Na esplanada ao pé do Arco do Bandeira, no Rossio, pastéis de bacalhau, bifanas e filetes de pescada desfilam nas bandejas que cortam as mesas, por entre conversas de amigos e o olhar apaixonado de um casal. O número 6 da Praça D. Pedro IV resume-se a uma espartana porta numa fachada em pedra, sem janelas, montras nem a pompa dos estabelecimentos de restauração da vizinha Rua Augusta ou da mítica praça do Rossio que se estende à sua frente, em direção às imponentes colunas do Teatro Dona Maria II. Apesar do caráter estóico – ou por causa dele – esta tasca resistiu ao passar dos anos, das décadas e de quase dois séculos.

Desde 1840, a Tendinha do Rossio cumpre a vocação de taberna – a mais antiga de Lisboa – a conceder a quem circula pela Baixa a afamada tradição de petiscos portugueses, num ambiente que guarda a lembrança de um tempo que já não existe.

Porém, não é só isso. Como todas as tabernas, oferece ainda um balcão aos cotovelos mais apressados e solitários, ou esplanada, a quem tem a sorte de gozar de tempo e de companhia.

O segredo da longevidade está na simplicidade do serviço, acredita Alfredo Gramaça, o funcionário mais antigo da casa, um lisboeta da Madragoa de sorriso e cintura largos. Aos 52 anos, está há 23 no balcão da Tendinha. É de lá que comanda as constantes descolagens de salgados , sandes e bifanas, e o embarque e desembarque de copos de imperiais e taças de vinho, num tráfego aéreo de fazer inveja à Portela.

Alfredo Gramaça, o funcionário mais antigo da casa, há mais de duas décadas por detrás do balcão da histórica taberna. Foto: Rita Ansone

“As esplanadas com toalhas metem mais compromisso. Os nossos clientes não são daqueles que se limpa o copo antes de servir o vinho”, resume Alfredo, enquanto pressiona a alavanca e enche as canecas de incautos espanhóis. A referência à ausência de toalhas não é por acaso: aqui as mesas de ferro são cobertas por um autocolante com as fotografias da ementa, o que facilita a identificação da clientela, composta na sua maioria por turistas.

Para não deixar dúvidas de se tratar de uma tradicional taberna e não de um restaurante, o atual patrão restituiu a secular ementa esculpida na fachada de mármore, elencando as opções de petisco no lado esquerdo (pastéis de bacalhau, sandes, presunto, filetes de pescada, bifanas e panado) e, no direito, as de bebida (vinho, vinho verde, cerveja, água, ginjinha e Eduardino).

“As esplanadas com toalhas metem mais compromisso. Os nossos clientes não são daqueles que se limpa o copo antes de servir o vinho”

Alfredo Gramaço

“A Tendinha é muito famosa no Brasil”, garante Alfredo, apontando na direção do jornalista (cujo sotaque não engana). O experiente funcionário diz que perdeu a conta aos inúmeros clientes brasileiros que disseram tê-lo visto a dar entrevistas nos telejornais locais ou ainda aos que sacam do telemóvel para exibir a fotografia do estabelecimento enviada como indicação por um conterrâneo.

Muitos destes turistas, brasileiros ou não, chegam atraídos pela fama internacional da Tendinha, referenciada em vários guias como a taberna mais antiga de Lisboa, e também pela reputação da ementa com preços convidativos. Entre as fotografias fixadas nas mesas está a do Bacalhau Albardado, uma generosa porção de bacalhau frito servida entre fatias de pão carcaça. É o prato mais caro da casa, a 4 euros.

Os outros salgados, os croquetes, pastéis, sandes, bifanas e demais panados, rondam entre 1,5 euros e 3 euros. A imperial sai por 1,3 euros e a taça de vinho, a 1, o que faz uma refeição ligeira viável a um valor que, assim como a casa, parece congelado no tempo. Um alívio para as jovens italianas que contam as moedas antes de as entregarem a Alfredo e pedirem um “bacaláo” e um trio de imperiais.

Em dez clientes, sete são estrangeiros

Mas nem sempre foi assim. “Quando comecei a trabalhar aqui, em 1998, atendia um turista a cada um ou dois meses. Agora, em dez clientes, sete são estrangeiros”, contabiliza Alfredo, que antes de responder ao anúncio da Tendinha publicado nos jornais da cidade, andou por outros estabelecimentos lisboetas, como o Buzina, em Campo de Ourique, e o Califa, em Benfica.

Nestas mais de duas décadas na função, testemunhou a metamorfose da cidade e o que conta é parte da história do que aconteceu à Baixa, nos últimos anos. Alfredo recorda que, entre meados dos 1990 e início do século XXI, o balcão e as mesas eram ocupadas por bancários, advogados e empregados do comércio local. Entre os habitués, um antigo cônsul do Brasil que, após o expediente no consulado, descia do Chiado para picar o ponto na Tendinha e estreitar os laços dos países fraternos entre curtos goles de ginjinha.

Havia também os eternos aspirantes a escritores, encorajados pelo vinho verde a narrarem histórias que nunca deixariam as gavetas, e os alegres candidatos à ribalta, que antes das audições com Filipe La Féria ou no Dona Maria II, aqueciam as cordas vocais e o espírito com doses de Eduardino, o mítico licor cujo rótulo estampa a satírica efígie do palhaço inventor da bebida, cuja ressaca não tem graça nenhuma.

A fama boémia da taberna antecede os tempos de Alfredo ao comando do balcão. Nos anos 1930, o fado Velha Tendinha, composto a oito mãos por Alberto Barbosa, Xavier de Magalhães, José Galhardo e Vasco Santana, e eternizado na voz de Hermínia Silva, já alçava a loja de aspeto “rasca e banal” aos píncaros da “história da bebedeira” lisboeta, sob o singelo epíteto de “templo da pinguinha”.

Apesar de a letra garantir que “fidalgos e artistas” lá iam nas “horas mortas” para ouvir o fado e cantar, Alfredo conta que a casa nunca foi famosa em acolher fadistas e, nos últimos anos, as poucas tentativas de se reeditar as sessões de fado na Tendinha foram um fracasso.

A marca da resistência

“Lisboa mudou muito”, diz Alfredo, enquanto passa pela enésima vez o pano no balcão. “Nos últimos dez anos, a falta de trabalho e de habitação na Baixa, e o aumento do turismo, mudaram a cidade, os hábitos e as pessoas”, completa, esticando o braço para pressionar o interruptor fixo à parede e dar acesso à casa de banho a um cliente com ar aflito.

As alterações vividas por esta nova Lisboa, contudo, não afligem o experiente funcionário.

“Desde que abriu, a Tendinha nunca fechou as portas e penso que nunca irá fechar”, vaticina, enfileirando três croquetes num prato. A fé de Alfredo é reforçada pelo período difícil que o botequim superou recentemente, com os andaimes das obras para erguer um alojamento turístico no andar de cima do prédio a taparem o acesso ao local por quase dois anos, seguidos por quase outros dois de restrições impostas pela pandemia.

A esplanada costuma receber antigos e novos clientes, em busca dos famosos petiscos portugueses e de boa companhia. Foto: Rita Ansone

Tenaz como a taberna onde trabalha há mais de vinte anos, Alfredo espera passar as quase duas décadas que o separam da reforma lá mesmo, por trás do mítico balcão. “E se o patrão quiser, continuar mesmo depois de reformado”, confessa o empregado, que trabalha para a terceira geração de patrões da Tendinha. Os anteriores assumiram o trespasse diretamente dos herdeiros dos fundadores da casa, já desinteressados de manter o negócio familiar.

O tempo passa e já é hora de recolher as mesas da esplanada para dar por encerrado mais um dia de trabalho. As longas jornadas diárias em pé cobram a fatura e o avental é retirado com cuidado para não irritar ainda mais a queixosa coluna, antes de ser pendurado no minúsculo trocador, o cómodo cavado por baixo da estrutura do arco vizinho, erguido em fins do século XVIII, e que concedeu valiosos metros à modesta área interna da taberna.

A noite já abraça Lisboa quando Alfredo cerra a porta do centenário botequim. No trajeto cumprido a passos lentos e em silêncio em direção à vizinha estação de comboios, cruza-se com grupos de ruidosos e festivos turistas rumo ao Bairro Alto, ciente, entretanto, de que quando o sol voltar a raiar, é para a Tendinha do Rossio que todos eles irão.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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5 Comentários

  1. Muito bom esta descrição da Tendinha por onde passei tantas vezes nesta minha longa vida! Vou la entrar,,,num destes dias!!!!!

  2. Interessante! Muito bom, comi muitos Pasteis de bacalhau, e Filetes de Pescada, na velha Tendinha! Bifanas muito bom!

  3. A velha Tendinha, já a cantava Amélia! Onde eu várias vezes, comi as Sandes de Pescada, os Pasteis e Bacalhau, e as Bifanas, antes de ir apanhar o Comboio ao Rossio!

  4. A Tendinha era famosa pelas sandes de queijo Fresco, atraia centenas de clientes diários, eram servidas em duas versões, simples ou com uma fatia de presunto e eram feitas na hora, e o empregado perguntava sempre e’ com açúcar e canela?( sal e pimenta)vendiam tantas carcaças que os seus proprietários acabaram por adquirir a padaria que as fornecia. Bons tempos da Baixa, a pastelaria Suíça com a sua esplanada, O Pirata, a Ginginha, o Nicola e o Pic-nic, tempos em que se podiam beber um capilé soda ou uma groselha

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