A 11 de setembro de 1924, Francine Benoît publicava a sua primeira crítica musical no Diário de Lisboa, com o título “O que deve caracterizar uma interpretação musical”. Seria, nas suas palavras, a reprodução do sentimento que um génio conseguiu fixar por meio de sons. E essa reprodução seria o equivalente a uma “chama que emana da matéria de que somos formados em incessante combustão”. Na tradição dos autorretratos de artistas visionários lisboetas, como Almada Negreiros ou Vieira da Silva, talvez esta citação pudesse ser um autorretrato em palavras do seu contributo para a crítica musical, mas que na sua vida procurou incessantemente acender.

Tinha 11 anos quando chegou a Portugal com a família, vinda de Périgueux, França, onde nascera em 1894. Fez o Conservatório de Lisboa em piano e dali foi para Paris. Logo que regressou a Portugal veio dirigir a Sociedade de Canto Coral de Lisboa, a convite de Alexandre Rey Colaço (viria a dirigir vários coros) e começou a trabalhar como professora dadas as dificuldades financeiras após a morte do seu pai.

Porém, a face mais visível da sua carreira foi enquanto crítica musical em dezenas de órgãos de comunicação social desde a década de 1920 até aos anos de 1980, dos quais 40 no Diário de Lisboa.  E fê-lo de uma forma revolucionária.

Se, até então, a crítica musical, especialmente a clássica, se pautava por uma linguagem inacessível, Francine Benoît introduz a educação musical nas suas críticas, revela a investigadora Mariana Calado, que analisou os seus textos publicados no Diário de Lisboa entre 1924 e 1934.

Francine acreditava que a crítica poderia ter uma função educativa. Escrevia, por isso, para ser lida por todos, com uma linguagem acessível, leve e pouco especializada, o que lhe valeu várias críticas de colegas. Mas a pedagoga manteve-se firme, defendendo com entusiasmo, ao longo dos anos, o seu estilo.

“As características observadas em críticas de música de Francine Benoît permitem-nos enquadrá-las no princípio de que a crítica deverá ajudar o leitor a compreender as obras ouvidas e a apreciar ou descodificar o espectáculo de música. É uma posição que ela mesma considerava necessária e intrínseca ao papel da crítica musical”, escreve Mariana Calado.

Porém, nem tudo conseguiu defender com a mesma firmeza. A investigação de Helena Lopes Braga, que se centrou na vida privada de Francine Benoît e nas suas relações lésbicas com outras mulheres intelectuais, revela uma faceta de frustração, lamento e mágoa, visível nos diários e na correspondência com mulheres que a investigadora consultou.

Em primeiro lugar, escrever música era a sua paixão, mas não conseguiu apostar numa carreira de compositora, domínio de homens. Passagens dos seus diários mostram que a sua insegurança aumentava quando o seu amigo Fernando Lopes-Graça dava concertos no estrangeiro e ela ficava presa à “vidinha corrente de Lisboa”, como se lê na passagem de 20 de fevereiro de 1954, republicada pela investigadora. Numa carta a Irene Lisboa, lamenta o tratamento desigual que recebe inclusivamente do seu amigo.

Por outro lado, tinha uma vida financeiramente instável. Vivendo sozinha, rompendo com os estereótipos da mulher casada, doméstica e mãe, ansiava pelos pagamentos das escolas onde lecionava e dos artigos do Diário de Lisboa para poder sobreviver. Não é de admirar que tenha estado na linha da frente de várias associações feministas.

A investigação revela também que Francine se questionou com frequência sobre a sua identidade afetiva. No Estado Novo, a homossexualidade era estigmatizada; nas mulheres, era-o a dobrar e Francine, bem como algumas das suas amizades – Irene Lisboa, Virgínia Gersão ou Ilda Morais –, sabiam-no bem. A investigadora aponta, aliás, a orientação afetiva de Francine como um dos factores que terão contribuído  para a sua ausência em narrativas historiográficas.

Mas mesmo aqui também há frustração e mágoa. Em 1960, Francine Benoît apaixona-se pela escritora Madalena Gomes, com quem iria permanecer até à sua morte, em 1990, mas esta nunca quis assumir perante os outros a relação. Benoît aceita escondê-la, mas acaba por revelar o seu descontentamento. No seu diário, escreve que se encaminha para o “disfarce perante o mundo”.

Numa longa vida de quase um século (faleceu aos 95 anos), que lhe permitiu assistir a duas guerras mundiais, outras tantas coloniais, ao regime do Estado Novo, ao grito libertador do 25 de abril e ao impacto que tudo isto teve na música, o maior som acabou por ficar aprisionado dentro de si. O dos afetos.


*Dora Santos Silva é professora de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa-FCSH. É membro do Conselho Editorial da Mensagem.

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1 Comentário

  1. É sempre um privilégio ler as tuas publicações. Embora seja uma leitura fugaz fica sempre alguma coisa.
    Beijo

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