O músico carioca em ação no palco do bar e sem pedidos de silêncio aos clientes, num bem-humorado recado ao famoso vizinho Hot Club. Foto: Rita Ansone.

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As luzes apagam-se e os holofotes iluminam o homem alto no palco, metido no fato escuro. “Boa noite, gente, bem-vindos ao Avenew”, declama, a voz de barítono a ecoar entre as mesas. “Antes de começar, gostaria de dizer que, se pensam que este é um bar para conversarem enquanto estamos a tocar”, continua, em tom de advertência, para em seguida rematar: “Pois saibam desde já que… é este o lugar, sim!”.

Sergio Beck, em ação; permissão para se conversar entre as apresentações: “O silêncio deve ser conquistado pelo músico”. Foto: Rita Ansone.

O homem alto de fato escuro e voz de barítono no palco é o músico brasileiro Sergio Beck, o jazzista que veio dos trópicos para realizar em Lisboa o sonho de ter um jazz bar. Um carioca de 45 anos que abriu as portas do número 45A da rua Joaquim António de Aguiar justamente às portas da pandemia, em dezembro de 2019, e que nunca as fechou em definitivo, mesmo com os sucessivos confinamentos.

Foto: Rita Ansone

O anúncio difundindo na já longínqua noite inaugural e repetido desde então de o Avenew ser um bar talk-friendly não deixa de ser uma provocação do mais novo espaço dedicado ao jazz em Lisboa direcionado ao mais antigo, o icónico Hot Club de Portugal, a catedral do ritmo onde um inconveniente pigarro ou o atrevido suspiro um tom acima podem ser interpretados como uma heresia.

“Nenhum músico gosta de tocar com os outros a conversarem, mas acredito que o silêncio do público deve ser conquistado e não exigido”, justifica o músico, ex-oposto da equipa de voleibol do Hebraica na adolescência no Rio de Janeiro dos anos 1980, o que explica os 2 metros e dois centímetros de altura que o fazem, apesar de sentado, estar ao mesmo nível dos demais presentes no balcão do seu bar.

Foto: Rita Ansone

Sergio ressalva, porém, que a provocação não é uma declaração de guerra ao vizinho da Praça da Alegria, longe disso.  “O Hot Club é um palco ótimo, com excelentes músicos, definitivamente um lugar dedicado ao jazz, referência em todo o mundo. Mas não é o meu estilo, pois simplesmente não acho que se deva sacralizar a música”, diz, fazendo as pedras de gelo mais uma vez girarem no copo com dois dedos de uísque.

O piano como arma do neto do aviador

O tom pacífico contrasta com a história dos antepassados de Sérgio Beck, na verdade, Sergio Beczkowski, um descendente de origem polaca cujo avô, Henry, esteve a serviço da Royal Air Force britânica, a bordo do mítico quadrimotor Avro Lancaster da RAF, em cerca de 25 missões de bombardeamentos durante a Segunda Guerra.

“Durante a Segunda Guerra, meu avô vivia em Inglaterra e a irmã, dele Mirian, era jornalista na França ocupada. Ao fim das sucessivas campanhas com a RAF, foi oferecido ao meu avô o direito à reforma num sítio à escolha dele. Enquanto muitos dos colegas foram para a Austrália, ele preferiu o Brasil, onde chegou nos anos 1950”, resume Sergio.

Filho de um engenheiro e de uma economista, o neto do aviador da RAF elegeu a música como campo de batalha e o piano como arma. As teclas do velho instrumento na sala da casa dos pais, no bairro carioca do Flamengo, eram os brinquedos de infância, onde aprendeu a dedilhar os acordes de Carruagens de Fogo. Uma brincadeira lapidada em vocação a partir das aulas de piano no conservatório com a professora Elbi Gonzales e as classes de música com Mrs. Bluette, na Escola Americana.

“Nenhum músico gosta de tocar com os outros a conversarem, mas acredito que o silêncio do público deve ser conquistado e não exigido.”

Sérgio Beck, músico.

O piano seguiu como companhia nos primeiros anos da vida adulta, na formação de uma banda de rock com os amigos, a Contraste – cujo nome não poderia ser mais anos oitenta – e as primeiras investidas profissionais no ramo da música, como sócio de um estúdio de gravação, o Uptown.

Foto: Rita Ansone

Os mais de dois metros de altura se, por um lado, ajudavam na potência da voz, “de barítono com extensões a tenor”, atrapalhavam a performance em palco. Esticar o braço ao alto como manda o figurino das rock bands, então, era altamente não recomendado. “Nos sítios onde tocávamos, dedicados às bandas de garagem, corria o risco de derrubar um dos holofotes”, brinca.

Os anos oitenta foram-se e com eles os sonhos de rock star, e o Sergio à beira da idade da razão concentrou-se na carreira de empresário. No início do século, porém, o avanço da tecnologia que, praticamente permitiu a quem desejasse ter um estúdio profissional em casa, obrigou a nova mudança de rumo e o Uptown transformou-se no Beck Studios, hoje uma das três grandes casas de dobragem de filmes do Brasil.

Nestas duas décadas, Sergio dedicou-se à segunda coisa que mais gosta na vida: viajar. Viveu dois anos em Londres, onde em 2005 tirou o mestrado em Engenharia de Áudio. Mas nem a temporada inglesa foi suficiente para fazê-lo esquecer um amor antigo. “Desde pequeno, com os meus pais, ia praticamente uma vez por ano a Nova Iorque. Depois de adulto, passei a ir duas vezes”, conta.

Foi na Big Apple que o jazz voltou a bater forte no peito do antigo roqueiro. Nova Iorque também permitiria a Sergio conhecer o The Box, a casa noturna de Manhattan famosa pelos espetáculos de variedades e que conjuga na medida certa o jazz bem tocado com apresentações de palco variadas, algumas dotadas de um certo teor porno-chic. “É uma espécie de Moulin Rouge à Estados Unidos”, tenta definir.

Uma experiência que o músico, empresário e agora dono de bar trouxe para as noites de Lisboa.

I like to practice what I preach

No balcão, o barman usa uma cúpula de vidro para cobrir o copo cheio de um líquido âmbar, como se a bebida fosse o bolo protegido numa doceira. Uma mangueira conecta a estrutura translúcida a um bico de gás, onde um pedaço de carvalho queima e perfuma o cocktail, antes de o drink fumado ser servido ao cliente.

Sergio Beck no palco, com a meia-calça da bailarina do Cabaret improvisada de adereço: “O silêncio tem de ser conquistado”. Foto: Rita Ansone

Sergio observa o engenho fumegante, quando um collant serpentina pelo salão e o tira do transe. Sem perder tempo, o músico encaixa a peça do vestuário feminino como um guarda-redes, dobra-a e simula um extravagante lenço no bolso do fato escuro.

Pela programação, o concerto do músico será intercalado pelos números de uma das mais concorridas atrações da casa, o espetáculo burlesco do Cabaret Lisboa, talvez o que mais se assemelhe ao espírito das noites nova-iorquinas no The Box.

As bailarinas revezam-se no palco, às vezes em performances temáticas, como na apresentação dedicada ao cinema, quando uma Jessica Rabbit com as generosas curvas milagrosamente contidas pelo clássico vestido vermelho cantou, dançou, despiu boa parte da roupa e fez cair o queixo dos presentes.

Pirlimpimpim, o anão malabarista, assume o palco para divertidos números por entre as apresentações dos espetáculos burlescos. Foto: Souldazz.

Nessa vez, na primeira ida da reportagem da Mensagem à casa, havia também um divertido número protagonizado por Pirlimpimpim, o anão malabarista, além de um mágico com ar triste, Bartolomeu, a circular pelas mesas com um baralho à mão, adivinhando as cartas retiradas pelos clientes.

A noite de hoje, porém, era dedicada ao aniversariante do dia, o patrão. E talvez para evitar o contraste com os dois metros do músico, o anão estava de folga, ao contrário de Bartolomeu que, como um bom mágico, surgia e desaparecia entre as mesas. Na última vez que o vi, estendeu-me as cartas como um leque. Elegi aleatoriamente uma. “Seis de ouro”, acertou ele, um sorriso sem jeito a cortar-lhe o semblante triste.

Bartolomeu, o mágico que surge e desaparece por entre as mesas entre truques de cartas para entreter os clientes. Foto: Rita Ansone.

Após o número burlesco, Sergio Beck subiu ao palco, ainda com a meia-calça da dançarina como um burlesco adereço no bolso do fato. Sentado num banco, para não destoar em estatura dos demais músicos, deu início ao concerto. E o que se ouviu na cerca de uma hora seguinte foi a prova de que Sérgio não exagerou ao mencionar a sua voz “de barítono com extensões a tenor”.

Também não exagerou ao garantir que os presentes deveriam sentir-se à vontade. Durante a performance da bela versão jazzística de Strangelove, dos Depeche Mode, um telemóvel toca numa das mesas e Sergio encaixa após o I give in to sin da letra um bem-humorado “estou?”, antes de rematar a estrofe com um apropriado because I like to practice what I preach

Um olho no palco, outro na gestão

Com a vida lentamente a voltar (ou não) ao normal, Sergio começa a fazer planos para ampliar a casa, atualmente com os 130 metros quadrados distribuídos pelo piso térreo, o pequeno bar de apoio à meia-dúzia de mesas, e o primeiro andar, onde 45 pessoas sentam-se às mesas ou ao largo do longo balcão para acompanhar as apresentações.

Sergio conta que o jazz bar foi uma ideia incensada pelo fumo dos havaneses dele e de três amigos, ainda no Rio de Janeiro. O quarteto eclético, composto além do músico por advogados e até um DJ, divide a sociedade do estabelecimento, previamente pensado para o lado oposto do Marquês. “É Avenew de Avenidas Novas”, explica. “Porém calhou de o melhor sítio ser aqui, mas o nome era tão bom que decidimos mantê-lo.”

Sergio Beck: “È um olho no palco, outro na gestão”. Foto: Rita Ansone

A ampliação prevê uma tabacaria dedicada aos amantes dos puros cubanos e de outras latitudes, o que não deixa de ser uma homenagem ao enfumaçado ambiente onde tudo começou. O que também deverá ser ampliado é a agenda de atrações, em número e variedade.

Sergio também pretende fazer ecoar a voz de barítono pelo salão, pelo menos, uma vez por mês, como o concerto já programado para meados de maio, uma subida ao palco limitada pelos ossos de ofício de músico e patrão.

“Este negócio de ser dono de bar é uma loucura. É um olho no palco, outro na gestão. Mas a minha vida tem sido assim, misturar o que gosto com o que faço para viver”, reconhece o neto do aviador da RAF que herdou a coragem do avô para aterrar em Lisboa e, por entre mágicos, anões malabaristas, collants a voar e muito barulho, fazer tremer o até então silencioso e sagrado reino do jazz lisboeta.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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