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Às vezes dá-me para escrever uma mesma crónica, que repito, que repito… O ar do tempo dá-me um mote e eu embalo, como numa canção que trazemos na cabeça.

Por exemplo, dizem-me as notícias aturdidas: “Europa!” Ah, esse mote é fácil, e lá vou eu…

Jacques Canetti é um judeu dos nossos, dos que partiram, sefardita que nasceu na Bulgária, na margem do Danúbio, como o seu irmão, Elias Canetti, Nobel de Literatura, que escrevia em alemão, mas morreu cidadão britânico na Suíça. Europa…

Já o outro Canetti, Jacques Canetti (1909-1997), tornou-se francês, patrão artístico dos discos Polydor, para proveito do mundo da canção, pelo que fez por Brel, que era belga, e pelo francês Serge Gainsbourg, filho de russos. Europa.

Com o francês Serge Reggiani (e salto para este pelos seus 100 anos, cumpridos esta semana, nascido em Reggio Emilia, Itália, a 2 de maio de 1922), Canetti convenceu-o a cantar. Já ele era quarentão e famoso ator – protagonizou com Simone Signoret, um belo filme, Casque d’Or – quando aceitou gravar o seu primeiro disco, a meados da década de 1960. Isso deu-nos: Ma Liberté, Votre Fille a Vingts Ans, Sarah…, canções sublimes. Europa.

Muito antes, 1933, o Canetti ligado à música convencera a alemã Marlene Dietrich a cantar em francês, também pela primeira vez. Aconteceu com Je m’ennuie, voz rouca, canalha, da já vedeta mundial, que acabara de espantar com o filme Anjo Azul

Por falar no Anjo Azul, os outros dois atores principais foram os alemães Kurt Gerron e Emil Jennings, este, o primeiro ator a ganhar um Oscar. Quando Marlene Dietrich cantou em francês, já o filme estava proibido na Alemanha nazi e o livro que inspirou o enredo, de Henrich Mann, era queimado nos claustros das universidades alemãs.

Pouco depois, la Dietrich, já exclusiva atriz de Hollywood, cantou pelos Aliados; Jennings, o ex-premiado por Hollywood, tornou-se sabujo dos nazis; e Gerron, judeu, foi dos últimos gaseados em Auschwitz. A Europa tem sido sempre compósita, mas nem todos os acordes se recomendam.

Fui pelo tema “Europa”, hoje muito polémico e até bombardeado, mas refugiei-me na música porque é a forma mais fácil de levar a brasa ao que importa. Lembrei Marlene a cantar Je m’ennuie – uma gutural germânica a esforçar-se no “u” francesa – porque ela pronuncia a letra como se deve, com os lábios projetando um beijo.

Eu estava era a celebrar uma Europa em construção.

E podia acrescentar que nessa velha gravação da Polydor, ao piano está Wal-Berg – um judeu turco de Istambul. E o trompete e o saxofone que irrompem pelo slow-fox são de negros de Montmartre que iniciavam a Europa no jazz, há quase um século.

Europa, continente aberto.

Volto àquelas três canções cantadas por Reggiani, um francês que começou por ser italiano (percurso igual a outro enorme da canção francesa, Yves Montand, que nasceu na Toscânia), para lembrar que todas as três foram criadas pelo grego, nascido no Egipto, Georges Moustaki, que vivia na ilha de Saint Louis, nas traseiras da parisiense catedral de Nôtre Dame.

Atravessar fronteiras nem sempre cala e embrutece como parece quererem mostrar estes tristes dias. A Europa é boa por ser variada, e ainda é melhor quando se cruza.

Georges Moustaki, no seu bairro, na ilha de Saint Louis, em Paris. Fotos: DR

Há uns anos, escrevi uma crónica sobre Aznavour, que cantara na véspera em Lisboa. Crónica sobre o rapaz batizado Shahnourh, filho de arménios, que virou Charles e símbolo de França, porque nasceu num porto, num cruzamento do mundo, Paris. E dele parti para uma canção de há meio século, Le Métèque, que não era dele, era de Georges Moustaki.

Muito se cruzaram, Aznavour e Moustaki, e não só por terem sido ambos amantes de Edith Piaf, diva de Paris, também ela de outras origens que não gaulesa, a mãe era berbere, do Norte de África.

A palavra grega metoikos, era sobre os metecos, como os cidadãos atenienses chamavam aos que viviam na cidade, mas tinham vindo de longe.

Meteco como Moustaki, filho de Alexandria, e que desaguou em França para a inundar de belas canções. Meteco como Aznavour, arménio cujo nascimento em Paris interrompeu a emigração dos pais para a América (América, América, como no filme de Elia Kazan, outro arménio, balbuciam os refugiados quando veem pela primeira vez o refúgio, a Estátua da Liberdade). Metecos que, tantas vezes, engrandecem a cidade. 

Onde é que eu estava? Ah, já sei, a Europa.

Pois chegámos, à boleia de Moustaki, onde eu queria chegar, Atenas. A geografia é como as cerejas, e quem nos traduz o que estou a dizer é um carioca, Chico Buarque, cantando as palavras do seu amigo e conterrâneo Augusto Boal, exilado em Lisboa, 1976, onde era encenador no grupo teatral A Barraca.

A canção, a célebre Mulheres de Atenas, denuncia a submissão e a servidão das atenienses aos seus homens, que partem para sucessivas guerras. Homero e Aristófanes cantaram essas Penélopes e Helenas que esperam, e vão secando, pelos bravos guerreiros.

Na canção brasileira, as rimas – melenas, penas, cadenas, mil quarentenas, carícias plenas, obscenas, medo apenas, que não fazem cenas, se recolhem às suas novenas serenas… – ilustram o destino conformado das mulheres de Atenas.

A canção de Chico Buarque é sobres as guerras antigas, mitológicas, de partida e de conquista, de homens longe de casa, onde ficaram as mulheres. Agora, no meu sofá lisboeta, vejo uma guerra moderna, interna, de terra invadida, bombardeada e saqueada.

E, no começo, o protagonismo, talvez mais duro, foi entregue às Helenas e Penélopes. Elas é que partiam, porque as pátrias invadidas precisam de alguma esperança: às mulheres agarravam-se os filhos, atravessavam fronteiras, rumavam ao desconhecido. Elas não fugiam, cumpriam.

Sobre a guerra da Ucrânia, e no sofá lisboeta, frente à televisão, vi depois, entre tantas, uma cena ucraniana e hodierna (palavra rara, mas necessária por estes dias, palavra que reflete o que é recente, contemporâneo, o terreno próprio do jornalismo). A câmara mostrava o que acabara de acontecer, um bombardeamento. Encostado a uma parede de rua, um corpo de mulher, que adivinhámos morto. O homem dela estava na mais funda das aflições. Ele recusava-se a saber.

Eram velhos, deixados para trás. O homem continuou sempre de pé e só – ele e a angústia dele. Aproximou-se do corpo, olhou, mas recusava ajoelhar-se e tocar – o que ele não queria era confirmar. Voltou as costas e afastou-se dois passos. Parou, fechou o punho e levou-o à boca, para calar a decisão. Todo ele falava, expunha-se, calado consigo próprio. Reaproximou-se do corpo encostado à parede, olhou. Voltou-lhe as costas outra vez. Ele não queria saber a verdade que sabia.

Ouvimos aquele homem?

Que arrogância! Nós, no nosso sofá, não podemos, não sabemos ouvir aquele homem. Cena de rua, de guerra, sem palavras e em segundos, um velho qualquer de uma rua longínqua, patético, como só um filósofo grego saberia interpretar: “Se me ajoelho, mato-a, fico a saber que ela morreu.”

A velha estava morta, o velho fechou o punho e levou-o à boca. Não podemos fazer nada por eles.

Quanto às mulheres da Ucrânia, com os filhos agarrados às saias, chegaram, algumas delas, a Portugal. Podemos, pelo menos, não ser administrativos com elas? Ser decentes? 


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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3 Comentários

  1. “mulheres de Kiev…”que recorde o trato é o menos administrativo de todas as mulheres de todas as guerras de meu tempo … que deste melhor acolhimento (em geral) fique o exemplo para outras mulheres de outras guerras q eu espero e desejo q não tenham futuro…grande abraço FF, belo texto!

  2. O FF é sempre assim, desde que o leio (com pena minha, há poucos anos…)…Lembrei-me de outras mulheres, daquelas que viam os seus filhos e homens e irmãos, soldados, a lutar, uns de um lado, outros do outro…não é brincadeira o que trago a terreiro. Que o diga Aminata, mulher do meu herói, o Suleiman. Tinha o seu marido com G3, no Olossato, e o seu irmão, com AK47 no Morés…Mulheres sofridas. Sem Europa…Na Guiné…povos esquecidos…

  3. Ferreira Fernandes: Você escreve muito bem! Mas nos comentários do Público, nos poucos meses que lá estave, julgo que terá dito que, quando não era obrigado, não respeitava o AO90. Por isso fiqei confuso por ter escrito «Por falar no Anjo Azul, os outros dois atores principais» com “atores” e não “actores”. Cumprimentos.

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