Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

No exterior da Escola Básica Fernanda de Castro, em plena Tapada das Necessidades, um grupo de miúdos reúne-se no espaço da horta escolar, à volta de uma mesa com uma toalha improvisada, pincéis e frascos coloridos. Coloridos porque contêm pigmentos de colheitas: espinafre, beterraba, curcuma, amora, salsa, caril.

Hoje é um dia especial para os alunos do 2º ano desta escola: é o dia de pintar a toalha da “mesa do banquete”. Um banquete que têm vindo a preparar desde dezembro, e que passou não só por semear os alimentos, como por construir a horta que lhes dá vida.

Este é a 13ª aula do Germinar um Banco de Sementes, um projeto da associação margens simples que tem como grande missão criar um banco de sementes a partir do espaço-escola, envolvendo os alunos numa aprendizagem que começa com a construção de uma horta escolar e culmina numa grande refeição.

No final, volta-se à semente, abrindo-se um novo ciclo.

https://amensagem.pt/wp-content/uploads/2022/05/germinarsementes_reels.mp4
Vídeo: Inês Leote

As crianças, os “decisores do futuro”

Pinta-se aquele que será um espaço de partilha. E é disso mesmo que a professora Joana Andrade fala: da viagem que os alimentos fazem desde a horta até à mesa, ao momento de convívio entre todos.

Os pincéis dançam pela toalha, desenhando casas, autocarros, meninas e meninos. “Cheirem o pincel!”, diz a professora. “É um cheiro tão bom!”, responde uma menina com o verde a salpicar-lhe o nariz.

São estas mesmas crianças “os decisores do futuro”, diz Joana Peres, responsável pela área da comunicação e uma das criadoras deste projeto. Foi a pensar nesse futuro que a ideia surgiu entre duas amigas: Joana e Maria João Fonseca, arquiteta paisagista. “Começámos a achar que era importante incutir cada vez mais este tipo de preocupações com as alterações climáticas às crianças”, explica Joana.

A equipa por detrás do Germinar um Banco de Sementes. Da esquerda para a direita: Maria João Fonseca, Joana Peres, António Alexandre, Joana Andrade. Foto: Inês Leote

Ensinar de forma diferente e estimulante: era esse o mote. E por isso desde cedo aliaram-se a um membro que é fundamental: António Alexandre, da Horta FCUL, o professor da maioria das aulas. “Os miúdos adoram-no!”, diz Maria João.

A equipa foi crescendo e desenhou-se um programa que pudesse ser integrado na atividade escolar dos alunos do 2º e 6º ano e em 2019 conseguiram financiamento do BIP/ZIP, estabelecendo parcerias com o Agrupamento de Escolas Padre Bartolomeu de Gusmão, o Banco de Sementes A.L. Belo Correia e o Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Para além destas hortas, criaram ainda um banco de sementes online, organizaram caminhadas em bairros e conversas com especialistas sobre o futuro ambiental. Mas a prioridade é, claro, o trabalho com as crianças.

Hortas escolares, caminhadas de bairro, conversas com especialistas são os projetos da Germinar um Banco de Sementes. Foto: Inês Leote

O sucesso da primeira edição permitiu-lhes a réplica do modelo em ainda mais escolas: hoje, estão presentes na Fernanda de Castro, claro, na Manuel da Maia, na Vale de Alcântara, na Josefa d’Óbidos e na Engenheiro Ressano Garcia, com um programa que ensinou não só como construir e preparar uma horta, como aliou a natureza à arte num “módulo” de ilustração científica lecionado pela ilustradora Luísa Passos.

Entretanto, dia 4 de junho, realiza-se um dia aberto na Escola Josefa de Óbidos, pelas 10h, com oficinas para pais e crianças e com a apresentação das atividades desenvolvidas pelo projeto.

No futuro, pensa-se ainda na possibilidade da horta escolar ter galinhas. “É importante que as crianças percebam que estes ecossistemas têm, para além das plantas, animais”, explica António Alexandre. Uma boa forma de se aprender a cuidar e que permitiria que as galinhas fertilizassem o solo com os seus excrementos.

Os divertimentos na horta

Os olhos de Amabilli, uma menina com o cabelo preso em dois totós, brilham enquanto fala. Tem oito anos mas não se acanha perante desconhecidos. “Eu plantei um morango mas ainda está meio amarelo”, conta antes de discorrer sobre outras façanhas: “Fui muito criativa quando um colega meu arrancou uma coisa e eu plantei porque tinha raiz”.

A tinta espalha-se por todos os cantos. Agrata, uma menina com sotaque brasileiro, desenha uma casa e exclama: “Casa: Portugal!”. Vê-se a alegria nos rostos e celebra-se a obra-de-arte. Quando os pincéis regressam aos frascos, é hora de a tinta secar.

Mas as aprendizagens continuam com muito divertimento à mistura. Antes do final do ano letivo, os pratos ainda vão encher-se de alface, morango (o preferido de todos!), feijão-verde e cebola para o grande banquete.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.