho especial por este projeto”, confidencia Maíra. Todas as notícias são traduzidas para diferentes línguas – a mesma notícia, em português, inglês, espanhol, crioulo cabo-verdiano, russo e ucraniano, num trabalho de tradução feito pelos voluntários.

“Sentiram felicidade por ouvir a língua deles na rádio. Nunca ninguém sonhava.” Mamadou lembra como aquelas primeiras notícias ressoaram no bairro. E como foi através desta rádio e deste programa que os seus moradores imigrantes aprenderam, quando a pandemia chegou, como usar uma máscara, quando a usar, e a importância de lavar as mãos frequentemente.

Numa das paredes da associação, há recortes e fotografias que marcam estes anos de experiência da associação. Foto: Inês Leote

A juntar à carteira de programas, a rádio Sintoniza-T estabeleceu parcerias com o Fumaça e a Fundação Francisco Manuel dos Santos para podcasts – uns com as reportagens, a outra com os seus podcasts na área da educação, cultura, ciência.

E, quando a conversa é música, há tudo e para todos os gostos: antes de a rádio vir para o ar, foi feito um inquérito à população sobre quais eram os seus gostos musicais e que tipo de conteúdo gostariam de acompanhar. “As pessoas estão muito interessadas em colaborar”, revela Maíra.

Ao microfone, Alexandre termina o episódio e volta a agradecer à “doutora Susana Lamego”, que ouve a rádio a apenas uns metros deste estúdio. Cada episódio, a oportunidade de ouvir um nome sonante do bairro, alguém que patrocina a rádio. E que lhe deseja vida longa.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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3 Comentários

  1. É sempre bom ler nóticias da Tapada, um território onde tive o prazer de trabalhar conhecer e acompanhar a intervenção fundamental da Associação Islâmica. Um abraço particular ao Mamadou Bah e à sua família. Djarama!

  2. Belíssimo trabalho. Parabéns a todos envolvidos. Experiência humana extraordinária. Grato pela existência e consciência de vocês.

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