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Desesperado por crónica num ataque de atrofia textual, pensava em fugir montado num burro (que burro é coisa de mim) quando tirei os olhos do caderno para ver o que encontrava no café. À minha frente, sentadas a uma mesa, estavam três mulheres de oitenta anos.

Uma era baixa como um homem baixo, outra acenava ao que esta lhe dizia. A terceira fica por descrever. E todas desfiavam aquela conversa de bairro que passa pela florista, vai ao homem do talho e fica-se pela Clarinda. A Clarinda deixou de saber o que faz, a Clarinda Deus a ajude. Não a viam há dois anos: às tantas morreu, convém telefonar-lhe para saber se está morta.

Certo de que a vida nas páginas do meu caderno é um lugar inóspito, ainda desesperado mas satisfeito por não ter fugido de burro, fiquei a observá-las. E a pensar que a conversa seria muito mais interessante se elas fossem irmãs de choco, aparentadas de lula – se elas fossem bioluminescentes.

Ao falar de Clarinda, uma perderia a luz na têmpora. A outra coçaria o braço, que, à conta do prurido, se reacenderia a cada esfreganço. A mais tímida quase se apagaria. Juntas, iluminariam uma sala escura, mas a claridade extingue-se quando chegam cansadas a casa ao fim do dia. Só voltariam a acender-se aos poucos durante a noite, mais nos flashes dos sonhos do que no sono fundo.

Mas a bioluminescência devia ser das minhas imaginações. Quando me sentei com elas no lugar vago, não emitiam luz.

«As senhoras desculpem», disse-lhes, abrindo o caderno sobre a mesa. «É que eu escrevo umas coisas, uns textos, e estou engasgado de ideias. Queria pedir-lhes um favor.»

«Dinheiro?», perguntou uma que há dez anos – reconheço-lhe agora o ar de pão caro – tinha uma padaria antiga com chaminé de tijolo. As outras entreolharam-se. Se emitissem realmente luz, jorrar-lhes-ia roxa de embraçado. E eu na mesma, sem vergonha de pedir quando a esmola é texto.

«Dinheiro, não», continuei. «O favor de uma história. Contarem-me um episódio interessante da vossa vida.» Pensei descrever-lhes a atrofia textual, que para elas soaria a problema na vesícula, mas aguardei. «As senhoras contam, eu escrevo.»

«Ora nós, a vida, de interessante…», disse uma. «A vida, de interessante, nada. A minha nem foi fria nem foi quente. Olhe, nem bem nem mal.»

«É isso, nem muito nem pouco», disse outra. «Quanto a mim, foi-se andando.»

E a terceira fez um gesto de nem sim nem não, um trejeito vago de meia concordância.

Antes de voltar à mesa, agora seguro de que tinha sido eu a dar-lhes uma história e que mais valia ter fugido a trote num burro, ainda esperei que a vida das três mulheres não luminescentes fosse uma sopa da pedra. A princípio o nem nem de uma pedra em água quente, depois, a medo, o fio de azeite, os cubos de carne, o feijão, as batatas, as rodelas de chouriço, o sal e a pimenta – no fim, uma refeição completa. Mas elas ficaram-se pelo nem muito nem pouco, nem tristes nem alegres, nem luz nem sombra.

«Muito bem, desculpem o incómodo», disse eu.

«A gente faz o que pode, somos todos uns para os outros, não é verdade?»

«Se se lembrarem de alguma coisa, estou naquela mesa.»

Aquela, a mesa do café entornado, dos papéis amarfanhados, da camisola rota sobre as costas da cadeira e do estojo a condizer com o lápis gasto pelo sabugo.

Retomei qualquer frase no caderno que me surgia menos atrofiada, menos coisa de disfarçar, enquanto espiava as mulheres que, depois de pagar, dobravam os Correios da Manhã para os levarem debaixo do braço.

Antes de saírem, pararam ao pé de mim. À espera da história – finalmente a sopa da pedra –, virei a página para começar em branco. Mas a ex-padeira disse: «Deixe-se estar, não se incomode, a vida tem destes azares», e largou uma moeda de dois euros na mesa. Para não me envergonharem, viraram logo as costas e saíram. No outro lado da rua, as três brilhavam. Não era de bioluminescência, que isso não existe em senhoras de oitenta anos – era de contentamento por uma moeda bem investida.

Leia aqui a outras cónicas de Afonso Reis Cabral

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2 Comentários

  1. hehehe …. gostei bastante, imaginei-me numa outra mesa a observar tudo isto….

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