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Quando tirei a carta de condução, lembro-me de um sinal de trânsito – muito semelhante ao de «Proibido Estacionar» – que determinava não apenas a proibição de estacionar, mas também a de parar.

Quando franzi a testa, explicaram-me que «parar» era apenas para deixar alguém sair (um aluno à porta de uma escola, por exemplo) enquanto «estacionar» era parar com a intenção de… ficar parado (uma espécie de rapidinha ao pé de fazer amor por dentro da tarde).

Fiquei confusa: para mim, a palavra «estacionar» encontrava-se ligada à palavra «estação», um local onde os comboios paravam apenas para deixar entrar e sair passageiros; ou o nome de um período do ano que também não vinha para ficar (Primavera, Verão…); ou mesmo um local para fazer uma pausa na rotina (como estação balnear ou termal), após a qual se voltava à vida de sempre.

«Parar», por sua vez, soava-me a coisa mais estática e definitiva, mas o Código da Estrada tinha certamente os seus motivos para adoptar determinadas acepções que não se prendiam com a minha semiótica.

Adiante. O sinal de trânsito que proíbe o estacionamento é dos mais comuns e dos primeiros que aprendemos na escola de condução (na maioria das vezes, conhecemo-lo desde crianças). Quase podia afiançar que só o sinal de «Sentido Proibido» é mais popular, apesar de, na Lisboa de hoje, aparecer bem menos no nosso horizonte visual.

Com a vontade férrea de tirar os carros da cidade, fizeram-se ciclovias, construíram-se esplanadas que roubaram muitos lugares antes destinados a automóveis, puseram-se pilaretes, foram reduzidas as zonas gratuitas para residentes, aumentaram-se os preços, enfim, arranjaram-se mil e um estratagemas para evitar que um pobre carro entre e possa ficar por umas horas parado na capital.

Claro que há veículos a mais (sobretudo com a política empresarial de dar carro aos empregados) – e neste momento até parar (no sentido de travar por instantes para deixar sair o passageiro) equivale a suportar imediatamente umas buzinadelas do carro de trás.

Mas nem sempre foi assim e, durante a minha infância, as transversais da Avenida da República ainda tinham todas dois sentidos e uma placa central com umas belas árvores, entre as quais se arranjava quase sempre lugar para estacionar (e à sombra, o que era excelente).

Porém, num dia em que a minha mãe já tinha visto de longe o seu lugarzinho querido (o que ficava mesmo em frente da sua porta), ao pôr o nariz do Cortina em cima da placa percebeu que um cavalheiro fizera exactamente o mesmo do outro lado e que – oh, diabo – fora mais rápido do que ela.

Deixou-a com os faróis arregalados e as quatro rodas ainda no asfalto a fumegar… Ela ficou furiosa! Não só por ter perdido aquele lugar tão bom, mas porque, na sua óptica, quem tinha prioridade era ela, por ser uma senhora.

Rabujou imenso dentro do carro, gesticulando, como era seu hábito, a ver se o homem (que afinal não era um cavalheiro) se condoía ou admitia o erro e voltava atrás. Em vão. Ele desligou o motor, saiu do automóvel, fechou a porta à chave (nesse tempo não havia comandos) e ficou encostado à viatura, provocador, fumando o seu cigarrinho. Entretanto, alguém apitou à minha mãe, e ela teve mesmo de desimpedir a rua – além, claro, de ir procurar outro sítio para estacionar.

Deve ter sido fácil, dado que nesse tempo havia muito menos carros em Lisboa, mas nem isso serviu para lhe apaziguar a irritação: vindo a caminhar pelo passeio em direcção a casa e reparando que o homem continuava ali especado, acelerou a passada e preparou-se para lhe dar uma lição de boas maneiras.

Apercebendo-se de que a minha mãe vinha provavelmente tirar satisfações, o senhor decidiu porém adiantar-se, dizendo que ela escusava de ter feito aquele espalhafato todo dentro do carro porque ele até era «bastante educadíssimo».

Foi então que a minha mãe arranjou maneira de se vingar…

– Olhe – atalhou –, «bastante educadíssimo» é asneira. Uma pessoa ou é «bastante educada» ou «educadíssima». E fique sabendo que o senhor não é nem uma coisa nem outra.

Cuspido o fel, virou costas, já aliviada, ignorando que isso de «primeiro, as senhoras» tinha os dias contados e que um dia, no século seguinte, seria verdadeiramente impossível estacionar o carro na sua rua e na sua cidade.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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