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Meu nome é Ahmad Samim Seerat, tenho 30 anos e sou um das centenas de refugiados afegãos que desembarcaram em Portugal nos últimos meses, após a tomada de poder pelos Taliban, em agosto do ano passado.

Este é primeiro capítulo de um diário em que partilharei a minha experiência como refugiado com os leitores da Mensagem, desde a partida de Cabul até ao desembarque em Portugal, da aflição ao alívio, mas também das expetativas sobre o que virá a partir de agora.

É importante ressaltar que no coração de quem migra pulsa sempre a esperança de dias melhores, mas o que a maioria das pessoas não faz ideia é dos percalços que espreitam a jornada de um refugiado, desde a decisão de partir até ao desembarque no destino final.

A verdade é que nunca tinha pensado em deixar o meu país, até ao retorno dos Taliban. Para mim, 9 de novembro ficará marcado como o início de uma viagem provavelmente sem volta, na companhia da minha mulher, Roya Jan Sarwari, e da nossa filha, Sama Seerat.

Como disse, emigrar nunca esteve em causa. Fomos forçados pela circunstâncias a buscar um novo lar, um novo país onde pudéssemos viver em segurança, em paz. As razões que nos levaram a partir do Afeganistão e os motivos que nos trouxeram a Portugal serão partilhados nos futuros capítulos deste diário.

Nome de rei

Para já, não é difícil imaginar as dificuldades enfrentadas para deixar Cabul, cruzar a fronteira com o Paquistão já controlada pelos talibãs, numa longa jornada terrestre e aérea, um desafio acrescido pelos cuidados com a minha filha de seis anos e com a minha mulher, grávida de sete meses.

Leia aqui a história da família Seerat:

Atualmente, vivemos num alojamento provisório em Lisboa. A despeito das dificuldades e expetativas inerentes à rotina de um refugiado, estamos radiantes à espera do nosso segundo filho. Para nós, a chegada dele será um momento mágico e que vai cicatrizar as feridas deste passado recente.

Seu nome será Ahmad Zaeim Seerat. Em árabe, Zaeim significa “líder”, “rei”. Um rei que viveu no Afeganistão durante 30 semanas, no útero da mãe, e que virá ao mundo num sítio diferente do dos seus pais, que por mais de 30 anos viveram em Cabul, capital de um país com línguas e costumes diferentes de Portugal.

Zaiem nascerá em solo português, filho de refugiados, é verdade, mas aposto que saberá lidar com a nova cultura, a nova língua e os novos costumes melhor do que nós. E já por não ter de enfrentar os desafios que seus pais enfrentaram em sua terra natal, terá uma infância cheia de amor, alegria e, principalmente, de paz.

Paz que desejo para a infância do meu filho e da minha filha, uma infância que desde já é e sempre será diferente da minha, que, do início ao fim, apenas conheceu a guerra.

Chegar a casa vivo

A vida como refugiado tem suas particularidades. A mais óbvia delas é a distância da família e dos amigos. A minha família atualmente está dividida entre o Afeganistão e os Estados Unidos. E agora, também, Portugal.

Estou particularmente feliz com a perspectiva de passar os anos que tenho pela frente aqui, com a ajuda dos meus novos amigos e a cooperação do governo português.

Até porque acredito que cada um dos acontecimentos que passamos na vida tem uma razão de ser. Foi assim quando conheci fortuitamente um português em Cabul. Uma amizade improvável e que se tornou decisiva nos rumos do meu futuro e de que voltarei a falar nos próximos capítulos deste diário.

Para já, digo apenas que vivia com a minha família em Cabul, enfrentando os desafios do quotidiano, unidos e gratos por podermos voltar para casa todos os dias vivos, enquanto o cenário económico e social se deteriorava com o passar do tempo, com efeitos no nosso lado emocional

Apesar disso, continuámos a resistir às intempéries, mesmo que fosse cada vez mais difícil manter o sorriso estampado no rosto.

Uma angústia crescente, alimentada pelas más notícias que ouvíamos em cada esquina e a constatação cada vez mais evidente de que o Afeganistão não conseguia avançar nas conquistas sociais e económicas, distanciando-se até mesmo dos países vizinhos.

Restava-nos não baixar a cabeça e dedicar cada minuto do dia à missão de garantir o mínimo conforto para a família. E, principalmente, em permanecer vivos.

Porém, o agravar-se da situação económica, a dificuldade cada vez maior em manter e encontrar trabalho obrigaram uma nova geração de afegãos, impotente diante do desanimador cenário, a deixar o país.

Um nova era das sombras

Apesar do sacrifício de milhões de afegãos em soerguer o país e dos milhões investidos nas duas últimas décadas, já não era possível passar um único dia sem testemunhar a morte de civis em incidentes de segurança.

E o que já era difícil, tornou-se impossível: lidar com a tomada de poder dos Taliban. Foi a pedra que encerrou definitivamente o sonho de um Afeganistão realmente livre.

Não só pela previsão de uma derrocada irreversível da situação económica no país, mas principalmente pela perseguição certa àqueles que de alguma forma exerceram um papel na defesa da democracia e dos direitos das mulheres, com um alto perigo de pagarem por isso com a própria vida.

Quando os Taliban novamente chegaram ao poder, eu trabalhava numa empresa de comunicação, na qual já havia ocupado diferentes cargos. A minha esposa estava empregada na área financeira de um banco e a nossa filha frequentava o jardim da infância.

Conquistas em risco, assim como estava em risco o futuro de minha esposa e da minha filha de seis anos. Não houve alternativas, a não ser escapar do Afeganistão e dos Taliban.

Hoje, a salvo noutro país e a poder sonhar com um futuro melhor para mim e para os meus filhos em Portugal, ainda assim me preocupa o destino de uma nova geração obrigada a viver sob as regras opressoras de afegãos que não hesitam em matar outros afegãos.

Entre eles dezenas de colegas e amigos que permaneceram no país. Pessoas que também lutaram pela democracia nestes 20 anos, uma atividade agora considerada subversiva e que os obriga a seguirem os nossos passos na única saída possível: fugir.

Fugir de um Afeganistão imerso novamente em nova era das sombras.


* Samim Seerat é refugiado afegão em Lisboa, onde chegou em novembro de 2021 com a mulher e a filha. Foi pai, novamente, no dia 7 de janeiro. Em Cabul trabalhava como executivo de media no grupo MOBY detentor da Tolo News.  É também fundador de uma start up chamada Paiwast Health Services. Escreve na Mensagem sobre a sua experiência em Portugal todos os meses.


A journey from Afghanistan to Portugal and a new baby borning

My Name is Ahmad Samim Seerat. I am an afghan refugee whose trip to Portugal has had many ups and downs. Everyone thinks and sees goodness of immigration, but most of people are unaware of what happens to an immigrant until he/she reaches their final destination.

This is the first part of my diary in which I will tell you – a first person account – of what happen to me and my family, and what is happening in Portugal since we arrived.

On the 9th of November 2021 me and my family – my wife Roya Jan Sarwari, and my daughter Sama Seerat – we embarked on a journey to a new country, which we knew was thousands of miles away from our homeland.

It was not a decision, to migrate. Not at all, but everything changed after the Taliban took over Afghanistan and I decided to come to a new country where we could spend life with peace. The reason why we decided to leave our homeland and why we decided to continue our live in Portugal is an amazing story and we will want to share it throughout these diaries.

During the journey we faced many hardships – most of them because I came with my pregnant wife (of seven months), and a young girl, our first daughter. The start of the journey and decision to be a refugee was hard for a woman who already had a five-year-old child and was pregnant with another one who was going to be born soon.
But over time we learned how to deal with those problems.

The name of the king

Now we are in Loures, Lisbon, and we are living in a refugee center. And beside all difficulties and challenges we are delighted to have our second child soon, and we believe all sorrow and difficulties that we faced will be healed by his coming. It will be a wonderful moment for our family, and I hope that his childhood will be full of love, calm and happiness.

We want to name him Ahmad Zaeim Seerat. Zaeim is an Arabic word which means the leader and king. He is expected to enter this world in a different place, which is far away from our imagination. But his birth and the journey he has been through have its own story, an amazing narration.

Zaiem will be born on Jan, 16, 2022 in Portugal in an Afghan family, refugees in Portugal who have lived in the capital of Afghanistan (Kabul) for more than 30 years with different cultures, languages and customs – they have suffered a lot back in Kabul and have gone through many hardships.

But my son, Zaiem, he will be born in a country with a different, but amazing culture, while his parents are still living in a refugee camp, awaiting for upcoming decisions on their fate.

New language, culture, environment, and specially immigration itself, are the issues that will be hard for him, but I bet more for us, his family. And also they are not more challenging than the problems we faced during the last days of our stay in our own country.

Actually is amazing that he spent such hard days in Afghanistan inside his mother’s womb – for 30 weeks – and then being born in a new country, and taking Portuguese nationality.

We brought to Portugal with us the dreams, the wishes and the hopes that we could not achieved over the last three decades. We ended up in Portugal with the hope to live in peace and fulfill what we fallen short to achieve in our own country.

My childhood started in war and ended in war. But for my five-year-old daughter, Sama, I am hoping to raise her in a new environment. And so for my newborn son.

Getting home alive

Life as a refugee has its own hardships and issues. One is being far from family and friends – my family is divided between Afghanistan and USA. But I am quite happy to spend the remaining years of my life in a good way in Portugal, with the help of my friends and the cooperation of the government here.

I believe that each incident in life happens for a reason. My meeting with a Portuguese friend came up for a reason. I met him in Kabul. I will shed light on the details in the next parts of this diary.

For now I can say that my family and I we lived in Kabul and were spending every challenging moments of life together. We used to create hope for ourselves, to deal with the challenging situation on the ground, and we were grateful for each and every day that we returned home alive.

However, economy, security and mental challenges were increasing each year. We tried to overcome them with the help of each other. The smiles were disappointing in some cases, and we could not create the moment in which we could live with happiness.

We were fed up with hearing various disappointing news from each and every corner of Afghanistan. We were in shock when we compared the situation in Afghanistan with the one in other countries, even our neighbors.

Everyone was busy in winning basic needs for their families and continuing to stay alive. But economic challenges and finding jobs were growing more and more difficult. Many chose to leave the country as they could not cope with these challenges anymore.

Afghanistan went deeper into another dark era, despite thousands of sacrifices and billions of investment in the last two decades. You would not witness a day in which at least 10 civilians were killed in security incidents.

Following Taliban takeover, hopes have evaded Afghanistan. Economy is dwindling, and those who played a role in strengthening democracy, defending women’s rights, girls’ education and development in the country are in the high risk of being killed. That is our case. I was an employee and worked in a Media Company in different positions. My wife was a Finance Officer in a Commercial Bank and our daughter went to kindergarten.

In the last 30 years, thousands of lives were taken, billions of dollars were invested, many lives were sacrificed, but Afghanistan failed to achieve a real freedom.

Although we are out of the country and we feel safe and see a brighter future for our children here in Portugal, we are still concerned about the new generation of Afghans who are ruled by the oppressors and by those who killed Afghans. Even my colleagues and friends, in their subversive activities over the last two decades. The only thing that we can rely on is an evading hope, the hope for a miracle. Otherwise, Afghanistan has been plunged into a dark era.

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4 Comentários

  1. Parabéns à Mensagem, colunas de opinião deviam servir para isto: dar voz a quem é invisível, humanizando os desumanizados. Sem filtros ou condescendência.

    Espero que continuem atentos e aprofundem este caminho. A área metropolitana de Lisboa é feita de Jorge’s, Samim’s, e tantos outros/as que merecem uma oportunidade para deixar de ser estatísticas.

  2. Bom dia
    I am an Afgha refugee in Lisbon if you wish to make an interview of our case, life and story we are able to talk to you.

  3. Parabéns e muitas felicidades!
    You are Welcome

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