Yamandu
Ilustração: Lia Ferreira

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Inicio a crónica com a noção aguda de que a prosa de fã, exagerada, extática, dogmática e proselitista, é sempre um risco. Os convertidos podem até adorar, mas não se consegue prever a reacção de quem importaria cativar. E o risco aumenta quando o fã partilha um gosto de nicho, como vão sendo todos os gostos por música instrumental. No restrito meio das guitarras acústicas, Yamandu é um semi-Deus, um virtuoso do violão de sete cordas cuja precocidade, facilidade e intuição musical são hoje lendárias, mas ele passará despercebido andando pela rua.

Acresce que muita gente educada na pop tem aversão ao virtuosismo técnico e outros não suportam o som da guitarra ou a sua cultura, por vezes por razões tão atendíveis e constantes como o trauma juvenil de ser sempre o colega que sabe os acordes estranhos a ficar com a rapariga.

Assim, como forma de temperar o meu entusiasmo, reli o conto Viva Vargas!, de Woody Allen, que conta as peripécias de um bando de guerrilheiros, incluindo Arturo, que só sabe tocar à guitarra o Cielito Lindo e, por isso, ao fim da enésima interpretação, é obrigado pelos companheiros a comer a guitarra. Veremos se o fã se temperou.

Se vos trago Yamandu, é porque as ruas onde ele passeia hoje sem causar frisson são as de Lisboa. Segundo apurei, este brasileiro do Rio Grande do Sul, que é sobretudo um sul-americano, mudou-se para aqui com a família em Dezembro 2019, em parte como protesto pela situação política que se vive no Brasil, mas sobretudo pelos motivos do costume, como a língua comum, a simpatia do povo, a capital pequena e abarcável, a comida, também o facto de a sua mulher, a guitarrista Elodie Bouny, ser europeia (francesa), e ainda um critério geo-estratégico: Lisboa está bem servida de voos directos para os EUA, Europa, Japão e Brasil, destinos frequentes na carreira de Yamandu.   

Yamandu Costa é o sucessor de Rafael Rabello, um guitarrista genial que morreu com apenas 32 anos, e um dos grandes guitarristas – eles dizem “violonistas” –  de um país que tem ainda Edson Lopes, Sérgio e Odair Assad, Alessandro Penezzi, Marco Pereira e Marcus Tardelli, entre alguns outros.

O nível de técnica e musicalidade deste grupo torna idiota a pulsão de encontrar o melhor. Quanto à minha preferência por Yamandu, parafraseando Vinícius, que não seja objectiva, posto que é chama, mas que seja infinita enquanto viver.

Embora a sua discografia seja imensa, apesar de ter apenas 42 anos, talvez seja no Youtube que encontramos as melhores drogas de iniciação à música de Yamandu, como composições originais que incluem o feliz Samba pró Rafa [Rabello], o enérgico Choro Loco, o lírico Mariana ou o samba Lapa Hora Zero, composto em Alfama, interpretações de compositores da América do Sul, como Astor Piazzolla (com uma orquestra em Paris ou a solo desde o recato da sua casa em Lisboa), Armandinho ou Juan Falú, e ainda  inúmeras colaborações, como este duo com outro músico brilhante, o bamdolinista Hamilton de Holanda, entre muitas outras interpretações arquivadas no canal de Yamandu.

E quem sobreviver a esta saraivada de recomendações deve ver o episódio sobre Yamandu da série Sangue Latino, a peça que melhor sintetiza a sua música e pensamento. 

Há algo de reconfortante quando um estrangeiro de mérito se muda para cá, uma espécie de validação da nossa circunstância, mesmo que um dos efeitos mais palpáveis dessa migração de luxo seja o aumento do preço das casas.

O que fazer depois com um estrangeiro famoso em Lisboa? De certo modo, o melhor é ignorá-lo; os estrangeiros famosos chegam aqui em busca de tranquilidade. Mas um fã de Yamandu fica frustrado com a atenção dada pelos media a Madonna, Monica Bellucci, Michael Fassbender, Christian Louboutin ou Éric Cantona.

Comparado com estes novos alfacinhas de mérito duvidoso e presença incerta e efémera, Yamandu já provou ser um lisboeta de mérito superior pelas suas colaborações com António Zambujo (1, 2), Pedro Jóia ou Luís Guerreiro, e ainda pelo episódio sobre o fado na sua série Histórias do Violão.

Usando uma linguagem que Carlos Moedas conhece, o nosso edil deveria ver em Yamandu um “activo” e dar-lhe carta branca para qualquer projecto musical a desenvolver na capital, se for esse o desejo do músico. Por exemplo, a celebridade mundial de Yamandu ajudaria a criar em Lisboa um festival de guitarra capaz de ombrear com o de Córboda e outros dos melhores festivais de guitarra(s) do mundo.

Para um fã, partilhar a sua cidade com um ídolo recém-chegado é uma experiência que transforma o espaço. De repente, a probabilidade de me cruzar com Yamandu na rua não é desprezível, o que convém contextualizar para que não soe a ameaça. A literatura e o cinema (e.g., Misery, de Stephen King) tendem a descrever o fã como um perturbado mental. Mas há um aspecto profundamente saudável na relação de um fã com o seu ídolo, que vai muito além das horas de fruição.

Apesar de célebre, o ensaio em que David Foster Wallace descreve a observação do ténis de Roger Federer como uma “experiência religiosa” não convence, porque Wallace apenas refere a beleza do jogo de Federer (que não requer nem produz qualquer tipo de fé), a forma como o suíço parece desafiar as leis da Física (que é o grau zero da experiência religiosa, isto é, a sugestão do milagre) e o seu poder de inspirar (como se a inspiração nos reconciliasse com a existência, quando o que quase sempre faz é levar-nos por caminhos  inconsequentes).

A única “experiência religiosa” de alcance quase universal que o ídolo gera tem por base, curiosamente, a desinspiração. Yamandu e outros músicos superlativos, pelo nível inatingível a que se expressam, libertam-nos da vontade de os imitar, uma vontade que tem sempre um lado de inveja e apropriação, por mais sadia que seja.

Quando alguém escreve numa caixa de comentários, depois de ouvir Yamandu, que vai largar a guitarra, não se trata de um desabafo frustrado, mas de uma conversão que assinala o prazer puro da escuta, livre dos vícios terrenos que são a competição, a inveja e a superação, o que – pelo menos por instantes – nos liberta e redime.   


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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