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Anseio pela ausência de ansiedade. Há cinco dias consecutivos que acordamos cá em casa em sobressalto com as notícias que nos chegam do nosso país, a Moldávia, ou do nosso país vizinho, a Ucrânia. E mesmo quando não chegam notícias más, a ansiedade não se dissipa. A falta de informação é usualmente mau sinal, e portadora de angústia que asfixia ainda mais.

Embora estejamos a viver a mais de 5000 quilómetros de distância do epicentro do conflito, a nossa vida é continuamente afetada por ele. Os alimentos mais essenciais na Moldávia começam a escassear: desde a mais simples farinha de trigo na prateleira da mercearia aos medicamentos nas estantes das farmácias.

Uma amiga próxima da minha mãe viajou antes do conflito para a Moldávia para chorar a morte da mãe dela. Entretanto, com o encerramento permanente de fronteiras e aeroportos, ficaram presas lá. Esta amiga tem cancro, e mensalmente precisa de se automedicar com uma injeção que lhe garante a sobrevivência. Na Moldávia esses medicamentos escasseiam.

Nas redes sociais acionamos contactos e vimos que há uma carrinha a partir rumo ao leste que transporta bens e mercadorias. Rumamos à Moita, onde temos de pagar uma avultada quantia para passarmos à frente na lista de espera de pessoas que querem enviar os seus apoios aos seus familiares, e assim garantirmos que as injeções chegam lá ainda esta semana.

Soubemos que dois familiares ucranianos – as linhas são sempre misturadas nas famílias destes países – foram destacados para lutar na frente de combate na Ucrânia: um no Leste, epicentro inicial do conflito, e outro no sul, junto à zona de Odessa. Um foi ferido, o outro está desaparecido.

Catalin Schitco numa vídeo chamada com a avó Tatiana, que está na Moldávia.

Tratamos esta informação com a maior calma possível. Sabemos que a informação é contraditória, que pode vir enviesada. É a forma que temos de nos proteger da notícia horrível que é sabermos que o sangue dos nossos foi derramado em ruas da Ucrânia. É sangue do nosso sangue, tem a nossa informação genética.

Tenho saído à noite todos os dias. Tenho bebido álcool todos os dias. Tenho fingido viver numa bolha de felicidade forçada que sei não ser a minha. Mas é sufocante viver dentro de quatro paredes exposto a informação constante e perturbadora, que mente e desmente. Sinto-me mal por espairecer, sinto-me mal por não estar ligado 24 horas a uma chamada telefónica com a minha avó.

É ridícula a sensação de me sentir imoral quando estou a fazer algo que não seguir a guerra.

Fiz um acordo com a avó Tatiana, na tentativa de apaziguar este coração radical de jovem que sente um turbilhão de coisas em simultâneo. Todos os dias às 19:30 ligo-lhe e falamos por vídeo chamada. Temos três simples regras: primeiro, contar como foi o nosso dia, segundo, dizer como nos sentimos e terceiro despedirmo-nos com um sorriso seguido de um “amo-te”, por não sabermos quando será a última vez que o faremos.

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Colocar em cima da mesa a hipótese de a nossa despedida para sempre ser feita por um ecrã de telemóvel, com uma conexão de internet completamente anti-climática para este momento, pela frieza da sua lentidão, é uma forma indigna de cumprimentar a morte.

Não sei quanto tempo mais durará este conflito. Menos quanto tempo mais conseguiremos nós deste lado resistir sãos e mentalmente cientes e racionais. Estamos a fazer esforços para tirar todos os familiares que queiram vir para solo da União Europeia, aqui para o pé de nós, em Lisboa.

Todo este cocktail brutal de sentimentos ao mesmo tempo é agressivo.

Existem duas variantes que se opõem à nossa necessidade humana básica de tranquilizar os nossos corações: uma, temos familiares teimosos. Malditos nacionalistas que não querem abandonar o seu pedaço de terra, que querem defendê-lo até à última bala. Odeio-os e amo-vos e admiro-os por isso.

O segundo fator: as longas filas de espera, quer nos consulados portugueses em Bucareste, Roménia, ou em Kiev, na Ucrânia. Como nós, existem milhares de bielorussos, ucranianos, romenos, moldavos que têm os seus presos naquele barril de pólvora. Somos privilegiados, por não termos a cara encostada a um tanque de guerra, mas esse privilégio é limitado, porque os nossos continuam na iminência de levar com uma bomba, nas suas casas, terras e corpos.

Esta é a brutal descrição de uma realidade. Que não se confunda: ela é uma barbárie. Esta é a brutal descrição de uma comunidade portuguesa, em Lisboa, que teima em sobreviver mentalmente na imprevisibilidade do anormal decorrer das coisas.

Só estaremos a salvo, quando os nossos estiverem a salvo. Glória à Ucrânia, à Moldávia, e a todos os povos de leste.


Catalin Schitco tem 20 anos e vive em Portugal há 17. Nascido na Moldávia, aqui cresceu, aprendeu e viveu toda a vida. Divide a paixão pela política, escrita e desporto – está a terminar a licenciatura em Finanças, a escrever um livro de poemas originais e pratica natação. Diz que é um filho do mundo que teima em descobrir todos os dias, através de viagens, dúvidas e experiências. Vive na margem sul do Tejo.

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