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Eu tenho amigos. Por vezes, juntam-se em festas. Por menos vezes, em festas de Natal. E querem que eu vá, prova de que a amizade é essa coisa misteriosa de que falam.

Uma delas, promovida por um louco racional, persona de si mesmo, tinha este mote: festa ao calhas em minha casa; convida alguém aleatoriamente através das redes sociais; morada tal às tantas horas.

Como não gosto de festas, exagero no quanto gosto delas. Quando decido ir, invisto como um convertido. Era Natal, era para convidar alguém aleatório – e decidi que não havia ninguém mais ao calhas, e mais desconhecido sob a barba e o fato, do que o próprio Pai Natal.

Telefonei para uma agência. Quer com ou sem ajudantes? Sem. Quer com ou sem adereços como trenó? Sem. Quer com ou sem Mãe Natal? Sem… Quer com barba postiça ou verdadeira? Evidentemente: quero verdadeira. A um mês do grande dia, está cheio de sorte, ainda temos um profissional com ela verdadeira, fica agendado para a morada tal, às tantas horas, por este número de euros. Mas esse número de euros é demasiado grande, disse eu. Repare, é o preço de mercado por qualquer Pai Natal com barba verdadeira, por menos, só aqueles de rua sem o profissionalismo de topo pelo qual somos conhecidos…

A fúria do Natal, a fúria da festa em que levaria alguém ao calhas, e esse alguém de barba verdadeira, subira-me às regiões inconscientes de mim – mas, por aquele número de euros, mais valia convidar alguém aleatoriamente pelas redes, como combinado.

Porém, não me deixei ficar. Telefonei a todas as agências, cego de uma cegueira minha quando vejo algo que me entusiasma, e continuei a busca por um Pai Natal em conta. Está a brincar, diziam-me, isto agora é a época, não arranja por menos do que este enorme número de euros. A cada telefonema, o número engrandecia.

Desesperado, decidi caçar na rua. No dia antes da festa ao calhas, percorri Lisboa de mota em busca do trono onde o Pai Natal costuma fazer as crianças mais lúcidas chorar. E em busca da comitiva que o acompanha, duendes de verde, árvores plásticas, neve de algodão, trenós, coisas várias, o inferno e outros horrores.

Encontrei-o por fim no Jardim da Parada. Avancei na multidão, afastei uma e outra criança como se remasse, silenciei os pais e abri caminho até ao trono de onde o Pai Natal acabava de se levantar para fumar um cigarro. Psst, dê-me uma palavrinha atrás do coreto, longe desta criançada.

Apesar de a barriga ser claramente uma almofada presa a fita-cola e a barba imberbe de tão postiça, perguntei-lhe à socapa: «Está disponível para ir comigo a uma festa amanhã?»

«Ouve lá», respondeu-me depois de uma baforada forte e frustrada, qual rasto quente na tarde fria. «Eu sou gerido pela Constança. A Constança manda, eu faço o que ela diz. Mas ali o Jonas duende não é controlado por ela, pode ir.»

Eu não queria levar um duende, que é uma pessoa que optou insensatamente por se vestir de duende em vez de Pai Natal; eu queria apenas que o Pai Natal dissesse sim, vou contigo a uma festa de adultos, apesar de haver milhares de crianças que precisam de mim.

Telefonei. «É que nem pensar», berrou ela com voz de dinheiro queque. «E digo mais, para que você compreenda. Nos meus Pais Natal ninguém toca. Chego a reservá-los com dois anos de antecedência, percebe?» A comissão de agenciamento da Constança-chula devia ser um número de euros enorme, grande como a época natalícia, bom de mais para que ela não reagisse à cão de fila.

Entretanto já era o dia da festa. Fui de mota rumo a um centro comercial. Aí, cruzei os corredores, contornei as decorações, as árvores, as pessoas que se atiravam às montras com desconto ao som de Last Christmas, I gave you my liver, e encontrei o trono. Vazio, ninguém esperando o Pai Natal.

Desanimado, desistido, dirigia-me à saída, arriscando ponderar uma investida a outro centro comercial, quando, ao virar duma esquina, embati num homem mascarado a preceito que me disse em sotaque romeno: «Oh oh oh, cautela!» Sim, era quem eu procurava.

Pedi-lhe o que pedira aos outros Pais Natal: implorei, falei-lhe da urgência, disse-lhe que íamos de surpresa a uma festa. «Mas a Constança…», respondeu-me. E eu: «Não diz à Constança, eu não digo à Constança, ninguém diz à Constança. Morada tal, às tantas horas.»

A festa decorria como decorrem as festas, aquele constrangimento em que as pessoas se agarram com fios imaginários de palavras, uns e outros tentando pescar-se, cativar-se, todos a mexerem-se desajeitadamente como se no chão estivessem desenhados os limites das normas sociais; os risos soltos, as piadas sem punch-line; e o meu amigo, promotor do conceito «traz alguém aleatório», a identificar quem eram os convidados ao calhas – quando, às tantas horas, toca a campainha.

E estava entre nós o Pai Natal. Baixo e gordo, às escondidas da Constança-chula, mais barato do que os muitíssimos euros que as agências pediam. As pessoas surpreendidas, eu aliviado por os meus esforços terem resultado. E o Pai Natal, mascarado em pleno, apresentando-se às pessoas uma a uma, dizendo que conhecia o bom e o mau comportamento, e que havia presentes para todos. Mesmo para os malcomportados. Naturalmente, caía o vago desconforto misturado com entusiasmo dos adultos sentindo-se crianças.

Formou-se uma roda em torno do Pai Natal. Era como se estivéssemos sentados à lareira a ouvir histórias. Ele irradiava. Ele contava-nos a sua vida.

Nascera na Roménia. E aqui uma pausa, um silêncio. Dotado de uma curiosidade infinita, dessas em que o intelecto preenche o mundo visível e invisível, formara-se em literatura, em filosofia, tirara também uma quantidade de mestrados. Compusera-se com dois doutoramentos, um em literatura, outro em filosofia. Nós cépticos, de olhos muito abertos a ouvir a fábula.

Tinha o olhar bondoso de quem é desajeitado com tudo menos com as ideias, como se rodar uma maçaneta fosse mais complexo do que escrever um ensaio, e os gestos ingénuos das pessoas boas – além de repetir, ao fim de cada episódio da vida (onde houve tanta saciedade intelectual como fome), uma frase obscena em romeno que soava a uma frase diplomática em português. Agora, planeava emigrar para o Canadá, onde havia boas universidades que talvez o acolhessem, talvez o renegassem, talvez nem soubessem que ele existia.

Enquanto o nosso Pai Natal falava, deu-se um tocar de ombros incrédulo, um não acreditar geral feito completo quando ele nos falou de física quântica e da indústria aeroespacial depois de ter discorrido correctamente sobre Proust. Em mim nasciam os remorsos e a pena infantil que sempre me sobe ao peito quando ouço alguém falar mal português.

«E tem algum livro publicado?», perguntei-lhe. Se tinha: tirou de imediato da sacola um exemplar de capa dura de 562 páginas, híbrido de romance e ensaio sobre um país utópico liderado por intelectuais, talvez na tradição platónica.

Esteve uma hora. Acompanhei-o à porta depois de cada um de nós ter partilhado com ele algo que nunca partilharia com ninguém, excepto com um homem de grande intelecto que se veste de Pai Natal. Seguiu de metro.

De todas as pessoas ao calhas, percebemos que nos calhara a mais improvável: um homem ingénuo e vulnerável, talvez ferido por o mundo não ser dos ingénuos e vulneráveis. Nele, tudo era verdadeiro – até a barba.


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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2 Comentários

  1. Fantástico o conto do Pai Natal convidado aleatório. Genial, Afonso. E tocante. Muito tocante. Verdade, fantasia? Não interessa, é real. Obrigada, parabéns!

  2. Quando a realidade se converte em real, que podemos nós fazer ? simplesmente tornar os sonhos reais. Obrigado, Afonso. Obrigado Mensagem.

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