São amigos. Une-os a paixão pelo associativismo, as coletividades de bairro e, sobretudo, o desporto popular. Gostam de futebol e rejeitam a lógica, seguida pelos grandes clubes, do “circuito comercial dos milhões”. Por isso, apoiam os clubes mais pequenos, assistem aos jogos das distritais.

Acompanharam o Belenenses, quando o clube desceu à distrital de Lisboa, e saltitam de campo em campo. Apoiam o Oriental de Lisboa, o Operário e vão até à margem sul, ver o Seixal.

Quiseram fundar um clube e fizeram-no. O objetivo era fazer renascer o associativismo e o apoio à comunidade a partir da vida dos clubes. O impacto pode acontecer através da força aglutinadora que exercem, creem. Para Vasco Alves, Ricardo G. e Pedro Pereira, a forma de agir “ultrapassa muito a coisa do desporto”, mas parte dali, do desporto, da coletividade.

Vasco conta como queriam trazer “a comunidade para a rua”, tirar partido das ruas “como espaço comum” e lutar “contra esta ideia da quase privatização geral de tudo, do lado do negócio”.

Pedro Pereira, Ricardo G. e Vasco Santos. Foto: Rita Ansone

A ideia crescia e, no meio de documentos históricos, descobriu-se que houve um clube em Marvila chamado Relâmpago Futebol Clube. Durou apenas dois anos, de 1932 a 1934.

Estava escolhido o nome. Não era um renascer do antigo clube, pouco sabiam sobre ele, mas “acabou por ser uma espécie de inspiração”. O objetivo, conta Vasco, estava traçado: “trabalhar na comunidade, trazer o desporto para a rua, fomentar o associativismo, trabalhar com associações que já existem, dinamizá-las, voltar a dar-lhes a vida que outrora tiveram”.

A Associação Desportiva Recreativa “O Relâmpago” começou a formar-se em meados de 2019, realizou o seu primeiro jogo, já com as camisolas do clube, em agosto de 2020, e em maio deste ano celebraram a oficialização, em Marvila, junto à antiga sede do Relâmpago dos anos 1930. Têm órgãos sociais, “mas a ideia é ser uma coisa horizontal”, com assembleias em que todas as pessoas podem participar e apresentar uma ideia.

“Pelo desporto popular” – é o mote. Se, antes, o clube juntava as pessoas do bairro, hoje não é exatamente assim. No Relâmpago não vêm todos do mesmo sítio, o que os une é “uma ideia em comum”, mas juntam-se todos pelas zonas de Santa Engrácia, Penha de França e Graça. É ali que vão ganhar raízes e é por ali que prometem encontrar sede a “muito curto prazo”. E querem que o desporto popular possa “servir de ferramenta comunitária para atingir outros fins”, explica Ricardo.

O Mirantense Futebol Clube, fundado em 1935, é um dos pontos de encontro habituais dos relampaguistas.

Do Relâmpago ao Mirantense: o reeditar de uma prova apagada há 67 anos

Com seis anos de vida, em 1941, o Mirantense, clube da antiga freguesia de São Vicente de Fora, realizava a primeira Subida da Rampa do Vale de Santo António. A dura prova de bicicleta, realizada pela última vez em 1954, obrigava os participantes a trepar centenas de metros da íngreme rua que liga Santa Apolónia, ao nível do rio, à Rua dos Sapadores, bem no topo de uma das colinas de Lisboa.

Lina Cortes é a presidente do clube há quatro anos. Pegou nos recortes de jornal que não deixam a memória da rampa morrer e mostrou-os aos mais novos, que hoje formam o Relâmpago. E os relampaguistas “espicaçaram” os mais velhos. Por que não reeditar a mítica prova? Também será assim que se ajuda a trazer a vida de volta às coletividades de sempre.

Assim aconteceu. Depois de uma vagarosa paragem de 67 anos, a mítica prova de resistência e contrarrelógio regressa à Rua do Vale de Santo António, com um percurso ligeiramente diferente. Se antes percorria 900 metros e começava na Rua Caminhos de Ferro, serão agora 600 os metros a percorrer pelos participantes, com inclinações que chegam a atingir os 22% e com uma secção intermédia que atinge os 15% de inclinação média.

A subida inicia-se na Rua do Mirante, para permitir que “nesse bocado os ciclistas ganhem algum balanço”. Depois, é “sempre a subir”, explica Vasco, trepando a totalidade da Rua do Vale de Santo António até ao cruzamento com a Rua dos Sapadores.

Perfil da rampa e cartaz da reedição da rampa. Fonte: Associação Desportiva Recreativa “O Relâmpago” e Mirantense Futebol Clube

O limite de participantes estava fixado nos 60. Em todas as edições da prova, o máximo teria rondado os 40. A reedição da prova levantou um interesse tal que todos os recordes de participação foram batidos. As inscrições terminaram no passado domingo e o limite previsto foi levantado.

No próximo domingo, 17 de outubro, serão 67 os ciclistas a subir a Rampa do Vale de Santo António, número igual ao intervalo de anos que a prova levava.

A partir daqui, a vontade do Relâmpago e do Mirantense é “manter a continuidade anual” da prova, diz Ricardo.

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A subida da rampa.

A voracidade imobiliária quase levava consigo um histórico da cidade

A voracidade imobiliária despejou o histórico Mirantense da sua sede de sempre, o número 15 da Rua do Vale de Santo António. Chegou-se a pensar que o clube, que formou campeões de ténis de mesa, tinha equipa de futebol e oferecia, aos fregueses, várias modalidades desportivas, podia não resistir.

A saída forçada do número 15, há dois anos, podia ter sido o fim, mas os conhecimentos de décadas, daquelas ruas e daquelas pessoas, as que ainda permanecem, trouxeram nova oportunidade ao Mirantense. Uma dezena de metros acima, pela íngreme rua, está o número 33. É a nova casa. Não tem o salão – e as portas de salão – de outrora, não tem o chão de madeira. Mas é a nova casa. Tem espaço, dignidade, e conseguiu-se o mais importante – ficar no sítio, no bairro.

No corredor que dá acesso à sala interior, e nessa mesma sala, também, acumulam-se os troféus e as memórias que evocam um passado maior. Mas o clube persiste. Os registos dão conta de mais de 800 sócios. Hoje, não são tantos. Hoje, garante-nos a presidente, o número de sócios pagantes está perto dos 400 e, pouco depois da abertura das portas, a uma sexta-feira, a atmosfera não mente: este não é um clube moribundo.

Há sócios que fazem do clube casa há mais de 60 anos. Se mudasse de bairro, o clube provavelmente não resistiria, conta, à Mensagem, Lina Cortes. “Perdíamos toda a identidade”, diz. Podia acontecer o que aconteceu a várias outras coletividades da cidade que se viram deslocadas dos bairros em que nasceram: deixaram de existir.

“Ainda bem que aparecem jovens que querem lançar o associativismo, porque está a perder-se muito o espírito da coletividade”, suspira Lina, que frequenta o Mirantense desde os 10 anos de idade, pela mão do pai. Hoje, vai a casa para dormir, apenas. E explica que o clube se mantém com o trabalho voluntário dos seis elementos da direção, mas também “com muita carolice”.

O clube ia muito além do desporto, unia a comunidade. “No Natal, eram distribuídos cabazes aos sócios mais carenciados, vestiam-se as crianças”. Chegaram a vestir-se 50 num desses natais, conta. O Relâmpago quer seguir o mesmo caminho. Ricardo G., um dos sócios relampaguistas, reafirma um dos objetivos fundadores, que parte do trabalho que as coletividades da cidade, outrora, fizeram: “servir de ferramenta comunitária para atingir outros fins”.

Uma viagem a pedal e uma camisola de ciclismo

Vasco, relampaguista, decidiu viajar de bicicleta no verão de 2020. Não sem levar o Relâmpago com ele. Mandou fazer a primeira camisola de ciclismo do clube e foi com ela vestida que pedalou, durante oito dias, os 720 quilómetros da Nacional 2, de Chaves a Faro. “Foi uma espécie de motivação extra, fazer o país de norte a sul com as cores do Relâmpago”, conta. E foi o início, também, do ciclismo no recém-fundado clube popular.

Hoje, o Relâmpago oferece futebol, ciclismo e aulas de auto-defesa. A subida da rampa será a primeira iniciativa do clube nas duas rodas a pedal, mas as aulas de auto-defesa já se têm realizado em jardins da cidade. São abertos, de participação livre e gratuita. No inverno de um clube ainda sem casa, poderão parar. Mas o objetivo, assim que haja sede, é que se façam lá os treinos, “termos um espaço, um tatami”, explica Ricardo.

Às sextas, há futebol. Há quem vá pelo jogo e há, também, quem vá pelo convívio, pela comunidade que nasce em torno da atividade do clube.

Uma mensagem política no jogo das sextas-feiras

Às sextas-feiras, o Relâmpago organiza convívios. Joga-se futebol, habitualmente no Clube Desportivo da Graça, no Grupo Desportivo da Mouraria ou em Santa Engrácia. Joga-se em equipas mistas. “Fomentamos muito essa ideia”, conta Vasco, acrescentando que recentemente realizaram o primeiro jogo “só feminino”.

Na sexta-feira, 8 de outubro, o jogo do Relâmpago aconteceu no Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia. Foto: Rita Ansone

Nas bancadas, conversa-se. A pandemia atrasou muitos dos planos do clube, mas os jogos retomaram. No futuro, o Relâmpago quer trabalhar com crianças dos bairros em volta e quer conseguir integrar jovens refugiados nas suas equipas.

Em Portugal, consideram-se “pioneiros”. “Com os moldes e valores que defendemos, não existe [outro clube]”, considera Ricardo. “Não com esta linha vincada de desporto popular e de ligação à comunidade, inclusivo”.

No final dos jogos, as pessoas juntam-se, é tirada uma fotografia e exibem-se cartazes. De solidariedade com a ocupação da Palestina ou, como aconteceu no início de outubro, com os trabalhadores da Saint Gobain, vidreira de Santa Iria de Azóia, que enfrentam um processo de despedimento coletivo.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 29 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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