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Faz malabarismo com o olhar, entre a estrada que tem à frente e o número que chama, sem parar, no telemóvel. Não é o primeiro por atender. São 14h00 e Margarida Castro Martins ainda não parou para almoçar.

Entra numa Avenida da Liberdade cheia. Mãos livres, atende. É do gabinete de comunicação da Câmara Municipal de Lisboa: “De onde vieram os donativos? São das Juntas de Freguesia?”. Prepara-se uma nota de imprensa e é preciso certezas. “São de todos os cantos e recantos da cidade”, responde a diretora dos serviços municipais da Proteção Civil. “Lisboa está imparável”, diz, num sorriso rasgado.

Margarida fala do que acontecera umas horas atrás.

É raro o silêncio nos dias de Margarida Castro Martins, entre reuniões e um telemóvel que não para de chamar. Foto: Francisco Romão Pereira
Foi um dia emotivo para a equipa da Proteção Civil municipal de Lisboa, que organiza a ajuda a levar à Ucrânia. Foto: Francisco Romão Pereira

Na noite passada, Anatolii Tsylepa, 55 anos, nem dormiu. Quem confidencia o que ele tentava esconder é o filho, Anton, de 28 anos. São ambos motoristas de pesados e, na sexta-feira passada, começaram a viagem de trabalho mais dura da sua carreira. Estão de partida para a fronteira polaca com a Ucrânia, país onde nasceram e que trocaram por Portugal em 2001 por acreditarem que aqui o trabalho era mais e melhor, mas que ainda é o berço de toda a família.

Um país em guerra, pelo qual eles escolheram lutar ao volante. Se dúvidas houver, que o diga o cachecol que levam na borda do vidro dianteiro: azul e amarelo, com todas as letras que lhes importa ler – “Ukraine”.

São 10h00 e estão a preparar-se para partir do Complexo Municipal da Boavista, de onde saem dois camiões cheios de donativos para os refugiados ucranianos na Polónia. Cheios não é expressão: cada um leva 14 toneladas de caixas de cartão com produtos de higiene, roupa, edredões, comida e medicamentos.

Tudo doado por Lisboa – pessoas, associações e instituições locais e nacionais. São os dois primeiros camiões da autarquia a rumar Europa fora com donativos para este povo em fuga.

Nem todo, é certo. A família destes dois homens – mãe e mulher, avós, tios e primos – continua por Chernivtsi, cidade deitada às margens do rio Prust, onde “a guerra ainda não chegou”. A mãe de Anton até queria vir para Portugal, “mas com a avó assim…”. Debilitada e decidida a não abandonar o país, prende o resto da família à Ucrânia.

Anton tinha estado a matar saudades em dezembro, longe de pensar que as ameaças vindas do Kremlin iriam concretizar-se. Longe de saber que voltaria, três meses depois, aplaudido neste complexo municipal de Lisboa como um herói.

Quando a invasão rompeu, quis ser herói de arma na mão, “ajudar o país”. “Mas a minha mãe disse-me: ‘Filho, todos têm um papel’. O meu é este, ajudo de outra forma.” Ainda se propôs a conduzir para várias empresas além daquela para a qual normalmente trabalha, a Jerónimo Martins, “mas eles disseram que, só nessa manhã, já tinham recebido 100 ucranianos a pedir o mesmo”, conta.

“Reunião rápida?”. Margarida Castro Martins une-se, em círculo, com a equipa de mais sete pessoas em frente à porta traseira do camião de Anton e Anatolii. São os membros da Proteção Civil responsável pela célula de donativos e alguns dos principais braços direitos de Margarida. Apresentam-se todos de colete ou casaco cor de laranja, que não despem, senão quando o dia acaba.

Rui Oliveira, um dos coordenadores da operação, põe o dedo no ar e dá as indicações: “Passa caixa, passa caixa… Não tem nada que saber. Se der, aproveitamos e levamos mais, que isto ainda leva muita carga.”

O dia anterior foi de carregamento. Quase 30 toneladas carregadas do armazém deste complexo para dentro dos camiões. Deixaram as caixas de medicamentos para o seguinte, para serem acondicionadas de forma simbólica: esperaram a presença de vários representantes locais e internacionais – como o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e a embaixadora ucraniana – para encher o resto da mala e ver o camião partir.

“Os meus dias não são sempre assim. Este é um dia de realizações, de resultados, é um dia feliz”, desabafa Margarida. Um dia que previa que terminasse pelas 23h00, como habitual.

Antes, uma assinatura para assinalar este dia diferente. É-lhe pedido que assine a guia de viagem destes dois camiões e torna-se quase palpável a emoção e adrenalina que corre no corpo da equipa de cor de laranja. “Isto é que conta”, remata o coordenador Rui Oliveira, oferecendo o duplicado da guia a Margarida. E selam o momento com um abraço.

Anton e Anatolii vão partilhar a condução de quatro em quatro horas, rumo à cidade de Lublin, na Polónia. Antes de subirem ao camião, um dos coordenadores da Jerónimo Martins dá conselhos: o primeiro descanso é à entrada de França, porque “lá tem melhores condições”; e ai deles se resolvem passar por Paris, porque já diz a experiência dos últimos dias que as estradas estão congestionadas de trânsito pesado.

Um gole na garrafa de água antes de partir. É o pai Anatolii quem vai estrear o volante. Um apito à saída, para a despedida. A equipa da Proteção Civil acena e vai brindar com café e mais um abraço, desta vez de família. “Podem descansar um bocadinho”, diz-lhes Margarida.

Atrás de si, a paisagem de um armazém onde tanto ainda parece estar por fazer.

No Complexo da Boavista, faz-se a seleção dos vários donativos a sair para as fronteiras com a Ucrânia ou para as lojas sociais. Foto: Francisco Romão Pereira

Onde Lisboa e a Ucrânia se encontram

Os primeiros mísseis atingiam aeródromos militares, punham um país em bunkers, outros de malas e passaporte na mão, e faziam as primeiras vítimas na Ucrânia, quando Margarida Castro Martins recebeu o primeiro sinal de mobilização. A mais de quatro mil quilómetros da guerra.

“Lembro-me bem.” Passavam dois dias da desde que as tropas russas invadiram território ucraniano – 26 de fevereiro. “Era sábado, 19h00. Recebi a primeira chamada. Era o senhor presidente [Carlos Moedas].” A equipa da Proteção Civil ainda nem tinha fechado do capítulo da vacinação para a covid-19 (para encerrar a FIL e abrir operações noutros dois centros) e já tinha de responder a outro evento de larga escala e responsabilidade.

Tudo o que o executivo pediu foi “um centro de donativos, uma linha de apoio por telefone e por e-mail, e um centro de emergência (situado na Praça de Espanha) para os refugiados”. “E não era para quando eles chegassem, era para já, porque eles já estavam a chegar”, lembra.

Margarida Castro Martins diz conhecer a CML “de trás para a frente”. Foto: Francisco Romão Pereira

Na segunda-feira seguinte, uma reunião e tudo começou a funcionar.

A Proteção Civil municipal e não só. Até hoje, a linha criada para registar apoios aos refugiados já atendeu mais de 3700 pessoas em Lisboa. A diretora deste serviço sabe que os lisboetas são a extensão de um braço da Proteção Civil nestes dias, o que não a surpreendeu “de todo”. “São os lisboetas, não é?”.

O telemóvel toca e insiste umas quantas vezes. Margarida sabe que o desastre já está por cá, que a resposta já começou a ser dada, por isso, não urge atender como naquele 26 de fevereiro. Agora, a prioridade é outra: pousar o café com que brindou com a equipa no complexo de onde partiram os donativos, ligar o motor do carro e seguir para uma reunião de orçamento nos Paços do Concelho.

Uma casa onde a diretora de 44 anos dá passos seguros, quase sem olhar em frente, como se da sua casa se tratasse. Diz mesmo conhecer a Câmara Municipal de Lisboa “de trás para a frente”. Está lá desde que, acabada de se formar, ali chegou “para ficar um mês” como técnica jurista.

Entretanto, o tempo avançou 20 anos, durante os quais Margarida esteve na assessoria jurídica de Manuel Salgado (gabinete onde entrou em 2007), da Divisão de Contraordenações, que foi estrear, e da Unidade de Intervenção Territorial Centro, onde ficou a conhecer os meandros da cidade e as suas pessoas. “Foi um grande trabalho de proximidade.”

Até que, em fevereiro de 2021, assume o cargo de diretora da Proteção Civil municipal. “A meio de uma pandemia e num momento muito particular, que foi o início da vacinação. Surreal”, recorda, ainda com o peso desses dias na voz.

A diretora Margarida Castro Martins na reunião nos Paços do Concelho. Foto: Francisco Romão Pereira

O passo acelera, embora a reunião tenha atrasado. Ficamos do lado de fora, mas na companhia de Dulce Aleixo, 56 anos, naquele dia responsável por um dos turnos na loja social instalada no edifício da Câmara. Um “olá” caloroso, um “até já” porque os números esperavam discussão na mesa de reuniões e uma confidência: “A Dulce foi educadora do meu filho”.

Durante 25 anos, exerceu o papel de educadora dos filhos dos profissionais da Proteção Civil. Até ter saltado para o desafio profissional de ser uma das técnicas educadoras na Casa Tinoni, no projeto Crescer em Segurança da Proteção Civil. Ali, recebe diariamente crianças até aos 11 anos, vindas de várias escolas, para lhes ensinar como devem proteger-se de sismos, incêndios, acidentes domésticos, da rua. E de uma guerra.

Já teve de interromper a missão por duas vezes – uma pela pandemia, outra por esta guerra que acontece na Europa. Mas não é nada que lhe tire o sono. “Ser da Proteção Civil é estarmos prontos para fazer tudo, a qualquer momento”, diz, ajeitando o colete cor de laranja. Um discurso que fomos ouvindo várias vezes ao longo do dia, até de motoristas que vestem a farda, mas sabem que tê-la vestida significa que, um dia, podem ter de estar preparados para saltar para a linha da frente da Proteção Civil.

“A atitude que temos é muito importante”. Dulce explica o papel de todos nesta loja social, aberta de segunda a domingo, com a ajuda de dois voluntários e dois bombeiros sapadores, mesmo à entrada do edifício camarário. São metros e metros de caixas cheias. Roupa, muita roupa, arroz, massa, enlatados, ração para os animais, higiene feminina, latas de leite em pó, brinquedos, cadeiras de transporte de bebés e até uma cadeira de rodas.

Uma autêntica loja, feita da boa vontade de lisboetas, que aqui fazem chegar o que é tão preciso a quem sofre com esta guerra. Tudo escoado para as mãos de ucranianos, que aqui vêm levantar o que precisam por uns dias. Onde Lisboa e a Ucrânia se encontram.

Por gestos ou na língua deles, em imagens, assim se tem recebido os ucranianos na loja social. Foto: Francisco Romão Pereira

Em tudo, etiquetas. Mas se o português ou inglês não chegar, “faz-se gestos”. “Mesmo assim, às vezes pode ser difícil para eles, por isso, estivemos aqui a preparar estas folhas com imagens e com as palavras em ucraniano, para eles perceberem melhor.”

Um casal entra com sacos na mão. Fraldas e roupa. “Aceitam sapatos? Então, ainda voltamos”, diz o homem, com sotaque que faz adivinhar não ter nascido em Portugal.

Dulce Aleixo passa os sacos para as voluntárias. Preparam-se para dividir as peças de roupa por tamanhos e verificar se está tudo em bom estado. “Estas não, vão para a reciclagem.” Dulce aparta umas calças manchadas para o lado. “A regra é: o que não serve para nós, não serve para os outros.”

No dia em que lá estivemos, “foi um dia fraco”, de doações e de receção de refugiados. Tinham recebido quatro famílias ucranianas. Dulce não reconhece neles nada além de uma serenidade na forma de estar. Um alívio por estarem a salvo, tenta adivinhar. É o caso do rapaz de 18 anos que aqui entrou no início da tarde. “Está sozinho, a viver numa pensão. Tem 18 anos. Escapou por pouco ao combate”, suspira.

As crianças que vão doar alimentos, roupa e outros bens também fazem questão de deixar uma mensagem para quem chega vindo da Ucrânia. Foto: Francisco Romão Pereira

Numa das paredes, uma mensagem para ele e todos os que chegam. Nem só de bens se faz a doação. São várias as crianças que fazem questão de acompanhar os pais neste ato de solidariedade e trazer também eles algo que faça a diferença. “Trazem desenhos”, de cores garridas. E não esquecem que a língua não é a mesma: “I love you“, escreveram nas camisolas que pintaram nas folhas brancas.

Nem que a bandeira pode ser um elemento de pertença, que também não deixam fora das margens.

Uma casa onde cabe tudo

Ouvimos o passo apressado de Margarida Castro Martins. A reunião está terminada. São 14h00 e o motor é posto a funcionar novamente, em direção à próxima paragem: o centro de emergência, onde chegam novos refugiados quase todos os dias.

“Difícil, difícil”, faz o apanhado da reunião. “Temos um serviço operacional e pouco tempo há para discutir orçamentos”. A diretora desabafa sobre a dificuldade de gerir números numa profissão de pessoas.

O telemóvel volta a interromper.

“Não conheço o número”, atende a medo. Do outro lado, uma moradora de São João de Brito pede desculpa a cada três segundos, mas precisa realmente de saber o que fazer com o vizinho que não a deixa reforçar a parede do quarto da filha dela. Sem poder na matéria, como faz questão de avisar, Margarida dá as coordenadas para chegar a quem a pode ajudar. “Acontece muitas vezes”, isto de ter moradores da cidade e sempre números desconhecidos no ecrã do telemóvel, com problemas que ela não tem autoridade para resolver.

São tempos de guerra na Europa, mas o resto do trabalho não para.

“Agora, uma chamada para o IKEA.” Está preocupada com as residências de emergência da Proteção Civil, acabadas de remodelar, em Chelas, mas por mobilar. São casas que respondem a casos de despejo e incêndios numa habitação, por exemplo, e onde as pessoas podem ficar “anos e anos”. Calcula que sejam cerca de 100 os hospedados nestas residências.

Chegam da Ucrânia cerca de 100 pessoas por dia a Lisboa para as respostas da Proteção Civil. Foto: Francisco Romão Pereira

“Pryvit [Привіт].” Margarida Castro Martins não sabia uma palavra em ucraniano até a guerra começar e os dias serem um cruzamento de culturas. Agora, diz ‘olá’ como quem domina a língua estrangeira. Estamos no centro de emergência para os refugiados que chegam da Ucrânia.

Um livro pousado no chão com um rosto por terminar e duas mãos pequeninas dão conta do assunto. Colhem peças de cartão que fazem de cabelo e barba para o boneco inacabado. Percebe-se que discutem sobre a escolha do pelo facial e que está difícil chegar a consenso. Olhando para este metro quadrado do centro onde a brincadeira é tudo o que mais importa, parece que a guerra tem no mundo, e por momentos, um papel absolutamente secundário.

Ela continua. E basta olhar um pouco mais à volta. Há pessoas a dormir num pavilhão, a mais de quatro mil quilómetros, porque a casa que era delas perdeu as paredes. Ou porque o medo de perder a vida acelerou o passo e a corrida só terminou em Portugal. Nota-se que o fôlego está reposto. Bebe-se água e café numa das mesas de plástico do centro, onde cada canto é um ponto de uma casa improvisada.

Uma tentativa de repor a normalidade nos dias de quem a perdeu há um mês.

A diretora dos serviços municipais da Proteção Civil reúne-se com uma das responsáveis da Cruz Vermelha neste centro de emergência de apoio aos refugiados vindos da Ucrânia. Foto: Francisco Romão Pereira

Porta abre, porta fecha. Em média, entram 100 pessoas refugiadas da Ucrânia por dia em Lisboa, sem contar com todas as outras que chegam sem passar pelas respostas da Proteção Civil. O que faz estranhar o dia que a equipa estava a viver: “cinco pessoas deram entrada hoje”, contabilizavam entre eles. Seria estatística de pouca dura: uns minutos depois, chegava de notícia de mais 39 pessoas a caminho de Lisboa, vindas de comboio. “Tudo muda num instante”, desabafa a diretora Margarida Castro Martins.

Até sexta-feira, já tinham passado pelas respostas da Proteção Civil 795 pessoas. Atualmente, eram 202, com abrigo no centro de emergência (cerca de 20) e nas respostas de hotelaria com protocolo com a Proteção Civil e para onde vão sobretudo as pessoas com determinadas necessidades motoras ou mais debilitadas. No centro, “o ideal” é que não fiquem mais de três dias, até serem encaminhados para respostas da Segurança Social, diz Carlos Lopes Loureiro, um dos coordenadores da equipa.

Reúnem-se numa pequena casa térrea, de portadas de madeira, vizinha ao centro de emergência. É a Casa Tinoni, o antigo local de trabalho de Dulce Aleixo. Onde antes caminhavam crianças, mais ou menos atentas ao que lhes ensinavam, agora é uma correria de coletes e casacos cor de laranja para dar resposta a uma guerra na Europa. Também aqui, um dia, os mais pequenos aprenderam como reagir em tempos de guerra, sem saber que ali mesmo uma equipa trabalharia para salvar centenas de pessoas de uma.

Numa sala, o coordenador Carlos Lopes Loureiro lê folhas de Excel e põe-se a par dos números do dia. Na divisão ao lado, dois profissionais em frente a um computador estão a postos para dar resposta às operações que não cessam porque estilhaços da guerra chegaram a Lisboa. Numa outra, o GAPP – Gabinete de Apoio Psicossocial à População – de onde saem os números que Carlos analisava, mas também todo o acompanhamento contínuo às famílias. “É mais do que apoio emocional”, dizem.

E, numa outra sala, abrem-se as folhas de Excel de outros três profissionais sentados numa cadeira e de telemóvel ao ouvido. Esta sala mais parece uma casa em ponto pequeno, desenhada para isso mesmo: com uma cama a um canto, até mesa de cabeceira, uma sala de estar e uma cozinha onde faltam a água e os talheres. Uma casa estática, sem vida, como tantas as que hoje fazem a paisagem da Ucrânia. E o sítio poderia até ser simbólico: aqui está instalada a central das linhas de atendimento da Proteção Civil.

“SOS Ucrânia”, atende Sónia Rocha, de auricular no ouvido. “Neste momento, não temos capacidade para dizer quantas pessoas podemos receber. Tem de nos dizer quantas são, porque, de repente, podem chegar 50 pessoas”. Tudo muda num instante, já lembrava Margarida Castro Martins.

Num outro telefone, chega um donativo como não há muitos. A Força Aérea ligou: pergunta se a Proteção Civil tem empilhadora no complexo da Boavista, porque quer encher “paletes e paletes” de donativos na segunda-feira.

Marta Dubyk, 40 anos, é ucraniana e está a trabalhar como voluntária no centro de emergência para refugiados em Lisboa. Foto: Francisco Romão Pereira

Se a Margarida Castro Martins em nada surpreendeu a reação de Lisboa, para Marta Dubyk, 40 anos, ucraniana residente em Portugal e tradutora no centro de emergência, a fibra solidária desta cidade foi uma surpresa. “Não esperava que Portugal reagisse assim.” Tanto que, mal conseguiu, atirou-se para umas das linhas da frente. Desempregada há poucas semanas do aeroporto de Lisboa, ofereceu-se como voluntária para receber os refugiados que chegam com a língua que ela também domina.

Na cidade de Drogobych, na região de Lviv, deixou ainda grande parte da família. Os homens estão agora a ir para a guerra. “Hoje foi o primeiro dia.” Suspira, ajeita o colete cor de laranja e regressa ao trabalho.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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