Ana Luisa Soares no Jardim Botânico da Ajuda. Foto: Rita Ansone

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Os livros são um espelho de quem os escreve. Acabado de publicar, assim é O Arvoredo, os Jardins e Parques Públicos de Lisboa (1755-1965), publicação coordenada por Ana Luísa Soares. Pretexto para falar com arquiteta paisagista e atual diretora do Jardim Botânico da Ajuda numa conversa ritmada pelos sons do Jardim sobre o valor das árvores da cidade e o papel do arquiteto paisagista.

Ana Luísa chama-se a si própria arquiteta-jardineira, e paixão pelas razões das plantas parece correr nas veias. Oriunda de uma família de agrónomos e silvicultores, recorda que a sua escolha de Arquitetura Paisagista surgiu da vontade de conciliar as ciências com a arte, as plantas com o desenho, resolvendo a “dualidade entre a arte e o ir para a terra”. Tudo se resolveu e o fascínio pelas árvores tornou-a numa das maiores especialistas em arvoredo lisboeta.

Diz que aquilo que lhe “interessa numa árvore, primeiro é a silhueta”, a constante todo o ano. O resto é efémero, “as flores, frutos e folhas vão e vêm”. Não consegue escolher uma estação favorita para o jardim precisamente por isso, pela arte transformadora da Natureza, sempre arrebatadora.

Sete anos de trabalho, três séculos de História e um livro com as árvores e jardins de Lisboa

“Conheço as ruas de Lisboa pelas árvores, não ao contrário”, diz Ana Luísa. Deste conhecimento e interesse pelas árvores resultou o livro mais completo acerca do património vegetal lisboeta, com o objetivo de compilar três séculos de património botânico, paisagístico e cultural. Um trabalho ambicioso, resultado de um projeto financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que reuniu 40 autores nacionais e internacionais. “Para que o livro chegasse às prateleiras, além do querer e da paixão, foi determinante o contributo ao longo dos anos de 40 pessoas generosas”, diz Ana, das quais destaca Raquel Cunha, Cristina Castel-Branco, Teresa Vasconcelos, Pedro Arsénio e Sónia Azambuja.

Para tal ambição, sete foram os anos necessários. O livro foi editado em forma física e digital, pela Câmara Municipal de Lisboa, com o apoio FCT, ao abrigo da Lisboa Capital Verde Europeia. Encontra-se integralmente disponível, na forma digital, aqui. “Contar as histórias dos Jardins, das suas árvores, é contar a nossa História, a história de Portugal. Na altura da expansão marítima, eram aos miradouros, que também são jardins, a que os marinheiros acorriam. Pediam aos céus para voltar, os que regressavam lá tornavam para agradecer”, recorda Ana Luísa.

Logo no prefácio, de Cristina Castel-Branco, essa intenção vem expressa: ficamos com a certeza que o livro se demarca dos demais, afinal os objetos de estudo não são referidos como meros “espaços verdes”. É anunciada uma procura na escrita do livro pelo desapego desta “expressão falsamente inovadora”, que esvazia os jardins da sua significância histórica, botânica, arquitetónica e da relação do Homem com a Natureza.

Na génese deste livro está um outro, LX Gardens – um acrónimo pouco inocente, que não apenas abrevia o nome da cidade, como também faz referência ao número romano LX, 60, o número de jardins aqui a imortalizar.

Como se escolhem 60 jardins para uma publicação desta envergadura e responsabilidade, é uma pergunta que pode ocorrer. Com balizas ancoradas no “relevo histórico e botânico”, esta é uma viagem que começa em 1755, com o Grande Terramoto a ditar o início da linha cronológica. Por esta altura, “a maior parte dos jardins lisboetas ficaram reduzidos a nada”, dada a destruição implacável do fenómeno. Foi tempo de repensar e fazer.

Ana Luísa Soares: “No Grande Terramoto a maior parte dos jardins lisboetas ficaram reduzidos a nada.” Foto: Rita Ansone

Numa ponta do livro começamos com o primeiro Passeio Público, atual Av. da Liberdade, e terminamos no emblemático jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. Ao folhearem o livro, encontrarão QR codes que, uma vez scaneados, darão acesso a informação mais detalhada, permitindo, além da História, saber a localização, as espécies das árvores e ver os desenhos originais de manchas verdes impregnadas de História.

José Sá Fernandes, anterior vereador do ambiente na CML, diz que as árvores passaram a ter um “bilhete de identidade”, o que é verdade para 27.610 árvores, de 799 espécies diferentes, que aqui figuram. Algumas já têm mesmo BI, no plano físico, em forma de placa.

A árvore mais resistente à vida em Lisboa é a Celtis Australis, comumente conhecida como lodão-bastardo, espécie mediterrânica mais usada por cá desde 1929. Não é por acaso. Como diz Ana Luísa Soares, para uma árvore sobreviver nesta cidade “tem de ser uma guerreira, estão sujeitas a tanto, algumas condenadas a caldeiras diminutas”.

Árvore no Jardim Botânico da Ajuda. Foto: Rita Ansone

O livro deixa a cidade com um guia em vários sentidos, nomeadamente histórico e bibliográfico. Nas páginas finais, um guia na verdadeira aceção da palavra, com os percursos recomendados para descobrir os Jardins de Lisboa: das quintas de recreio aos parques públicos e o dos modernistas.

Do restauro à direção do Jardim Botânico da Ajuda

A vida dá muitas voltas, por vezes até retomar o ponto de partida, o que é uma coisa boa neste caso. Podemos, e devemos, recuar até 1993, altura em que Ana Luísa concluiu o curso de Arquitetura Paisagista. Neste ano, juntou-se a Teresa Chambel – atual diretora da Revista Jardins – num trabalho de final de curso hercúleo, orientado pela Professora Cristina Castel-Branco, o restauro do Jardim Botânico da Ajuda.

Hoje, ao olharmos para o Jardim parece que está assim desde o século XVIII, data da sua fundação. A verdade é que resulta do restauro no fim do século XX que reconstituiu os 1100 canteiros originais, com “o objetivo de aumentar a coleção botânica”.

Apesar da abundância de canteiros que o restauro ergueu, a coleção encontrava-se “bastante empobrecida”, com apenas 93 espécies diferentes. “Uma frustração”, desabafa Ana Luísa. Afinal conheciam-se a História e registos do Jardim. Nos registos do italiano Vandelli, primeiro diretor do Jardim, estavam 5.000 espécies diferentes. Félix Avelar Brotero, considerado o pai da Botânica em Portugal e o diretor subsequente, registou 1.370 espécies. A coleção botânica, e respetiva manutenção, foi sendo um espelho do país, do saque das invasões francesas aos contextos político-económicos ao longo dos anos.

Numa altura em que tudo era feito em papel vegetal e tinta da china, este foi o primeiro trabalho a ser entregue em AutoCAD, o programa que está para os arquitetos como o Photoshop está para os fotógrafos, o que permitiu mostrar com exatidão a evolução do Jardim.

Nada parece acontecer ao acaso. Se nessa altura Ana Luísa tinha ficado encarregue da curadoria da coleção botânica, hoje é a responsável máxima da mesma. Um ciclo de 20 anos que a devolve ao primeiro Jardim Botânico de Portugal, agora enquanto diretora.
“Foi uma honra muito grande regressar ao local onde tinha sido, e sou, muito feliz”, partilha.

Além da coleção botânica, é responsável pelo banco de sementes, que assegura trocas fecundas entre os jardins botânicos do mundo. “Podemos dar a volta ao mundo dentro deste jardim”, conta com satisfação ao partilhar que têm vindo a aumentar uma coleção que cobre quase todo o globo, o que também é fruto das características abonatórias do clima lisboeta.

Recorda que a coleção botânica “foi enriquecida durante a direção anterior”, da investigadora Dalila Espírito Santo. “Mas ainda não estão todos preenchidos”, diz confiante de que isso se cumprirá.

À descoberta do valor das árvores de Lisboa

O trabalho de doutoramento de Ana Luísa Soares pretendeu quantificar, de forma mais objetiva possível, o valor dos benefícios das árvores no meio urbano lisboeta, face aos custos. “Uma árvore em Lisboa tem um valor 4,5 vezes maior do que os seus custos”, sintetiza.

A motivação para este trabalho teve três fatores: dedicar esses anos da sua vida a algo que verdadeiramente importasse, uma conferência no estrangeiro sobre árvores urbanas e um mote para acabar com as “bio-bocas”, termo utilizado para referir o que todos sabemos acerca das árvores, como a melhoria da qualidade do ar ou redução de temperatura.

Após algum tempo na Califórnia, para aprender com o conceituado investigador Gregory McPherson, um empenhado em mensurar os benefícios das árvores, Ana Luísa estava pronta a aplicar um modelo e software americanos à nossa cidade. Para isso, precisava de recolher dados e definir critérios. Então, durante dois verões, época em que as árvores estão plenas na sua folhagem, a equipa mediu e analisou mais de 3.000 árvores de rua.

Num dos dias em que estavam a fazer medições, um senhor abordou-os: “Então, vocês passam aqui o dia a abraçar árvores?” Era muito mais do que isso. Hoje em dia, é graças a esses abraços, sensores e muitos parâmetros que podemos quantificar o valor de uma árvore versus as despesas incontornáveis à vida na cidade – para a autarquia.

O valor a que se chegou, benefícios 4,5 vezes maiores do que os custos, explica-se de muitas formas, algumas bem simples. Por exemplo, nas ruas mais arborizadas é possível sentir uma redução de 5 graus Celsius. São casos disso a Rua Ferreira Borges, em Campo de Ourique e a Sacadura Cabral, nas Avenidas Novas.

“Com as alterações climáticas, não sobram dúvidas de que a plantação de árvores é uma das medidas principais para mitigar os seus efeitos”, diz Ana Luísa.

Como sabemos, é com números que criamos o ponto de partida para conversas importantes. Recentemente, foi assinado um protocolo para dar continuidade a este projeto a uma escala muito maior, existindo já dados para 30.000 árvores da cidade.

Aos arquitetos paisagistas falta-lhes serem jardineiros

“Eu sou uma jardineira, um arquiteto é um jardineiro, tem de conhecer as plantas e o trabalho como conhece os materiais de construção”, diz Ana Luísa. Por isso, quando começou a dar aulas no Instituto Superior de Agronomia, reintroduziu a componente prática, recuperando a metodologia do Professor Francisco Caldeira Cabral – da qual beneficiaram os primeiros arquitetos paisagistas, como Gonçalo Ribeiro Telles, António Viana Barreto e Edgar Fontes.

“Pôr a mão na terra foi importante na minha formação”, conta, recordando que tal apenas lhe sucedeu no restauro do Jardim Botânico da Ajuda. Esta prática esteve perdida por algum tempo. Durante o período em que foi estudante, visualizavam os processos práticos nos acetatos, como abrir uma cova, o que estava bastante distante de sentir a terra.

“É a terra que faz com que nós, arquitetos, nos liguemos aos locais”, conclui. Por esse motivo, continua a escolher dar aulas práticas e a integrar os alunos na própria dinâmica do Jardim. Dependendo da época e das atividades que os jardineiros estão a realizar, sejam sementeiras ou propagação por estacaria, introduz os alunos nessa dinâmica.

Ana Luísa Soares defende que os arquitetos paisgistas ponham as mãos na massa. Foto: Rita Ansone

No fim do curso, “os arquitetos estarão entre o viveirista, o jardineiro e o cliente”. Muitos paisagistas terão a responsabilidade de gerir equipas de jardinagem, portanto convém saber, além da teoria, o trabalho que está por detrás das espécies. “É fundamental perceber os bastidores de um jardim e valorizar o papel do jardineiro, uma das grandes falhas do nosso país. Em França ser jardineiro é um orgulho, bem remunerado”, diz.

No Jardim Botânico existiu uma Escola de jardinagem que valorizava esta arte. Tinham aulas de botânica, solos, fitossanidade, entre outras. À tarde, praticavam no Jardim. Infelizmente teve o seu término por falta de financiamento. Noutro tom, o jardim continua a ser palco de workshops que abordam algumas destas temáticas.

A conversa encerra com um passeio e fecho do jardim, um dos momentos preferidos da diretora. Agrada-lhe terminar o dia deambulando, assegurando-se que está tudo bem. Também para lhe sentir a paz: “Sempre que tenho um grande desafio, venho para aqui fazer o caminho da balaustrada e tomo as minhas decisões”.

E a sua árvore favorita? A Gingko biloba. Por ser uma árvore de grande longevidade, imagina que “deve estar bem com ela”. Com uma cor e uma folha diferentes de todas, é a árvore que pauta o outono em Lisboa.


*Leonardo Rodrigues é aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. É membro da Assembleia de Freguesia de Alvalade, eleito pelo Bloco de Esquerda, e autor do blog Leonismos.com

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5 Comentários

  1. Muito meritório. Agora é dar o passo seguinte: transformar as ruas em jardins, exortar os cidadãos a cuidarem das árvores da sua rua quando a seca aperta, dando-lhes inclusivamente dicas para além da simples rega. Eu trago adubo biológico do meu jardim de Sintra para as árvores da minha rua…

  2. É triste, ler um artigo tão interessante e ler como escrevem as palavras arquitetas … atual … diretora … todas com o vírus do AO1990 .

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