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Este verão, Andreas Noe pedalou pelo interior de Portugal com uma só missão: recolher lixo ao longo de 2370 quilómetros em 55 dias. Uma proposta arrojada, muitos diriam mesmo impossível, mas que nem sequer foi a primeira das viagens pelo país com este propósito. Foi a terceira. É por isso mesmo que todos o conhecem como o The Trash Traveler, o “viajante do lixo”.

Recentemente, Andreas Noe esteve no Parque das Nações, em Lisboa, a cidade que já adotou como dele, com a sua bicicleta Rosa, a acompanhar a Conferência dos Oceanos.

Num recanto perto da Marina, onde construiu uma instalação com beatas de cigarros recolhidas numa dessas viagens, o alemão de 33 anos formado em biologia molecular contou a história da sua última aventura.

Andreas Noe já fez três viagens por Portugal a recolher lixo. Foto: Orlando Almeida

Tudo começou com uma ambição: a de mostrar que nem sempre é preciso comprar-se coisas novas. Foi por isso que Andreas não comprou uma bicicleta, mas decidiu construir uma a partir de quarenta peças de bicicletas usadas. Assim nascia a Rosa.

Andreas conseguiu provar a sua tese. Mas houve quem duvidasse. A meio da viagem, cruzou-se com dois ciclistas bem equipados que, ao olhar para Rosa, se questionaram: “Ele vai mesmo andar por Portugal com esta bicicleta?”.

Mas Rosa demonstrou-se imbatível. Numa subida por uma montanha, Andreas e Rosa conseguiram acompanhar os dois ciclistas sem problema nenhum. E ainda pedalar por Cascais, Sagres, Vila Real de Santo António, Serra da Estrela, Chaves, Caminha, Porto e Nazaré. No final, expuseram-se as 4599 latas e garrafas recolhidas na Torre de Belém.

É que os dois ciclistas não sabiam, mas Andreas Noe está disposto a muito para mudar a mentalidade das pessoas em relação a uma coisa: o lixo.

O lixo

Andreas Noe nasceu em Constança, cidade alemã que faz fronteira com Suíça, bem perto de um lago, e por isso esteve sempre ligado à natureza, muito embora nenhum dos pais trabalhasse na área do ambiente ou da ciência.

Andreas Noe insistia em não comer animais já com quatro anos de idade. Foto: Orlando Almeida

Tão ligado à natureza que, aos quatro anos, por escolha própria, começou a insistir em ser vegetariano. Não sabe bem porquê, todos em casa comiam carne. “Quando somos crianças, acho que sabemos o que está certo e o que está errado no que toca às questões ambientais”, diz.

A mãe bem que tentava disfarçar carne no prato, e por isso é possível que tenha ingerido alguma até aos seis anos, mas acabaria por desistir e Andreas converteu-se totalmente ao vegetarianismo.

As suas preocupações ambientais fizeram-se sentir desde então, mas foi em Lisboa, para onde veio para fazer um doutoramento, que tudo mudou. Nas praias das redondezas, onde fazia surf, começou a assustar-se.

“No inverno, em praias como a de Carcavelos, depois de uma tempestade, o plástico começa a entrar pelo Tejo adentro”, recorda. “Estamos a nadar em lixo”.

O lixo nos oceanos é uma preocupação: segundo as Nações Unidas, pelo menos 11 milhões de toneladas de plástico vão parar ao mar todos os anos. Globalmente, há aproximadamente 51 triliões de partículas de microplásticos nos oceanos.

Andreas começou por recolher o lixo e guardá-lo no seu fato de surfista. Mas não era suficiente, claro. Um dia, acordou e cometeu uma loucura: desistiu do seu emprego. Esse foi um ato de rebeldia que o levou às praias, onde passou a documentar as suas aventuras a recolher lixo, tocando no seu ukulele canções que ilustravam a sua luta.

Ao longo de 460 dias, compôs 460 canções, simples e cómicas, sobre os oceanos, as alterações climáticas, o lixo e o plástico, que publicou na sua página de instagram.

A primeira das músicas compostas por Andreas Noe.

A página teve alguma adesão, mas o tempo passava e o dinheiro começava a esgotar. No final dos 460 dias de canções, Andreas pensou que talvez fosse altura de voltar à Alemanha, mas parecia-lhe absurdo regressar depois de ter ganho tanta consciência sobre um problema real. Entretanto, veio a pandemia. Sem saber bem o que fazer, teve uma ideia: “E se passasse de estar sozinho, a espalhar a mensagem com alguém?”.

Recolher plástico pelas praias

Andreas contactou várias ONGs portuguesas e lançou-lhes uma proposta: uma caminhada pela costa do país a recolher plástico. A ideia começou por ser criar uma comunidade que pudesse fazer essa caminhada com ele, mas porque se viviam tempos duros de pandemia, o plano acabou por mudar.

Andreas, no entanto, não seguiu sozinho: duas semanas antes da grande aventura, conheceu uma equipa de filmagens que se disponibilizou a acompanhá-lo, sem garantia de lucro nenhum. “É isso que é bonito neste projeto: as pessoas juntavam-se sem pensar em dinheiro”, conta.

Começava assim a The Plastic Hike: uma caminhada de 832 quilómetros ao longo da costa portuguesa em 58 dias com a parceria de 100 ONGs. Ao longo do percurso, Andreas ia narrando a viagem no instagram. “Quanto chegávamos a lugares mais remotos, encontrávamos baleias mortas, muito plástico, e a situação era muito triste”.

Mas nem mesmo estes cenários impediram Andreas de se apaixonar pelo Norte de Portugal. “É mais escondido do que o sul, mas está mais intocado”.

No final, recolheram-se 1,6 toneladas de plástico e criou-se uma comunidade em cada um dos pontos pelos quais Andreas passou. Toda a aventura teve direito a um documentário e a obras de arte feitas a partir do plástico recolhido. Além disso, houve muitas pessoas que lhe agradeceram: “obrigada por limpares”, diziam.

Mudar mentalidades

Mas o problema não se resolvia só a limpar, claro. “Limpar mostra o problema, que é o plástico”. Não é, portanto, a solução. Era preciso mudar mentalidades. Mas como?

Andreas lembrou-se das beatas de cigarros: “As pessoas atiram beatas para o chão sem pensarem nisso”, explica. “Eu queria mostrar que temos uma escolha com os nossos atos”. Começava uma nova aventura uma vez mais pela costa portuguesa ao longo de dois meses: a Butt Hike.

No Parque das Nações, com as beatas que foram recolhidas na Butt Hike. Foto: Orlando Almeida

600 pessoas juntaram esforços e houve mesmo quem lhe tenha enviado beatas dos Açores e da Madeira. No final, foram 1,1 milhões de beatas recolhidas, o que pode parecer muito, mas na verdade corresponde apenas a duas horas e meia de lixo em Portugal.

Uma vez mais, nem isto poderia ser suficiente. O trabalho deste viajante do lixo teria de continuar, e por isso mesmo este ano a mensagem passou não só por produzir menos lixo, mas por reutilizar. Assim propôs-se a fazer o The Trash Cycle pelo interior de Portugal na sua Rosa.

Desta vez, houve até quem o tenha chamado para dar palestras em escolas pelo caminho. Foi o que aconteceu em Monção e em Castro Verde, onde os mais novos aprenderam com Andreas sobre a poluição nas cidades e as alterações climáticas. Agora, o futuro passa por continuar a ensinar aos mais novos: aproxima-se um campo de férias em Sintra onde as crianças são convidadas a apanhar lixo e a fazer vídeos a partir dessa recolha.

Entretanto, preparam-se pirâmides de lixo para serem apresentadas como obras de arte em Espinho, e há já planos para uma nova viagem… mas sobre isso ainda não pode falar.

Quaisquer que sejam os planos, passam sempre por Portugal. E por Lisboa. “Gosto de viver aqui”, diz. “Pela natureza, pelas ondas, pela variedade. É um país tão pequeno, onde há tudo, e Lisboa tem tantas culturas. Sempre que estou a explorar, apaixono-me”.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Um belissímo artigo que relata esta história do Andreas, é um exemplo para todos, nas questões ambientais e limpeza das praias de norte a sul do país.
    Fiquei muito emocionada ao ler este artigo inspirador e consciencializador de um problema tão grande que afecta os oceanos e todos nós.

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