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Ilustração: Lia Ferreira

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As cidades, como as árvores, são sésseis. Uma cidade não se move. Dela se pode partir e algumas são a origem de ondas concêntricas que chegam a todo o lado, como a Lisboa metrópole de Quinhentos, a Londres imperialista e capitalista de Novecentos, a Los Angeles hollywoodesca do século XX ou, nas últimas décadas, a São Francisco do Silicon Valley.  Mesmo podendo ser o centro nevrálgico das guerras, o imobilismo das cidades cria uma assimetria: no sentido estrito, uma cidade nunca ataca, só se pode defender.

Na infância, montei uns modelos de tanques e dos caças Sturzkampfflugzeug (o Stuka) e Spitfire, mas não sou um daqueles obcecados que nos esmagam com estatísticas obscuras sobre os Aliados e o Eixo. Se hoje leio sobre guerras, é fruto das circunstâncias históricas que vivemos.

Confirmei em leituras apressadas a impressão de que o interior das cidades raramente foi palco de guerra antes do século XX. Durante séculos, a estratégia militar usada nas cidades foi o cerco, sendo as imediações e fortificações da cidade o palco da luta. Uma vez rompida as muralhas da cidade, esta rendia-se, podendo ser saqueada. Os exércitos profissionais combatiam sobretudo em terreno aberto.

Foi só a partir no século XX que a guerra urbana se tornou mais frequente, como em Madrid, que Franco julgou poder controlar em alguns dias, tendo as forças republicanas resistido mais de dois anos, em Leninegrado, Berlim e outras cidades durante a Segunda Grande Guerra Mundial, e depois durante as guerras de independência que ocorreram na Ásia, África e Europa, ocupando ainda os horrores da Sarajevo dos anos 1990 o mesmo lugar que Mariupol vai ganhando na memória de quase todos.

Embora qualquer povoação portuguesa tenha uma igreja e uma fortificação, a fazer das prioridades de Robinson Crusoe uma regra, erguer um muro parece ser mais urgente do que construir um lugar de culto. E conhecer uma cidade, na perspectiva redutora do apressado turismo contemporâneo, passa por percorrer o perímetro das suas muralhas.

Aqui em Lisboa, mais gratificante do que uma visita ao Castelo de São Jorge, talvez demasiado conspícuo após a reconstrução de 1938-40, será um passeio ao longo do perímetro da Cerca Velha (ou Cerca Moura) que circundava vários bairros da cidade e hoje, já só se percebendo de forma tão fragmentada, nos obriga a um esforço de imaginação.

Mas, em tempos de guerra europeia televisionada, não são os confrontos históricos com mouros, castelhanos ou franceses que as muralhas da cidade evocam. É difícil não pensar em como Lisboa e os seus habitantes reagiriam num contexto de guerra moderna.

Não temos uma indústria de cinema que produza distopias lisboetas de fácil consumo. O último esforço de imaginação castrense em que Lisboa foi cenário remonta já a 2007, quando Almeida Santos soltou um “Suponham que uma ponte é dinamitada?” para nos convencer de que não seria boa ideia construir o novo aeroporto na Margem Sul. Eram outros tempos.  

Agora a imaginação dispara como forma de gerir a ansiedade, sobretudo na mente daqueles que nunca viveram uma guerra, que são hoje a esmagadora maioria dos portugueses. Que refugiados acolheria o Brasil? Quem emergiria como herói? Teríamos colaboracionistas? Quantos gestos de solidariedade, coragem e cobardia entre cidadãos ficariam por documentar? Que estações de metro nos acolheriam nas noites de bombardeamento? Que prédios seriam os primeiros a ser transformados pelas bombas e mísseis naquelas ruínas instantâneas de betão armado que vemos em Kharkiv e Mikolaiv?

Bucha, onde ocorreu horrendo crime de guerra, dista do centro de Kiev praticamente a mesma distância de Oeiras (onde vivo) ao centro de Lisboa. Dir-me-ão que não deveria ser necessário este exercício para criar empatia, mas se aceitarmos que a falta de empatia é muito mais uma falha da imaginação do que um defeito moral, a indiferença tem conserto e fica mais fácil perceber – o que não é sinónimo de “justificar” ou “aceitar” – por que motivo a empatia pelo outro diminui com a distância e a sua dissemelhança física e cultural.  

Com o progresso da tecnologia de guerra, uma cidade deixou de se poder valer das suas muralhas; de resto, as de Lisboa, a Cerca Velha e Cerca Fernandina, já tinham desaparecido na malha urbana antes do aparecimento da artilharia moderna. E aos muros que hoje se erguem pelo mundo fora falta nobreza, porque quase sempre são a prova de uma desistência.

Desistimos de tolerar o vizinho, de permitir a sua vinda, e assumimos que se trata de um bárbaro que não pode transpor a muralha. Mas enquanto estruturas defensivas, as antigas muralhas das cidades materializaram uma aspiração de pertença a um lugar e foram a expressão realista de um desejo de paz num mundo de guerras.

*Roubei o título ao blogger Valupi.


Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

Lia Ferreira

Nasceu em Lisboa em 1974 e ali cresceu e fez a sua formação artística. É pintora, ilustradora e retratista. Mãe de 4 filhas, leva a vida na Arte.

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