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“Amigo, não se importa de vermos os seus cachecóis?”. Eupremio Scarpa avançou espaço dentro. Naquela oficina, que há 45 anos Rogério Silva tem como segunda morada, no bairro de São Domingos, Setúbal, não foram os discos de freio, as válvulas, os tubos de escape e catalisadores que chamaram a atenção de Eupremio. A mecânica nada lhe diz. Foram os quatro cachecóis do clube centenário do bairro, do qual Rogério, 67 anos, se fez sócio número 25 – o São Domingos Futebol Clube.

Este mecânico nasceu em Moçambique, emigrou para o Minho e, depois, para Setúbal. “Como é que é o ditado? Setúbal é melhor madrasta do que mãe”, lembra. Veio para trabalhar, nos finais dos anos 1960, por altura do renascimento do clube que marcou para sempre aquele bairro. Sadino adotado, atracou a vida mesmo por detrás da sede atual do São Domingos Futebol Clube, onde vai várias vezes almoçar.

“É o clube da zona, fiz-me sócio, pronto”.

Quando “ainda era a sede na [rua] Gil Vicente”. E quando ainda não havia um livro para contar todos estes anos de história do clube e da terra.

Rogério Silva, 67 anos, é o sócio número 25 do São Domingos Futebol Clube, depois do seu ressurgimento – morto na década de 1940, ressuscitado em 1970. Foto: Inês Leote

É aqui que a história deste mecânico e do italiano Eupremio Scarpa se cruzam. “Li o livro”, avança Rogério. “Fomos nós que escrevemos”, Eupremio surpreende. O rosto de espanto de Rogério motiva uma fotografia a três – ele, mais o italiano e João Santana da Silva, que em co-autoria escreveram uma obra de mais de 300 páginas sobre a história deste clube.

“Um bairro, um clube” foi lançado em março deste ano, a propósito dos cem anos de vida do São Domingos Futebol Clube, com prefácio de José Mourinho. Nas linhas e entrelinhas, traz histórias há muito perdidas do clube anarquista em tempos de ditadura e traça um retrato do “tempo do futebol do povo” em Setúbal. Conta a vida (e morte) deste bairro de apenas nove ruas, plantado na baía de Setúbal, e das suas gentes.

João Santana da Silva (à esquerda) e Eupremio Scarpa (à direita), autores do livro, com o sócio Rogério Silva. Foto: Inês Leote

O clube de operários que pôs o bairro no mapa

Eupremio e João são “apenas dois entusiastas” do futebol de bairro. Têm a particularidade de terem estudado muito sobre o tema, passarem várias horas em arquivos e bibliotecas em busca de histórias e de terem fundado a Associação Desportiva Recreativa Relâmpago, “o mais recente clube de Lisboa” (formalizado há um ano). Um clube que “sirva de estímulo às outras [associações] que ainda existem para se reapropriarem dessa presença social”, diz Eupremio.

Por isso também, a equipa do Relâmpago foi chamada a “tratar da área de Desporto” do Arquivo EPHEMERA do historiador Pacheco Pereira.

Sabendo disto, o presidente do São Domingos, Miguel Aleixo, lançou-lhe um desafio. Depois, uma chamada para João, setubalense de gema, e outra para Eupremio, e um livro aconteceu para falar dos 100 anos de história do clube.

“Não havia nada”, lembra João Santana da Silva. Muito pouco que os fizesse acreditar que chegariam a ter material para um livro. Não passava de uma ilusão. “Pelo não cuidado de guardar coisas. O São Domingos tem muitas referências em jornais, mais de 700 referências. O clube não tem nada, mas basta procurar”, conta Eupremio.

Quando começaram a investigar, o desafio passou a ser outro: “manter o livro abaixo das 500 páginas”, riem.

Eupremio alugou um quarto no bairro, durante uma semana, para poder contar melhor a sua história. Foto: Inês Leote

À procura da memória viva residente, em dezembro de 2020, Eupremio alugou um quarto no bairro, durante uma semana. Viveu o bairro, entrevistou as suas gentes. “É importante ouvir fontes orais.” Terminou a semana com 30 vozes – entre antigos dirigentes, jogadores, treinadores, adeptos e até a nova geração do clube de hoje.

“Quando alguém de fora, que não é do bairro – ainda por cima, italiano -, vai lá curioso de saber sobre a história do clube da tua infância, do teu bairro, as pessoas têm logo disponibilidade para ti. Sentem-se valorizadas”, diz.

A partir daqui, contaram o início do São Domingos Futebol Clube, fundado a 28 de março de 1921, no “tempo do futebol do povo”, como lembra o livro. E descobriram como a chegada deste clube foi uma batalha pela descentralização e democratização do direito ao lazer, na altura limitada ao centro de Setúbal. De repente, “tinham um clube deles e iam ganhar ao Avenida ou ao Bonfim, aos tipos (vizinhos) que têm dinheiro”, “quando o bairro ainda não tinha água canalizada nem luz”, lembra João.

Ter um clube tornou-se quase uma ambição bairrista e fomentou rivalidades entre pequenos territórios – algumas ainda hoje vivas entre os moradores mais antigos. Um dos maiores adversários do São Domingos é a equipa do bairro Santos Nicolau (“Os Amarelos”), bairros geograficamente apenas separados por um cemitério.

O cemitério é a única fronteira entre antigos rivais – São Domingos e Santos Nicolau. Foto: Inês Leote

A verdade é que, quando as vitórias chegaram, São Domingos deixou de ser um bairro marginal para ser um bairro campeão da cidade. Em 1940, chegaram até à segunda divisão do Campeonato Nacional de futebol.

Como muitos outros clubes de bairro, a equipa era feita por homens operários nas fábricas que por ali se instalaram, sobretudo da indústria conserveira. Instalaram-se no bairro precisamente para trabalhar, num tempo em que a pesca ganhava ali cada vez mais terreno. Por isso, chegou a ser conhecido como o “bairro dos varinos”.

José Bernardo é o paradigma deste início de história. Um dos fundadores do clube – e que nele exerceu todo o tipo de cargos, de jogador a dirigente e até árbito -, José era pobre e tinha pouca escolaridade, como muitos dos portugueses nas décadas de 1920 e 1930. Nasceu em Setúbal, foi morar para a Rua da Alegria, no bairro, e trabalhar como soldador na indústria conserveira. Mas foi como anarquista que o setubalense ficou conhecido entre os pares.

Imagens de José Bernardo (retiradas do livro) – a primeira, em adulto, como dirigente do clube, em 1942; a segunda, como jogador, por volta de 1920

Militante na Juventude Sindicalista e um dos primeiros membros da direção do Sindicato Único dos Trabalhadores das Fábricas de Conserva de Peixe de Setúbal, a falta de escolaridade não o impedia de se informar e insurgir contra o regime de então. Acabou preso pela PIDE, no Tarrafal, em 1936, onde passou quatro anos, “acusado de fazer parte da organização revolucionária que tinha em preparação um movimento de caráter comunista em Setúbal”.

Futebol que trazia teatro ao bairro

O clube tinha nascido com o bairro. Quando a indústria começa a crescer naquela baía de Setúbal, começa a construção de habitação operária. As empresas, como habitual, procuravam a periferia e os trabalhadores fabris ficavam na habitação mais barata, junto às fábricas.

Até hoje, a arquitetura do bairro faz-nos adivinhar aqueles tempos nos traços de tantas casas devolutas, há anos largadas ao abandono. Criou-se um bairro e, com o passar do tempo, os moradores começaram a reclamar o direito a pertencer à explosão do futebol popular que surgia em Setúbal. Os bairros vizinhos formavam clubes e São Domingos escolheu não ficar para trás.

“Os clubes de bairro são sempre um espelho do próprio bairro. São indissociáveis um do outro. Por isso, dedicamos muito tempo a falar deste bairro”, diz o autor Eupremio Scarpa.

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Vídeo: Inês Leote

E se o bairro trouxe o clube, o clube também acabou por trazer mais ao bairro. Com a fama do São Domingos, a vida do bairro mudava e os moradores passaram a ter acesso a experiências que a condição socioeconómica em que viviam nunca lhes permitiu imaginar ter.

O livro fala de um evento “curioso”, em 1934, o anúncio de um baile patrocinado pela marca de beleza Nally (historicamente importante na indústria da beleza em Portugal e com marcas eleitas até pela realeza, como a rainha D. Amélia), na sede do clube. Naquele dia, a marca distribuiu amostras de produtos e “as sócias do São Domingos tiveram possibilidade de experimentar estes produtos”, lembra-se no livro.

Mas também levou a cultura aos moradores. Com a aquisição de melhores e maiores sedes, o clube conseguiu desenvolver atividades como espetáculos de teatro, “um género pouco acessível e que em São Domingos teve sempre, na sua vertente popular e comunitária, um terreno fértil”.

Depois, havia o trabalho social de todos os dias, que o clube levava a cabo e que passou a ser um grande apoio a uma comunidade pobre, como ainda o é hoje. Aliás, no início da pandemia, em parceria com órgãos de decisão locais, distribuiu cabazes às famílias mais pobres.

Até aos anos 1980/90, era nos balneários do clube que a população encontrava apoio. “Em vez de ser só para os atletas, era para a população. Pagavam uns escudos e iam tomar banho” – sete escudos e 50, lembra Eupremio. “É como se o bairro fosse uma casa. Temos os nossos quartos, mas a sala de estar é de todos”, remata João.

Antes: Zeca Afonso (visita regular ao bairro) à porta do restaurante “O Egas”, ponto de encontro de jogadores e adeptos (foto retirada do livro, do Arquivo do São Domingos) Depois: o mesmo restaurante, nos dias de hoje (foto: Inês Leote)

O São Domingos impulsionou o espírito crítico da população do bairro, ao tornar-se também um espaço neutro da situação política e económica. Até aos anos 1940, lembram os autores, “era quase um oásis”, porque “havia possibilidade de falar de política”, criticar o regime sem receios de repressão.

E o lugar para encontrar namoradas. “Nessa altura, onde é que tu ias encontrar uma rapariga? As escolas não eram mistas, havia pudor de se fazer muito do que hoje se faz. Quantos casais não se conheceram em bailaricos de clubes? Era uma zona neutra em que podias falar de política e talvez encontrar a mulher da tua vida” – Eupremio conta e ri.

Eupremio conta como muitas famílias nasceram nos bailaricos do São Domingos. Foto: Inês Leote

João Santana da Silva trava a fantasia para lembrar os desafios atuais. Porque “por muito importante que um clube seja num bairro, hoje em dia, não acho que consiga ter a importância que tinha antigamente”, acredita. “A malta não tinha televisão, se calhar a maioria das casas nem rádio tinha. A própria leitura pública de jornais acontecia nos clubes. Eram outros tempos”.

Hoje, as pessoas já não vivem tanto o bairro e isso reflete-se na sobrevivência destes clubes e na relevância que têm atualmente para os moradores.

No São Domingos, com uma ou outra exceção, “é tudo rapaziada para cima dos 50 anos” a tomar conta do clube. O que faz temer pelo futuro. Sentado à mesa, nesta conversa, um amigo de Eupremio e João, da Associação Relâmpago, diz que o trabalho deve passar pela criatividade”. “Em vez de estarmos a jogar dominó e ping-pong na sede, abrimos um espaço de competição para os putos jogarem Playstation, paralelamente ao futebol”, diz Ricardo Gomes.

A atual sede do São Domingos, no jardim do bairro. Foto: Inês Leote

Tudo para que o clube não volte a morrer, como aconteceu na década de 1940 – para ressurgir trinta anos depois, em 1970.

A memória que acabou no ferro-velho

Quando percorremos as nove ruas do bairro, percebemos que está parado no tempo. Quase como se tivesse estagnado no dia em que o São Domingos morreu, nos anos 40, o que se acredita ter sido fruto tanto de uma crise financeira no clube, como da criação da Direção Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar, do Estado, que nascia para “disciplinar” o desporto e medidas pesadas para os clubes marginais.

O São Domingos enfraquecia cada vez mais e, por se ter tornado o centro de sócios anarquistas e antirregime, estava sob a pressão da PIDE, que o vigiava de perto.

Mas até estas razões são difíceis de confirmar como sendo a corda no pescoço do clube, lembram os autores. É que, quando um conjunto de jovens do bairro decidiu fazer reviver o clube de que cresceram a ouvir falar, mas que nunca conheceram vivo, perceberam que não restava nenhum documento, taça ou medalha para recontar a história, abrir uma sede e dizerem que não estava a criar nada novo, estavam a fazer renascer.

Eupremio e João contam que as taças acabaram destruídas num ferro velho, que terá existido onde é agora o miradouro de São Sebastião – nome da freguesia onde está inserido o bairro. A documentação terá acabado mesmo apreendida pela PIDE, para que o clube e os sócios fossem silenciados.

Os poucos ainda vivos para contar alguma história não se lembravam sequer das cores do São Domingos. Descobriram, então, na casa de alguém que tinha uma camisola desfeita de atletismo do clube, que a história se contava a preto, verde e amarelo.

Eupremio e João contam que onde está o atual miradouro do bairro era o ferro velho onde se destruíram todas as taças do São Domingos Futebol Clube. Foto: Inês Leote

De lugares, pouco resta vivo também, com exceção de alguns, como a Casa Bocage (antiga residência do poeta), onde o São Domingos Futebol Clube passava filmes – e que até deu nome à freguesia, antes freguesia “Bocage”.

As sedes já não são o que eram e algumas servem quase de cemitério. No número 59 da rua Edmond Bartissol, sede dos anos 1980, o sócio Joaquim guarda as lápides que cria para os mortos. Foi um dos jovens refundadores do clube.

Por isso também, Eupremio Scarpa não termina a missão com o livro que ajudou a escrever. Prepara agora uma tour pelos lugares mais emblemáticos do bairro e que contam a história do São Domingos Futebol Clube, para que os velhos e novos moradores nunca se esqueçam dele. “Valorizar o que ainda existe e o que pode desaparecer, mas que é importante que continue a existir”, explica.

Sabe ele e João que este livro é também uma lição “para outros clubes”. “Não podemos perder a memória das nossas gentes”, rematam.


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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