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Vídeo: Stephen O’Regan/People of Lisbon

Faltavam poucos minutos para as 10 horas da manhã e o funcionário do bar arrastava mesas e cadeiras no terreno pedregoso do jardim de Santa Clara, dispondo-as no seu devido lugar. Um jardim vazio, onde raros eram os transeuntes, e que nem no decorrer da manhã ganhou mais adeptos.

Não é assim que João Ferreira se recorda dele.

Onde há hoje caminho de areia, muitas vezes rolou a bola que o agora candidato à Câmara Municipal de Lisboa pela CDU, de 42 anos, chutou com os amigos. Este era um lugar de encontro de várias gerações, lembra. Nos bancos, sentavam-se os mais idosos, as suas conversas e os jogos que animavam a reforma. A tranquila paisagem de tílias, agora inexistente, era apenas desarrumada pelo burburinho das crianças.

Muito antes de João Ferreira cá chegar, este jardim foi uma quinta. Até ser doado à autarquia entre 1974 e 1977, para se tornar no que hoje conhecemos.

Na margem deste lugar verde, erguem-se altos prédios, dois dos quais já habitados pelo candidato. João Ferreira chegou a esta freguesia, antiga Ameixoeira, e às redondezas deste jardim com sete anos, trocando a vida em Alvalade. Já como adulto, decidiu regressar ao lugar da sua infância e ser vizinho dos pais – embora não seja aqui que agora mora e até o tenha trocado durante anos por Bruxelas, onde foi eurodeputado.

O jardim ali se manteve até ao seu regresso, embora com transformações. Mas a constante convivência com estas árvores e arbustos fez João Ferreira ter a certeza: “Lisboa precisa de mais espaços e corredores verdes” – além de os cuidar melhor.

Isso e devolver a rua às crianças. “A minha Lisboa é onde as crianças podem brincar no espaço público em segurança.”

Ouça na íntegra a conversa com o candidato:

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A vida deste seu bairro nunca se extinguiu aqui, nas redondezas deste jardim. Por detrás destes prédios, havia quintas e as chamadas AUGI (áreas urbanas de génese ilegal). O que tornou esta freguesia “sempre à parte”, “encarada como periferia” de Lisboa. E cosida por “assimetrias sociais muito evidentes”: de um lado, as barracas; do outro, os novos prédios que ali iam crescendo.

Entretanto, as barracas deram lugar a habitação municipal. Diz o candidato que a extinção destas casas de condições “indignas” foi “uma das melhores coisas que aconteceu nesta cidade”. Aconteceu ao abrigo dos Programas Especiais de Realojamento (PER).

Mas as assimetrias não se esvaziaram e encontram-se apenas a 200 metros do jardim de Santa Clara, onde casas térreas resistem junto a terrenos baldios e edifícios abandonados, com vista para prédios do PER.

João Ferreira conviveu de perto com estas diferenças, visível “através das oportunidades que existiam para algumas crianças e não para outras, nos meios, nas possibilidades ao seu dispor.” De que lado estava da barricada? “Nunca estive aqui encerrado, nesta freguesia, mas desde cedo convivi com esta dupla desigualdade” – aquela que separa este bairro da cidade e a que existe dentro dele. Tinha amigos que ele sabia não terem as mesmas possibilidades.

Uma criança que cresce entre estes dois mundos, conta, “torna-se mais consciente destas desigualdades e da necessidade de as superar. “Foi essencial para não tomar as desigualdades como inevitáveis”, confidencia.

Ainda João Ferreira corria estas ruas e ruelas de bola nos pés, já pensava na biologia como campo de trabalho na vida adulta – que, aliás, exerceu durante anos, dentro e fora de Portugal. Mas, no desporto, não fez da bola elemento de eleição. Praticou atletismo, natação no Areeiro e até remo em Alcântara. Numa infância sua, em que, acredita, “o desporto era mais democrático” – estava em quase todo o lado e para toda a gente.

A adolescência foi sobretudo passada no espaço jovem (que hoje já não existe), um espaço que diz ter sido “uma escola importante do ponto de vista da formação cívica”. O convívio era o principal mote, mas ali até testemunhou a formação de bandas de música.

Era “no tempo em que Lisboa tinha um pelouro da Juventude” e que João Ferreira diz fazer falta a esta cidade à qual se candidata para presidir.


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 25 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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