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Imagem: Libia Florentino; Edição: Álvaro Filho

Foi numa rua com nome de guardião de tesouro, na freguesia da Ajuda, que Fernando Medina encontrou a primeira morada em Lisboa. Quando ainda era uma morada apenas de vez em quando. Nascido no Porto há 48 anos, foi a partir do apartamento dos avós maternos, num bloco de vários andares da Rua Guarda-Jóias, que começou a conhecer a cidade, ainda sem saber que a cidade havia de ser um marco tão importante na sua vida. Nas férias escolares ou a caminho do Algarve, na altura em que a viagem para o Sul “não se fazia de uma só vez, parava-se em Lisboa, ficava-se uns dias e depois ia-se”.

Nessa altura, a sua Lisboa cheirava a pastéis de Belém, diz o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e novamente candidato a estas eleições autárquicas. Um doce que garante não se ter banalizado no seu paladar com o tempo, embora a idade e os cuidados com a saúde o obriguem a restringir.

Ouça a conversa com o candidato:

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Rua do Guarda-Jóias, a primeira morada de Fernando Medina na cidade. Foto: Francisco Romão Pereira

Convidámo-lo a voltar ao ponto de partida, à sua primeira morada em Lisboa, onde agora figura em cartazes fixados poste sim, poste não.

E admite: as decisões que toma para a freguesia da Ajuda têm “outra densidade”, a da memória da criança que aprendia o que era isto de ser lisboeta. Na hora de decidir, é inevitável não se recordar de “quem ali calcorreou aquelas ruas e aquelas pedras, tantas e tantas vezes”.

Começámos a viagem na Calçada da Ajuda, que diz ter subido e descido “vezes sem conta” ainda com pés de menino.

A mesma rua que lhe valeu uma polémica há pouco tempo, depois de uma intervenção que deixou portas de um edifício da GNR sem acesso ao passeio. Mas também aquela onde deixou a marca numa obra “especial”: o Palácio da Ajuda, por terminar há centenas de anos.

“Sempre me impressionou muito, porque não estava acabado, era uma ruína, havia uma ferida muito marcante nas traseiras do Palácio. Muitos achavam que não estava acabado por causa do terramoto, mas não é verdade. Não estava acabado porque durante mais de 200 anos não se acabou”, conta.

Do comércio que hoje visita, poucos são os que fazem parte das paisagens da sua infância. Já o elétrico fez-se ouvir durante toda a conversa.

E o espírito que a Ajuda tem, esse, diz também que nunca se perdeu. “Teve muitos desenvolvimentos ao longo dos anos, mas não perdeu esta sua característica de ser uma freguesia popular na cidade de Lisboa. Durante muito tempo, esteve protegida destes fenómenos de gentrificação e de inflação de preços que alteram muito a estrutura humana dos locais. Historicamente, é uma freguesia de pessoas trabalhadoras, não é a mais rica de Lisboa – longe disso.”

Fernando Medina numa das ruas da Ajuda que mais marcou a sua infância: Travessa da Boa Hora. Foto: Francisco Romão Pereira

Fernando Medina é prata da casa. Na rua, a sua presença faz levantar braços, câmaras fotográficas e pedidos de ajuda. Estamos a poucos dias das eleições, mas a cidade não estagnou à espera de saber o resultado para resolver os seus problemas. Chamam-no à parte para falar sobretudo de habitação.

Aliás, diz: “Se tivesse o condão para mudar uma única coisa em Lisboa, era isto. Dava casas a toda a gente, porque Lisboa tornou-se insuportável para arranjar casa.”

O economista e candidato pela coligação Mais Lisboa (PS e Livre) diz que ser presidente da Câmara é o mais bonito dos cargos e que as pessoas veem-no como o “sindicato de tudo”. “Sentem que temos de os proteger de tudo” e distinguem-no dos presidentes de junta pelo grande poder de decisão e transformação que estes não podem ter.

O seu encontro com Lisboa “é a história de tantas outras pessoas, que vêm para cá trabalhar” e que aqui depois formam raiz. Com exceção de que este nascido e formado no Porto, quando ingressou na capital para viver não veio descobri-la “do zero”.

“Lisboa já me tinha muita proximidade”, a freguesia da Ajuda, mas também a Baixa. “Lembro-me dos restaurantes a que ia com o meu avô. Na Baixa, íamos comer o bacalhau ao João do Grão – muito longe de ser o restaurante turístico que hoje é.”

Aliás, “não havia turismo” e era o tempo em que “Lisboa ainda tinha a Baixa com a vibração de ser um espaço de escritórios e de muita atividade”.

Refeições às quais nunca faltaram “grandes debates sobre o país”. Nascido numa família “muito politizada”, com pais comunistas e um pai obrigado a viver na clandestinidade antes do 25 de Abril, a conversa política era o prato do dia. Talvez ainda nem se atrevendo a imaginarem que, um dia, Fernando Medina saltaria da mesa para governar Lisboa.

A semente da “intervenção cívica”, confessa, germinou aí mesmo, nesses debates em família.


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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