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A localização pode ter tido a mão do oculto. A versão que persiste coloca Natália, alguns amigos e uma vidente, munida de um alguidar com água e de um pêndulo, em cortejo pela capital no então Volkswagen da escritora, perscrutando as energias dos diferentes locais que, à época, estavam disponíveis no mercado.

De uma maneira ou de outra, a escolha recaiu sobre uma antiga carvoaria, junto ao miradouro da Graça. Lugar pequeno, lúgubre e sujo – por lá ainda estariam as tulhas de petróleo e de carvão –, que o preço, os espíritos – o pêndulo tremeu sobre a água dando o consentimento – e o entusiasmo de Natália elegeram como aquele que seria o ponto nevrálgico da tertúlia lisboeta e da conspiração política. Chamou-lhe Botequim. Ali se iniciariam e terminariam revoluções e amores. Os poetas também fazem isto: ver através de paredes sujas. 

Inaugurado ainda em ditadura, foi erguido à sombra de um país idealizado pela dona. Sob a aura Belle Époque, ganhou treze mesas a pedido de Natália, estofos vermelhos e candeeiros arte nova; as paredes, cobertas por madeira sólida e escura até meio, foram pintadas junto ao teto de um amarelo adoentado pelos cigarros e, à falta de vitrais, mandou pendurar gravuras de Alfons Mucha, que trouxera de Paris. A pontificar o espaço, num pedestal elevado, estava um busto de mulher – La Poésie – oferecido por um grupo de amigos.

Transposto o balcão alto, chegava-se à cozinha, onde havia uma escada de acesso ao piso superior. Por lá escapara-se a extrema-esquerda a fugir à esquerda moderada, ou vice-versa, durante o PREC. Junto à porta, fora colocado o piano que a acompanhava todas as noites. Era raro não cantar, atendendo aos pedidos: Sinatra, Beatles, canções francesas dos anos setenta, mas também modinhas açorianas ou jograis ditosos que inventava no momento, já depois do 25 de Abril, para satirizar a atualidade política. Havia um cliente que pedia: “Ó Natália, cante-me aí o mesquittepas”. O mesquittepas, dizia, um indivíduo de lá de cima, da Beira. “Não, senhor!”, respondia. E depois cantava: “Ne me quitte pas” na versão do Jacques Brel.


Fotos: Espólio da escritora Natália Correia à guarda da Biblioteca e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

Fez do lugar a sala-de-visitas. E, como em casa, era seletiva na freguesia, mantendo a porta fechada e obrigando quem queria entrar a tocar à campainha. Sentada de costas, rodeada pelos habitués eleitos, olhava de relance os que chegavam e com um gesto curto permitia uma aproximação ou travava qualquer abordagem.

Natália era obsidiante nos amuos, tão audíveis como qualquer discussão. E eram muitas e vivas, rebentando como petardos. Feria-a um verso mal dito, um comentário político desalinhado ou o sorver do gelado com maior alarido durante a leitura de um poema. As suas razões declinavam-se, tantas vezes, em tempestades insondáveis. Aos proscritos restava, por vezes, a humilhação para serem readmitidos no séquito. “Só lhe perdoo se vier de joelhos até aqui a mim”, chegou a dizer a um. E ele foi, arrastando-se sobre a alcatifa do fundo da sala até ao piano.

Todas as noites, o mesmo nervosismo de uma plateia que segue um guião vivo. A determinada altura da madrugada era expectável que a anfitriã se erguesse e tomasse o palco, mas era sempre uma surpresa o que se sucederia: a leitura de um poema, um comentário sobre a atualidade, uma cantoria, um brinde viperino que cutucava um dos presentes na sala ou, afastando os holofotes, apresentava à sociedade qualquer poeta obscuro que ali tinha aportado na ânsia de ganhar madrinha. 

O horário e o serviço do Botequim respeitavam-lhe os hábitos notívagos e a fome. O bar estava aberto até às cinco da manhã e servia jantar e ceia. Ela chegava tarde, entre as onze e a meia-noite, e jantava uma segunda vez, o rosbife ou o afamado bife à Botequim acompanhados por um whisky. A figura empalidecera com o avançar da doença e a imagem e a saúde foram descuradas. Tornou-se desleixada com a aparência, os vestidos passaram a ser costurados pela porteira, e abominava check-ups. Deitava-se tarde “porque o dia divide e a noite une”: “O poeta tem de banhar-se na lunaridade da festa noturna. De contrário é um tecnocrata do verso que só conhece metade da vida.”


Natália Correia com o General Ramalho Eanes. Foto: Espólio da escritora Natália Correia à guarda da Biblioteca e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

O ambiente no Botequim trajou, principalmente na primeira década, à medida de cada momento político. Antes do 25 de Abril, cochichava-se entre paredes com a imprensa internacional, medindo o pulso ao regime. A voz subiu de tom confirmada a Revolução, arvorando-se sobre a porta de entrada a bandeira de Portugal ao som do hino cantado de mão no peito. Também foi no Botequim que se carpiram as mágoas da liberdade traída. Navegando as águas conturbadas do PREC, Natália transformou o bar no “recanto onde madrugada fora se improvisavam e desfaziam governos”. Tudo voava, até as cadeiras.


Filipa Martins

É escritora. No seu primeiro romance, descreve a plumagem do Passeio Público e, no segundo, as saudades dos que partiram do Cais das Colunas. Os cafés de Lisboa são escritórios convenientes e o rio o repouso dos olhos.

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