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O jornal local é uma das âncoras de uma comunidade e de tudo o que nela acontece.

Quando era miúdo, o correio, às sextas-feiras, trazia o jornal da terra dos meus avós. O meu modo de aprender a ler cresceu muito com os jornais, o Popular, o Lisboa e o República que o meu pai levava para casa ao fim do dia, mais o tal semanário da terra, A Voz de Lamego, que lia em antecipação à família, com desejo de encontrar alguma coisa nova para poder contar à noite à mesa do jantar.

Lembro-me que foi nessas leituras que soube que a água canalizada ia chegar às redondezas da casa onde íamos sempre no fim do verão.  É uma casa no meio da vinha, para os lados do Relógio de Sol, a uma légua de Lamego, de onde se avista o Douro às curvas lá em baixo.  

A excitação com esta notícia foi tal que me levou à que julgo ser a primeira vez que usei o telefone de modo autónomo, com a ânsia de contar ao meu pai o que tinha acabado de saber pelo jornal. Lembro-me de lhe ter comentado com esperança de que, a ser assim, quando fôssemos às próximas vindimas já não deveríamos depender, para o banho da manhã, da água gelada do poço depois amornada no forno de lenha. Eu teria então uns 4 anos.

Mais tarde, senti falta daquele jornal que facto era muito uma folha paroquial, mas através do qual, já adolescente, soube que estava em criação lá na querida terra da família (nasci em Lisboa, mas com raiz sempre naquela encosta sul do Douro, virada para a Régua) um cineclube a que me quis juntar.

Também foi naquele jornal local que soube de notícias como a da abertura de uma casa farta em espaço dedicada à tão apetecida bola de presunto – a loja antiga, junto à Sé, era muito acanhada. Também foi aquele jornal que me trouxe a notícia triste da morte do senhor Eurico que me arranjava a bicicleta.

Foi ainda no jornal da terra que recebi a informação desoladora de outra morte, esta na guerra do Ultramar, o rapaz da quinta ao lado que me levava às primeiras noitadas nas festas da Senhora dos Remédios. A necrologia era uma das secções mais fortes daquele jornal local na viragem dos anos 60 para os 70 do século passado.

Também lia as notícias de resoluções da câmara, comigo sempre à espera de melhoramentos – que nunca correspondiam ao que aspirava.

Aquele jornal de Lamego, apesar de muito primitivo na forma e bastante doutrinário (para além de nulo em reportagem) servia para me aconchegar o desejo de me sentir parte daquela comunidade.

Depois do setembro/outubro das vindimas (as aulas começavam depois do feriado da República) durante os outros 11 meses do ano quase não ia a Lamego, mas continuava a saber coisas da vida de lá através do jornal.

Um jornal – tal como a rádio que tanto amo – é um ser vivo, como as pessoas, as plantas ou os animais. Cresce, adapta-se ao meio, reflete-o. Envolve-nos mais na comunidade, gera proximidade.

Nos bairros onde tenho vivido em Lisboa senti sempre a falta de um jornal em que me encontrasse com a freguesia e até com a cidade.

A falta do jornal local ficou mais lastimada quando tudo passou a poder estar a todo o instante no ecrã do telefone.

Sabemos que as notícias locais não têm lugar nos principais noticiários.

Às vezes damos com exceções que poderiam ser exemplo: o principal telejornal da televisão pública francesa, o “20 Heures” da France 2, cultivou uma rubrica “Ma Rue”, onde são contadas coisas boas ou más da rua que é notícia em cada dia. Mas o modelo não é replicado, apesar de algumas outras boas práticas, como a da rádio pública em Portugal, a Antena 1, que tem a tradição de dedicar uma boa hora (13/14) à informação local e regional. 

Estamos nestes últimos anos com sucessivas torrentes de tema único nas notícias. Entrou a calamidade da pandemia e quase só tivemos covid nos telejornais que continuam a ser a quase exclusiva fonte de informação jornalística para tanta gente. Veio a guerra, atroz como todas, e nas notícias quase só temos aquela devastação. Fica fora da agenda tanto que faz falta para ganharmos mundo e para nos encontrarmos melhor com o lugar onde vivemos.

A TSF, no slogan inicial em 1988, prometeu “vamos ao fim do mundo, vamos ao fim da rua”. Esta e outras telefonias levam-nos muitas vezes ao fim do mundo – é uma notícia a aplaudir que a reportagem esteja de volta, pujante, embora por motivo terrível: as consequências da guerra sobre as pessoas. Mas falta tanto que se caminhe até ao fim da rua. O Fernando Alves, sim, várias vezes entra por essa aventura e deslumbra-nos sempre. Outros também, mas só quando calha.

Numa época em que toda a gente se sente contadora, o bom jornalismo faz falta como nunca.

Precisamos de boas histórias bem contadas.

Para que o relato seja rigoroso a coisa requer ofício, praticado com liberdade e independência.

É o que a equipa da Mensagem nos dá em Lisboa: traz-nos pessoas e lugares da cidade, traz-nos a comunidade com as diferentes culturas e gostos. Traz-nos as culturas dos novos e a dos mais antigos.

Na Mensagem, por ser digital, cabe o áudio que é um modo mais aberto para ouvir rádio (bravo, Catarina Reis, pelos sons de Lisboa!), entra o vídeo, estão as discussões sobre como viver melhor a cidade (bravo Frederico Raposo!), estão as histórias, está o que nos liga e nos faz pertencer mais à comunidade maior de Lisboa e às comunidades dos bairros.

E estão as crónicas. Habituei-me a começar a leitura do jornal da manhã quase sempre por uma crónica, muitas vezes paginada na última coluna da última página. Era o indispensável Fio do Horizonte do Eduardo Prado Coelho. Antes as crónicas do Vítor Cunha Rego. As do grande Baptista-Bastos. As do Abelaira, as do Leonardo Ferraz de Carvalho, as do Vasco Pulido Valente, as do António Barreto. Alguns com ideias que não partilho, mas sempre inteligentes e cultas. Nunca perco o Miguel Esteves Cardoso. O Mexia e o Tolentino. Estou sempre à espera do prazer de ter mais para ler da Alexandra Lucas Coelho. Descobri recentemente as crónicas da Djamila Pereira de Almeida e também não perco uma.

Tal como, sempre, as crónicas do Ferreira Fernandes. Felizmente, a Mensagem dá-nos o FF.

Felizmente há Mensagem a trazer-nos Lisboa em jornalismo, com tudo o que Lisboa tem.


* Jornalista com carteira profissional (333A) que vem do 25 de Abril. Sempre seduzido pela rádio que agora também cresce como o áudio, vida vivida dentro da Antena1 e da TSF. Também sempre a desejar estar em aulas com estudantes que vão ser jornalistas – para ficar mais ligado à vida e entender o que importa a quem anda pelos 20 anos. 

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