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Sempre que o Presidente Jorge Sampaio entrava na capela do Palácio Nacional de Belém, contemplava as suas paredes despidas. Há já algum tempo que se encontrava fechada ao público, sem receber nenhuma missa. O Presidente quis dar-lhe nova vida. Ao reparar num antigo quadro da Virgem Maria que ainda resistia na capela, lembrou-se então da pintora Paula Rego para contar a história de Nossa Senhora.

Havia apenas um problema: “Não era muito evidente que a Virgem Maria fosse um tema que pudesse interessar a Paula Rego”, recorda José Manuel dos Santos, na altura assessor cultural do Presidente. Mas Jorge Sampaio não baixou os braços e, numa visita oficial a Londres, visitou o atelier da pintora para lhe fazer o convite.

José Manuel dos Santos acompanhou o Presidente e lembra-se bem daquela que foi a reação da pintora: “Desde que comecei a pintar que estava à espera desse convite”. Pouco tempo depois, num abrir e fechar de olhos, nascia Ciclo da Vida da Virgem Maria, um dos trabalhos menos conhecidos de Paula Rego, a emblemática artista plástica que nos deixou ontem, aos 87 anos, na mesma cidade em que Jorge Sampaio a visitou há 20 anos.

Foi José Manuel quem regressou a Londres para ver a obra completa. Ao chegar ao atelier da pintora, encontrou o espaço vazio, com os oito quadros ao fundo: ficou maravilhado. “Fiquei num silêncio deslumbrado e ela disse-me: ‘Já percebi que gosta'”.

Parte de um vasto legado

São oito os pastéis a óleo que percorrem a história da Virgem Maria, para os quais a neta de Paula Rego serviu de modelo, e que se baseiam na própria experiência de vida da pintora para relatar as vivências de Nossa Senhora. Vivências que Paula Rego estudou minuciosamente, recorrendo aos evangelhos canónicos e apócrifos.

Com a obra terminada, a pintora ofereceu-a ao Estado Português. Elisabete Caramelo, na altura Consultora para a Comunicação Social do Presidente, recorda bem o dia da inauguração, e a forma como Paula Rego relatou “a inspiração, o prazer que lhe tinha dado fazer aquele trabalho”. Todos adoraram o resultado, até mesmo o Cardeal-Patriarca.

Paula Rego e Jorge Sampaio e o retrato de Jorge Sampaio. Foto: Museu da Presidência

A pintora, que é conhecida pelo seu universo de mulheres fortes e personagens singulares, e que por isso mesmo foi considerada em 2021 uma das 25 mulheres mais influentes do ano pelo Financial Times, foi também a primeira e única mulher a retratar um Presidente para a Galeria dos Presidentes – Jorge Sampaio, claro.

Existem ainda mais dois retratos do Presidente pintados por Paula Rego que se encontram também no Museu da Presidência. “Estes oito quadros, mais os retratos do Presidente Jorge Sampaio, foram o mais importante enriquecimento do património do Palácio”, diz José Manuel dos Santos.

Porém, com o tempo, e as portas fechadas da capela do Palácio, os oito quadros foram sendo esquecidos, embora possam ser visitados aos sábados, mediante marcação.

A sua memória foi reavivada no 85º aniversário da pintora com a organização da exposição Da Encomenda à Criação, em que se contava a história dos oito quadros até finalmente estarem concluídos. Uma memória que é hoje também recuperada, ao recordar-se o vasto legado deixado por Paula Rego.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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