Como António Lobo Antunes escreveu: “Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal”. Antes de ser mulher, menina, chegava a casa dos meus avós muito cedo, embrulhada numa manta, e ia direitinha para a cama do meu avô, deitava-me ao seu lado e era feliz, ali era a minha terra natal.

Aquele amor feliz era a minha casa. O meu avô. A minha avó, quase sempre atarefada, nunca a conheci de outra maneira, talvez só a tenha visto mais quieta, uma quietude que a morte lhe trouxe, no funeral do meu avô. Ali já não havia pressa para nada. Ali, em torno de um homem que tinha sido um homem bom, em torno do amor, e com todo o amor, éramos só calma, como um barco parado num mar revolto. Assim estávamos. Tinha, e ainda tenho, naquela casa o meu lugar, o que verdadeiramente posso chamar de casa, na minha terra natal, onde tive o amor mais feliz.

Naquele dia almocei em casa dos meus avós, como tinha feito praticamente todos os dias durante 18 anos. Não me lembro do que foi, nem é isso que importa, mas sei que era uma refeição que aconchega. Porque era sempre. A minha avó começava a preparar a refeição às 8 da manhã, dedicava-se à família, em especial às refeições de maneira especial, e tornava todo o cuidado em amor.

Saiu da escola na quarta classe e foi para uma creche da igreja aprender a cuidar, o que eles chamavam aprender a ser mulher, que não era mais do que ensinar a ser submissa, a esquecer que era mulher. Aprender a costurar, aprender a cozinhar, aprender a limpar. Podia ter sido pior, diz-me a minha avó, enquanto cose um botão. Pois podia. Pode sempre ser pior, qualquer que seja o cenário que imaginemos. A vida da minha avó foi sempre dedicada aos outros, aos dela, mas aos outros que não ela. Cuidou, e fê-lo com distinção.

Era o dia da minha partida para Lisboa. Aquela sensação de ninho vazio pairava no ar.

Agasalha-te que os dias começam a ficar frios – disse-me a minha avó, quase ao mesmo tempo que lhe dava um beijo na testa.

Vê lá se vens de lá doutora – disse-me o meu avô, ao mesmo tempo que o abraçava como se fosse a última vez.

Lisboa era muito longe no imaginário dos meus avós. Quem quero enganar? Era longe para mim também. Só iam a Lisboa para ir ao médico. O meu avô tinha passado lá uma temporada, no Hospital Pulido Valente. O coração sempre lhe falhou. A minha ida para Lisboa era quase como se fosse mudar de país. Os semblantes carregados, os abraços, as lágrimas, o amor que se sentia naquele lugar. Ainda é assim.

Agora, sem o meu avô, ainda é assim e é tão bom, como se o meu avô tivesse partido e deixado para trás todo o amor que guardou durante a sua vida. Foram 18 anos passados em casa dos meus avós. Fiz-me mulher ali. Na azinhaga, rua estreitinha, sem trânsito, a brincar. Naquela casinha pequena, com um quintal pequenino, numa pequena vila ribatejana. Há 37 anos, quando nasci, ainda não vinha no mapa.

Cresci na Lezíria, e tenho sotaque ribatejano. Cresci em casa dos meus avós, no colo dos meus avós. Entrei em sua casa bebé, saí mulher. Em Salvaterra de Magos. É um lugar fantástico, perto do Tejo. Todos nos conhecíamos ali. Queria sair dali, achava a terra pequena para os meus sonhos. Era isso mesmo que o meu avô me dizia. Foi o que sempre ouvi dizer. O tempo em que novos voos me esperavam.

Lembro-me, como se fosse hoje, de olhar pela janela do carro e ver uma lágrima a correr a cara da minha avó, enquanto o meu avô a abraçava. Doeu para a minha avó ver sair a primeira neta, mas eu bem vi os olhos do meu avô cheios de esperança! Pensei, naquele momento, que só sairia de Lisboa com um diploma. Sabia o quanto era importante para o meu avô, que tinha a quarta classe e a quem não deixaram estudar mais. Começou a trabalhar aos 9 anos, uma criança, para só parar na velhice.

Prometi também que o meu diploma iria para aquela casa, que era a minha casa, o meu sítio, onde tive um amor feliz. Iria ficar pendurado entre os quadros com pinturas e fotos e desenhos a carvão. E assim foi. O sítio que me deu tudo o que alguém pode precisar. Não me lembro de ter visto o meu avô mais feliz do que no dia em que entrei por aquela casa adentro de diploma na mão. A vida não o poupou, andou descalço, passou fome, teve um acidente de trabalho aos 13 anos que quase lhe roubou a vida, e ele sempre tentou poupar-me de todo o mal que havia no mundo.

De Salvaterra de Magos a Lisboa distam aproximadamente 63 km. Eram 63 km para a porta de entrada do resto da minha vida. Houve uma clivagem. Uma quebra. Como não? Era uma menina ribatejana que entrava pela primeira vez na cidade, na capital de um país! E entrava para tornar aquela cidade a minha casa durante 5 anos. Novas pessoas, nova escola, novas expectativas, novas ambições. Os meus pais levaram-me até Lisboa, uma viagem interminável. Cheia de curvas e contracurvas e eu enjoava quando andava no banco de trás! Na mala levava roupa, livros, cadernos e muitos sonhos. Os meus e os da minha família. O meu avô paterno queria muito que fosse advogada. O meu avô materno só queria que fosse feliz.

Lisboa é já ali, dizia-me o meu pai. Qualquer coisa e vamos ter contigo, dizia-me a minha mãe. Tinha lido, tanto quanto possível, sobre Lisboa. Sabia onde queria ir, sabia que sítios evitar, para minha própria segurança. Lisboa mudou muito desde que a vi naquele dia e eu mudei com a cidade que cresceu dentro de mim, e que se tornou, também, na minha terra natal.


* Nascida e criada no Ribatejo, rumou a Lisboa, e por lá se licenciou em Psicologia. Lisboa acolheu-a, como se de sua terra natal se tratasse. Ruas e ruelas, como se a tivessem visto crescer. Fez d´O Segundo Sexo o seu livro de cabeceira e do avô o seu herói. Mãe de 3, ativista a tempo inteiro, colunista. Fascinada pelo mundo e pelas pessoas que nele habitam.

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4 Comentários

  1. Amiga Inês,
    Fiquei emocionado ao ler a tua crónica de vida…Extraordinaria a maneira como decreves a tua infância e adolescência. Comovi-me porque temos percursos comuns.
    Parabéns. Muitas,muitas felicidades. Beijinhos.

  2. Que belo texto Inês! Como as tuas fotografias… Gostei de ler e fiquei disponível para ler os teus próximos textos!

  3. Caríssima, fantásticas palavras, fez me andar para trás no tempo.
    também eu passei toda a minha infância em casa dos meus avós.
    Que saudades! Tudo de bom.

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