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Bruno lembra-se bem da viagem de comboio do Cacém até ao Rossio, quando era criança. Aqueles últimos segundos passados no túnel a chegar à estação eram uma explosão de emoção. Ir a Lisboa era especial. Não por ser melhor, mas diferente – diz.

O Cacém era o mundo dele. Foi lá que os avós compraram casa, muitos anos depois de terem alugado um quarto na Calçada da Ajuda, vindos da Beira Alta em busca de outra vida. 

A vida dá voltas e é no limite norte do Parque das Nações – e da cidade – o lugar que o candidato da Iniciativa Liberal à Câmara Municipal de Lisboa escolhe para uma caminhada. É aqui que vive. Curiosamente, quando comprou casa, a zona pertencia a Sacavém. Mas com a reforma administrativa de Lisboa e o novo mapa de freguesias, Loures perdeu aquela parcela e Bruno passou a ser residente da capital. 

Trouxe-nos a este lugar por ser “a sua rua”, mas também por considerar ser importante mostrar lugares bonitos. De facto, o caminho vai ter a uma pequena praia junto ao Tejo, onde não se toma banho, mas há areia, trilhos para percorrer e paisagem para admirar.

A praia norte do Parque das Nações, onde Bruno Horta Soares gosta de caminhar – sozinho ou em família. Foto: Francisco Romão Pereira

“Lisboa são muitas Lisboas dentro de uma cidade belíssima, com muito por descobrir, da parte ocidental à oriental.” É assim que Bruno começa por descrever a capital, enquanto procura caminho para os pés entre rochas de todos os tamanhos.

O consultor e professor universitário, com 42 anos e três filhos, está agora próximo do centro de Lisboa mesmo estando no limite, mas foi às suas portas que nasceu e cresceu. Do Cacém habituou-se a vir à cidade onde havia coisas diferentes. “Vinha com a minha avó. Era onde ela podia comprar a melhor roupa para ir a um casamento, ou a melhor chávena”, diz, fazendo com a mão o gesto de segurar uma com cuidado.

Ainda há pouco tempo, passou na histórica Pollux, na Rua dos Fanqueiros, na Baixa, e reavivou memórias desse tempo. Os olhos não escondem a nostalgia.

Bruno lembra-se, como se fosse ontem, de quando, ainda miúdo, também começou a ir às compras: à procura de cromos para as cadernetas ou às lojas de marcas que não havia noutro lado. Em Lisboa, encontrava-se uma centralidade e quem estava na periferia tinha essa consciência.

“Na altura as pessoas faziam as suas vidas na periferia. Vivíamos numa bolha”. O pai trabalhava numa fábrica no Cacém e a mãe num centro de saúde em Rio de Mouro. O dia a dia era ali. Depois, foi crescendo, as cidades também, apercebendo-se cada vez mais de que a periferia passara a ser um dormitório para quem trabalhava em Lisboa. E, para Bruno, é nesse contexto que surge a saturação das rotinas: a distância, os transportes, o trânsito. Todos os dias, para lá e para cá.

Também ele sofreu disso, quando, aos 22 anos, começou a trabalhar e não morava em Lisboa. Recorda-se bem de ter sido uma altura em que não aproveitava a cidade. Não só pelo ritmo acelerado que as consultoras exigem, mas também porque passou a ficar preso no para-arranca. 

Lisboa era onde estavam as oportunidades de uma carreira, sobretudo para quem se licenciou em Informática e Gestão de Empresas. Ao contrário de quando começou a trabalhar, “enquanto estudava dava para aproveitar a universidade durante o dia… e Lisboa durante a noite”, conta, sorridente, como quem esconde as diversões da vida académica.

“O que diferencia a cidade de há 40 anos e agora é a facilidade da tecnologia e como tirar partido disso para responder aos desafios

Bruno Horta Soares
Para Bruno Horta Soares, este planeamento recente da zona mais moderna da cidade é possível noutras áreas de Lisboa, criando “novas cidades, ou pelo menos micro-bairros”. Fotografia: Francisco Romão Pereira

Os anos no ISCTE passaram a voar, tal como os aviões que a toda a hora invadiam as aulas. Um som ensurdecedor que Bruno não esquece, mas considera uma caraterística de Lisboa. E isso é bom? “Não é, mas até parece que não foi sempre assim. O aeroporto da cidade é um elemento fundamental para que tenhamos desenvolvimento económico”, diz, começando a falar em termos políticos.

“Esperemos que no futuro os aviões deixem de fazer tanto barulho, sem termos de tirar o aeroporto da cidade”, diz, referindo mais uma vez a opção polémica do seu partido – que acaba de apoiar o Governo sobre um novo aeroporto no Montijo, embora mantendo o da Portela.

A política para ele começou precisamente na universidade, nas associações de estudantes. “Tinha muita curiosidade em conhecer dinâmicas humanas e de que forma poderia aplicar essas competências no futuro profissional”. Bruno já sabia o que queria. Afinal, tem sido esse o seu percurso: consultoria, auditoria, gestão de equipas, transformação digital, lecionando nessas áreas, em Portugal e no estrangeiro.

Mais tarde vieram os filhos, um amadurecimento e as questões existenciais. “Não posso estar sempre a criticar os outros e não fazer nada”. Foi dessa vontade que surgiu um grupo de pessoas com quem formou e fundou o que mais tarde se tornou a Iniciativa Liberal – partido que vai pela primeira vez a votos nas eleições autárquicas.

Ouça na íntegra a conversa com o candidato:

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Olhando para trás, Bruno continua a ter Lisboa como um lugar de enormes oportunidades. Não só para os que cá moram, mas também para quem nos visita. No entanto, para ele, é claro como a água do Tejo aqui à frente que deve existir uma aposta mais forte na modernização da cidade. 

“O que diferencia uma cidade há 40 anos e agora é a facilidade da tecnologia e como tirar partido disso para responder aos desafios”, diz Bruno, que defende uma Lisboa super conectada, à distância de um smartphone. “O futuro passa pela sensorização. Onde posso estacionar o meu carro mais facilmente, por exemplo?”. No estudo Smart City Index, do instituto suíço IMD, Lisboa está em 75º lugar no ranking. “Há coisas a acontecer, mas não está a ter um desempenho ao ritmo que o mundo avança”. 

O turismo é um dos temas fundamentais na cidade. “Lisboa é uma cidade que deixa sempre saudades. Tenho essa experiência, porque lido com pessoas de todo o mundo e quando se fala de Lisboa é um brilho nos olhos”, diz.

Como pode o turismo ser mais sustentável? “Há maior facilitação de circulação, por isso há mais pessoas nas cidades e isso cria uma pressão. Mas queremos que essa pressão seja gerida”, defende. Aliás, diz, o caminho não deve ser pelo discurso do: “Ah, antes é que era bom… isto já é turismo a mais”. Não, para o candidato da IL, o turismo é uma atividade altamente multiplicadora e para ele não existem dúvidas de que a explosão do Alojamento Local foi importantíssima para a cidade, não só numa perspetiva de urbanismo mas também económica. 

Paragem de cinco minutos para um café. Aliás, dois. E também uma meia de leite para o cameraman. À volta, verde e sombra. O caminho segue em direção aos prédios e às avenidas centrais do Parque das Nações, onde há passeios largos para os peões e ciclovias para quem pedala. As árvores acompanham-nos. 

Bruno defende os pequenos negócios feitos por pessoas apaixonadas por algo e quer incentivá-los. Fotografia: Francisco Romão Pereira

Este planeamento recente da zona mais moderna da cidade é possível noutras zonas, garante Bruno. “Ainda há espaço para construir estas novas cidades, ou pelo menos micro-bairros”. Passamos por uma padaria gourmet que ele aponta como um bom exemplo de um novo negócio que abriu já no final da pandemia e do que a sua candidatura quer incentivar. 

Mas, neste caso, é suspeito: “Eu adoro pão, gosto mesmo muito”, diz, a rir-se, enquanto pensa duas vezes se vai buscar alguma coisa. Opta por virar as costas à loja que, apesar de ter porta aberta no bairro para quem passa, vende para toda a cidade. 

“Sim, é uma padaria de bairro, mas é importante que não se criem «muros» à volta dos bairros”, diz Bruno, que defende os pequenos negócios feitos por pessoas apaixonadas por algo, mas que depois devem poder escalar.

É o fim de um passeio de mais de cinco quilómetros, de volta ao ponto de partida. Com a garantia de que também há bairrismo no Parque das Nações. Ah, e praia.


Nuno Mota Gomes

É jornalista. Adora escrever, fotografar e perder-se em pensamentos. Anda de mota, faz surf, viaja sempre que pode – e nem sempre para o estrangeiro. Agora fá-lo mais aqui, em Lisboa, onde nasceu. Um Interrail abriu-lhe horizontes, publicou um livro e muitas reportagens de viagens na Volta ao Mundo – onde se estreou na TV. Passou ainda por outras publicações e durante dois anos integrou o Diário de Notícias. Há quem diga que percebe de redes sociais. Tem 28 anos. 

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