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Eu já gostava do Dino d’Santiago quando só conhecia a música dele. Apanhou-me com o anúncio de um Mundu Nôbu, de uma Nova Lisboa, e essa esperança em forma de música fez parte de muitas conversas em que participei, muitas ideias que discuti, algumas das quais vivem hoje nesta nossa Mensagem de Lisboa.

Este jornal que esteve, aliás, para se chamar Nova Lisboa – cheguei a comprar o nome de domínio. Nova Lisboa, essa que o Dino cantou, porque queríamos, e queremos, ouvir a nossa cidade a chamar por nós.

Não seria uma homenagem descabida. Dino é músico, mas é também letrista e nessas letras conta histórias como as que nós contamos aqui, de pessoas que vivem num país que não sai nos jornais.

Fá-lo em português e em crioulo cabo-verdiano – e as suas músicas foram até agora um dos poucos sítios onde esse jornalismo de histórias foi feito nessa língua doce.

“Badiu” é o seu novo álbum e eu queria escrever sobre ele, não como crítico de música – que não sou – mas enquanto seu beneficiário. Sim, beneficiário, não só da boa música, mas sobretudo da boa mensagem, aquela que guia, que sugere, não como um sermão, mas como um sereno conselheiro, um irmão mais velho.

O álbum arranca com empatia, um tom que marca não só o álbum, mas uma forma de estar, como se percebe na entrevista que deu à Mensagem.

Ouvimos: “Eu choro quando vejo a dimensão do teu sacrifício”. Chama-se Badia, a música, e parece interpelar, homenageando, as mulheres.

Não há como não rever nas palavras de Dino os padrões de conversas sexistas a que já assistimos, nas quais participámos, que alimentámos. “Mulheres só valem nuas, dizem-nos as nossas mentes turvas”. A sobrevalorização do físico feminino como forma de diminuição do espírito. “Querias uma utopia onde podias ser poesia/ mas nós estamos preocupados com as tuas estrias e celulite”.

Preconceitos, estereótipos que se enraizaram no discurso público, na consciência individual, ao ponto de o sujeito passar a objeto, numa amputação de autonomia e de identidade.

O desafio dessa identidade é o de “sermos nós sem que nenhuma parte de nós se anule” (como se ouve em “Nha Kodê”), mas também o de sermos nós sem precisarmos de anular partes dos outros.



Em “Esquinas” fala-nos de pátria, de mátria, de onde é casa, do que é família. “Aqui toda a gente sente / Terra não é só lugar onde se nasceu /É também o chão que trazemos na mente / Aqui toda gente é parente / Mesmo quando se nasceu doutro ventre /Chamamos “mãe” ao mesmo continente”.

Esse continente pode ser o dos filhos de África – “Acena o corpo negro com quem cruzo / Nossos corpos também são pátria” -, mas que são também filhos da Europa – “Nas curvas do bairro, nem todo o tuga é luso”.


Fala-nos – tive ajuda de um amigo na tradução do crioulo – das lutas de uma geração portuguesa cujo pais vieram de “um voo longo, longo, longo, longo” (trecho da extraordinária “Voei de mim”) à procura de melhores condições, que nem sempre encontraram. De gente empurrada para vidas duras de trabalho invisível, que começa de noite e acaba de noite.

“Esquinas” é jornalismo, é história, é denúncia, e eu ouço-a e passo a ver melhor essas vidas com que me cruzo, mas que nunca vivi.

Badiu leva-nos para um bairro multicultural, multicolor, mais forte e solidário, interligado, familiar, esse bairro que Dino abraça e que vem cantando nos últimos anos.

Escrevi no meu livro “Carta ao Cavaleiro de Nada”: “A pátria é uma partilha, não é uma terra”. Leio essa mensagem também em Badio. Acredito nela, e por isso acredito também no Slow J quando canta “por onde eu passar é minha esquina”.

A minha pátria é onde eu estou. É quem vive comigo, quem se cruza comigo, quem me diz bom dia, a quem eu sorrio. É quem partilha as minhas dificuldades, quem beneficia com as minhas dificuldades, quem sofre com as dificuldades que eu crio.

“Eu sou eu e a minha circunstância”, escreveu Ortega y Gasset, “e se não a salvo a ela, não me salvo a mim”. Dino canta-nos a sua circunstância, que é nossa também – mesmo quando a desconhecemos – e aponta-nos um caminho, uma receita que tem na mistura dos vários ingredientes o passo mais importante: primeiro, vê-los a todos, saber-lhes a origem, conhecer-lhes a história. Depois, juntá-los ao mesmo tempo, como iguais, sabendo-os diferentes. Como se ouve em “Utopia”: “igualmente diferentes / sem qualquer distinção”.

É esse o segredo, sem qualquer contradição.

Dino fala-nos de tudo isto sem abdicar da leveza, da doçura. Em “Utopia”, explica que “a leveza ensina que a beleza é mente e corpo são. Acrescenta: “Sem homofobia, sem misoginia”. Prometo-nos que o “Limite é o céu / voar sem retorno”. E faz-nos um pedido: “Abraça este sonho”. Noutra pessoa, soaria pueril a mensagem. Com Dino, não. É um sonho em que acredita não porque viveu pouco, mas porque viveu muito.

Estive com ele uma vez e senti que o conhecia de conversas que nunca tivemos. É o jeito das pessoas especiais, que sabem cobrir a distância que separa dois estranhos com um sorriso e um peito aberto.

Dino tem um brilho nos olhos, um sorriso generoso, que oferece a qualquer um. Os seus gestos fingem não conhecer a brusquidão, são suaves como a mensagem que ele passa. Digo “fingem” sem maldade: suponho que a vida lhe tenha ensinado sobejamente o que é a brusquidão, nas curvas do bairro pobre de pescadores em Quarteira onde cresceu, na dor dos amigos que desapareceram antes de tempo, apanhados em certas esquinas.

Em “Corvo” ouvimos que “Em todas as culturas / Quem ainda sofre bué / São as pessoas mais escuras”.

Mas ele tem a gentileza de não fazer de cada gesto seu uma lembrança dessas memórias: é uma opção consciente pela paz e pela empatia. Podia legitimamente fazer o contrário, mas esta é uma pessoa que canta como vive: com luz no coração.

Contou nos Prémios Play que lhe perguntavam como fazia para estar sempre feliz. “Essa é a grande ilusão”, disse. A de que está sempre feliz; a de que é sequer possível estar sempre feliz. Somos todos paz e guerra, doçura e raiva, felicidade e angústia. Mas aquilo que pomos cá para fora, disso tudo que trazemos dentro, é escolha nossa.

E o Dino escolheu, com Badiu, mais uma vez, o amor e a tolerância. Se somos as nossas escolhas, Dino está apresentado, e o álbum também.

Num mundo cínico, uma utopia é uma ingenuidade olhada de esguelha. Em Badio, utopia é aquilo que está para lá da curva desta estrada que é a vida. Dobremos essa esquina de mãos dadas e encontraremos aquilo que formos capazes de construir em conjunto.


João Marecos

Chegou a Lisboa no preciso segundo em que chegou ao mundo. Aqui cresceu, fez amigos, estudou Direito, tornou-se advogado, antes de a curiosidade o levar para Nova Iorque, onde repetiu tudo isso. Escreveu um livro, que apresentou no Chiado. Fundou o 100 Oportunidades à beira do Tejo. É o amor que o mantém fora de Lisboa, será o amor a fazê-lo voltar.

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