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Amanhece mais um dia banal e rotineiro aqui em Lisboa. Preparo o meu habitual chá de frutos vermelhos, que, ainda a ferver, gosto de beber enquanto me ponho à varanda a sentir a geada da madrugada e o cheiro da natureza que faz do meu quintal um local pacificamente acolhedor.

Chamo-me Catalin Schitco, tenho 20 anos, e sou imigrante em Portugal há mais de 17. Nasci no país mais pobre da Europa, na Moldávia. Antigo território do bloco de leste, já extinto, saíram de lá os meus pais em busca de um novo lar. Algo com as mínimas condições de sobrevivência humanas, como um espaço entre quatro paredes a que pudessem chamar casa, um alimento por mais básico nutriticionalmente que fosse, a que pudessem chamar de refeição, ou um ambiente tranquilo que pudesse ser chamado de futuro.

Catalin com a avó moldava, numa visita à Moldávia.

Para trás, deixaram pais, tios, primos e irmãos. Deixa-se uma bagagem demasiado grande para caber em qualquer coração humano. Escolhe-se a proteção dos filhos e o seu futuro em detrimento da manutenção das mais básicas relações humanas entre um pai e um filho, ou entre uma irmã e um irmão. São 4.200 quilómetros os que nos separam. Quilómetros esses que nos tiram a possibilidade de agir em caso de emergência iminente, que bloqueiam a possibilidade do beijo, do toque, do afeto frente a frente.

É a distância que desenfreadamente nos torna mais frios, mais arrogantes e revoltados com o natural desenvolvimento das coisas. Com o tempo, aprendemos a ser humanos novamente, aprendendo a amar novamente, reaprendendo a sentir.

Após 17 anos de vivência em Portugal, confesso que nunca tinha visto os meus pais tão ansiosos como agora. Tentam disfarçar comigo, que já tenho 20 anos, mas fazem-no sobretudo com a minha irmã mais nova. Sabem que ainda não tem maturidade para encarar a dureza dos factos inerentes ao estilo de vida que vivemos.

O meu país, a Moldávia, é um pequeno território ainda mais pequeno que Portugal, onde residem cerca de 4 milhões de pessoas, dizem-nos pelo menos as estatísticas mais otimistas. Mas é um país muito fragilizado. Desde a queda do regime soviético que na Moldávia impera a dualidade entre as fações pró-russia e pró-europa, sendo o território dominado nos últimos 17 anos pelos primeiros, embora agora, pela primeira vez, um partido pró-europa tenha conquistado o poder. Dentro da própria Moldávia, existe um sub-território, ainda que não reconhecido por nenhum país, a Transnistria, apoiada indiretamente por tropas russas, que proclamam a sua vontade de anexarem o território.

Importa contar isto aos leitores para perceberem que esta dualidade pauta, na sua grande essência, a maioria dos países que antigamente constituíam o bloco soviético. A presença russa nunca foi completamente dissipada e nunca inteiramente combatida pelos europeus.
Começa-se assim a entender a angústia dos que partem da Moldávia, da Ucrânia, da Bielorrússia, entre outros, e deixam os seus para trás à mercê de uma qualquer instabilidade que todos sabem estar iminente.

Na Ucrânia, atual país em disputa com a Rússia, as crianças nas escolas estão a ser ensinadas a identificar explosivos, manusear armas e fazer evacuações de emergência. Por outro lado, e em paralelo, funcionários públicos recebem formação militar, enquanto homens saudáveis estão expressamente proibidos de abandonar o país. Parecem-nos duras estas medidas, mas num país com altos níveis de emigração, são necessárias medidas extremas para garantir a defesa nacional.

Ao mesmo tempo, o governo de Putin aproveita para enviar tropas para a Transnistria e para aumentar a sua influência por lá também. O risco de guerra é tão iminente na Ucrânia, como na Moldávia. E foi precisamente na Moldávia que se elevou esta semana o nível de alerta nacional para o máximo, algo que não acontecia desde a independência, em 1991.

A minha avó, única sobrevivente naquele país dos meus quatro avós, vive isolada numa das aldeias mais pobres no interior rural moldavo, a apenas uma hora de carro da fronteira da Ucrânia. Quando lhe perguntamos como se sente com o que tem acontecido, diz-se tranquila numa chamada pelo Skype, e ironicamente responde, na juventude dos seus setenta anos, a dura frase: “Assim morro num acontecimento historicamente relevante e serei lembrada, prefiro isso a uma morte esquecida e solitária” e acaba a sorrir.

A minha mãe, e filha dela, devolve-lhe o sorriso mais forçado que consegue, e, quando a chamada se fecha, fecha-se também o sorriso. Na verdade foi horrorizada que ouviu a mãe dizer que não se importa de morrer hoje, ou amanhã, porque está sozinha. É um peso que custa suportar, difícil de engolir, mas que se engole em seco e desce até à mais profunda artéria do coração que atinge com brutalidade.

Juntei algum do dinheiro que fiz no meu último part-time, e, com os meus pais, estaremos prontos para embarcar a minha avó no primeiro voo que conseguirmos caso a situação entre em descalabro. Porque por mais que o coração de imigrante sofra, os nossos terão de morrer sempre a nosso lado.


* Catalin Schitco tem 20 anos e vive em Portugal há 17. Nascido na Moldávia, aqui cresceu, aprendeu e viveu toda a vida. Divide a paixão pela política, escrita e desporto – está a terminar a licenciatura em Finanças, a escrever um livro de poemas originais e pratica natação. Diz que é um filho do mundo que teima em descobrir todos os dias, através de viagens, dúvidas e experiências. Vive na margem sul do Tejo.

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