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No Bairro Alto, o Miradouro de São Pedro de Alcântara deixará de contar, progressivamente, com a sombra estival de oito imponentes Celtis australis, comummente conhecidos como lódão-bastardo. Fazem parte de um património vegetal lisboeta em risco.

No tabuleiro superior do jardim, de acordo com os registos oficiais, existiram 74 exemplares desta espécie – sendo a mais utilizada na cidade desde 1929. Nos oito que estão sinalizados para substituição, pela Câmara Municipal de Lisboa, foi identificada a presença do fungo Inonotus rickii, causador do “cancro do lódão”.

Para perceber a decisão, é necessário perceber o fungo, já comparado a uma epidemia, no que ao reino vegetal diz respeito. De acordo com os últimos cálculos, de 2015, a incidência deste cancro rondava 30% dos lódãos lisboetas, estando em curso uma nova avaliação. 

A intervenção da CML, que tem a gestão do arvoredo da cidade, prevê o abate de oito lódãos no Jardim de São Pedro de Alcântara. Decisão que gerou protestos e mesmo uma manifestação contra o abate das árvores. Foto: Leonardo Rodrigues.

Não é um mal de agora. Tem vindo a ser reportado, desde 2000, em várias árvores ornamentais em Portugal, com especial prevalência no lódão. Logo que a situação foi identificada por investigadoras do Instituto Superior de Agronomia (ISA), iniciou-se o mapeamento massivo das árvores doentes, sendo este Miradouro considerado um “hotspot há já 20 anos”. Quem o diz é a professora Ana Paula Ramos, uma das investigadoras que fez a descoberta e atual coordenadora do Laboratório de Patologia Vegetal Veríssimo de Almeida.

Infeção paciente e oportunista, causada pelo homem e pelo clima

Porque não tratar as árvores em vez de as abater?, perguntarão os lisboetas. A resposta, no que respeita às árvores mais velhas, não é animadora, pois a solução está a jusante e não é possível recuar dezenas de anos, nomeadamente nas podas que abriram as portas a um fungo transportado pelo vento. Pela altura do diagnóstico, o fungo já está alojado no coração lenhoso da árvore.

Como nos explica a especialista Ana Paula Ramos, “o fungo necessita de lesões para se instalar”. Após a infeção, fica num estado de “dormência aguardando o enfraquecimento das barreiras de defesa da árvore”. Só então começam a surgir sintomas como “redução do tamanho das folhas, morte de ramos, podridão branca do lenho e a presença de massas de clamidósporos e basidiomas nos troncos e pernadas” – os “cogumelos”.

Apesar de as podas serem o fator de risco principal, as lesões não advêm exclusivamente destas. Outro fator, nem sempre em evidência, é o vento. As zonas onde o fungo é encontrado, assim como as lesões, são compatíveis com partes da árvore onde incide mais o vento. 

Paralelamente às lesões, os eventos climáticos favorecem a proliferação de doenças, afetando não só a fisiologia das árvores, enfraquecendo-as, como criando condições favoráveis ao fungo. “Deixámos de ter chuva durante o inverno para a ter na primavera e verão, ideal para um fungo que prolifera em regiões tropicais”.

Daí a surpresa quando o identificaram pela primeira vez em Lisboa, uma vez que, até então, era essencialmente encontrado em “países com climas tropicais e subtropicais, nomeadamente a norte de África”, explica a investigadora.

O futuro das sombras e a inevitabilidade das podas na cidade

Na Natureza não existem podas, as árvores e o seu crescimento estão à mercê dos animais e dos elementos. Nas cidades, nomeadamente nas árvores de arruamento, são necessárias para salvaguardar bens e pessoas. Isto não justifica todas as podas, e a virtude está em como se fazem. O crescimento e forma das árvores é conduzido através da “poda de formação”. Se esta for bem feita, a necessidade de podar as árvores é muito menor e isso previne as doenças.

Para as árvores mais novas, o destino pode, pois, ser mais animador: “quando uma árvore é bem conduzida desde o início, quase não precisa de poda, mas, nos exemplares que não forem devidamente conduzidos, mais severas e perigosas serão as podas”.

Manter árvores antigas o máximo tempo possível e investir em boas podas de formação nas mais jovens é a receita para um arvoredo saudável na cidade. Foto: Leonardo Rodrigues.

Uma árvore adulta tem ramificações de maior diâmetro, logo mais difíceis de sarar, o que a torna mais vulnerável. A alquimia para garantir as sombras do futuro é, portanto, simples: “manter árvores antigas o máximo tempo possível e investir em boas podas de formação nas mais jovens”.

Por princípio, as podas só devem ser realizadas quando estritamente necessárias. Os ramos secos são de especial preocupação: “podem entrar em rotura a qualquer momento, sem qualquer evento excecional”. Muitas vezes, é algo que acontece no verão, “com a subida da temperatura, a madeira morta dilata, perde a capacidade de oscilar e cai”.

Quanto aos lódãos, velhos e novos, são atualmente a espécie mais monitorizada da cidade, existindo procedimentos específicos para intervencionar estas árvores: “as podas do lódão são feitas quando o fungo está menos ativo e não há vento significativo, sendo os cortes executados em ramos mais finos, pois nesses a probabilidade de recobrir a ferida é maior”, esclarece a especialista.

Falámos também com Ricardo Elisiário, engenheiro agrónomo e editor da Revista Jardins, que indica alguns dos principais fatores de uma má poda em qualquer árvore: “realização fora de época, técnica de corte errado e não desinfeção das ferramentas entre cortes”. Isto tem um impacto negativo nas árvores, podendo ser a causa de diversas doenças.

Salvaguardados estes itens, há um outro que pode ajudar e só acontece quando uma árvore é plantada, a fertilização. Ao longo da vida de uma árvore em caldeira, a fertilização permitiria uma maior robustez fisiológica e, consequentemente, uma defesa mais eficaz perante doenças: “na cidade, poderiam ser feitas fertilizações orgânicas, com águas reutilizadas”, sugere o engenheiro agrónomo.

Ana Paula Ramos tem uma opinião mais conservadora, nomeadamente porque “a capacidade de absorção tende a ser diminuta” devido aos solos compactados. Paralelamente, a ação de arejar o solo para melhorar a absorção pode causar lesões indesejadas. Reafirma, por isso, que a chave está em dar um bom começo à árvore.

Se o diagnóstico é tardio, porque não um diagnóstico sistemático? É uma pergunta que, em tempos de pandemia, parece fazer-se mais. Infelizmente, o diagnóstico precoce, neste caso, é raramente possível. Os sintomas aparecem quando o fungo já está alojado no tal coração lenhoso e testar uma árvore sem sintomas implica fazer um furo que pode ser “uma desnecessária porta aberta” a este ou outros agentes patogénicos.

Isto é válido para todas as árvores e doenças que não sejam superficiais e não exibam sinais nem sintomas. Por essa razão, é necessário “um equilíbrio, encontrado na inspeção regular das árvores que, uma vez com sintomas, são testadas laboratorialmente”.

As árvores não cicatrizam

Cientificamente, uma árvore não cicatriza como concebemos o processo. “Há o pressuposto de que as células de lesão são iguais às anteriores, mas não, as árvores compartimentam, recobrindo a ferida”. O que é eficaz em muitas árvores não basta para o lódão, afinal este é o que apelidam de “mau compartimentador”, ou seja, recobre mal as lesões, o que explica a sua particular sensibilidade.

A aplicação de pastas “cicatrizantes” é algo bastante falado. Embora recomendado num pomar de macieiras ou vinhas, não é a adequado ao lódão, em que as lesões têm diâmetros maiores. De acordo com a evidência, por vezes o efeito é oposto ao pretendido porque a aplicação promove um microclima localizado, caraterizado pela humidade e calor, “precisamente o que o fungo pretende”.

Em casos excecionais, aplica-se uma pasta com antifúngico, algo que tem uma ação curta e local, o que deve ser ponderado, pois os fitofármacos passam para o ar, o que é potencialmente nocivo para a saúde humana.

Em Portugal, nenhum medicamento está aprovado que tenha uma atuação sistémica, ou seja, que penetre na árvore até o seu interior.

Como se decide abater uma árvore?

O abate é o fim da linha. Por vezes passam-se mais de 10 anos entre o diagnóstico e um abate. As árvores, após diagnóstico, são geridas e, por vezes, também chegam a vencer lutas contra doenças. 

Porém, quando tal não acontece ou deixa de ser viável, por questões de segurança e ponderação de benefícios, há um abate. Consequentemente deve ser feita a substituição, como está previsto no caso destas.

Ana Paula Ramos diz que custa muito quando, após confirmação laboratorial, têm de sugerir a substituição de um exemplar adulto. Ninguém quer propor um abate e quando o fazem é porque tem mesmo de ser. Pela sua experiência, é algo comungado entre investigadores e técnicos.

As árvores que irão substituir os Celtis australis são as Liquidambar styraciflua, que se têm revelado uma boa escolha em alguns locais da cidade. Foto: Leonardo Rodrigues.

A contestada escolha das novas árvores

As árvores que irão substituir os Celtis australis são as Liquidambar styraciflua, o que é outro dos pomos de discórdia. Ricardo Elisiário, sobre a escolha, comenta que “as árvores em Lisboa sofrem de uma desidratação intensa, pelo vento e calor a que estão sujeitas, problemático para estas árvores que gostam de humidade, locais abrigados e solos frescos e profundos”.

Apesar de inusitada, uma vez que a Grande Lisboa tem uma população inferior a 400 exemplares de Liquidambar, tem-se revelado uma boa escolha para alguns locais. E, acima de tudo, esta espécie “é resistente ao fungo, a maior preocupação”, constata Ana Paula Ramos.

No debate sobre as árvores na Baixa lisboeta, organizado pela Mensagem, Ana Luísa Soares, Professora no ISA e especialista em arvoredo da cidade, reiterou a importância de pensarmos “o arvoredo e as substituições a longo prazo”. Diz que a Zelkova serrata é  exemplo de uma boa escolha, também resistente às agressões da cidade. É semelhante ao Celtis autralis, com a particularidade de no outono ter uma coloração mais avermelhada.

Ativistas em protesto, em busca de esclarecimentos e melhores práticas

A Plataforma em Defesa das Árvores – o maior grupo de proteção das árvores do país -, pediu esclarecimentos à Câmara Municipal de Lisboa. Este pedido visou comprovar o estado fitossanitário dos exemplares, relatório que não foi disponibilizado no site da CML juntamente com o documento relativo ao abate. Foi também solicitado um parecer técnico que fundamente a escolha dos novos exemplares sugeridos.

Ativistas ambientais organizaram um protesto silencioso, com várias faixas, onde é possível ler “Ecocídio”, “Matar estas árvores é crime ambiental” e “As árvores tratam-se, não se matam”.

Rui Mourão, um dos ativistas envolvidos, diz que não existem verdadeiras substituições no combate às alterações climáticas, uma vez que estas árvores “demoraram décadas a crescer e, por cada árvore adulta abatida, são muitos anos até produzirem a mesma quantidade de oxigénio, sombra, capacidade de captura de carbono e abrigo para fauna”.

Recorda cortes anteriores e questiona que as substituições venham efetivamente a acontecer: “Estão lá cotos de árvores cortadas em anos anteriores que nunca foram substituídas”.

A Câmara Municipal de Lisboa, por seu lado, em declarações à Mensagem, reconhece que o lódão tem vindo a ser especialmente afetado e que a mitigação dos efeitos não é um processo fácil nem imediato.

De acordo com a autarquia, o planeamento do arvoredo está a ser feito de modo a acompanhar a nova realidade climática e a mitigar o stress a que as árvores estão sujeitas, “visando o seu sucesso futuro”. A escolha dos novos exemplares é parte desse processo, sendo que até à data a espécie tem-se revelado resistente a pragas e doenças.

Diz ainda que todas as intervenções no arvoredo, mesmo em regime de outsourcing, são feitas de acordo com a lei em vigor e com a supervisão de técnicos qualificados.

O escrutínio e a defesa das árvores da cidade encontra-se nas mãos de todos e continuará a fazer-se sobretudo online, num empenho para assegurar as sombras do futuro.

Sobre as intervenções no arvoredo da cidade, é possível encontrar esta informação no site da CML, aqui. Os abates podem ser denunciados no Facebook, na Plataforma em Defesa das Árvores, e no Twitter, em Lisboa Quase Verde. Os pedidos de esclarecimento devem ser dirigidos à Câmara Municipal de Lisboa, enquanto entidade responsável pelo arvoredo.


Leonardo Rodrigues

É aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. É membro da Assembleia de Freguesia de Alvalade, eleito pelo Bloco de Esquerda, e autor do blog Leonismos.com

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2 Comentários

  1. Fico muito grata pelo vosso empenho na conquista de uma cidade mais sustentável. A vossa investigação e respetiva comunicação é muito importante.

  2. Infelizmente a CML ainda vive no atrasado paradigma pré-ecológico da “inevitabilidade das podas” e as empresas que subcontrata só querem é fazer negócio com o corte de árvores em toda a cidade para venderem a madeira, sobretudo para as centrais de biomassa. Cada vez há menos árvores frondosas em Lisboa.

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