O cinema não é só arte e espectáculo. É muito mais do que isso. Um bom filme pode ser importante por ser “um bom filme”, mas também por ser um repositório inesgotável de informações antropológicas, sociológicas, políticas, linguísticas, culturais, arquitectónicas, enfim, um nunca mais acabar de indicações, umas directas, outras indirectas, sobre um tempo e um local.

Mas um mau filme, cinematograficamente inepto, pode ter a mesma importância histórica. Por isso é tarefa de uma Cinemateca preservar os bons filmes, mas igualmente toda e qualquer obra audiovisual que se pode revelar indispensável no futuro para o estudo do passado.

No caso das comédias portuguesas dos anos 30 e 40 do século passado, estas revelam-se um importantíssimo manancial de informações desses tempos, para lá dos seus méritos cinematográficos, existentes ou não.

António Ferro, homem culto e inteligente que orientou a “política do espírito” do Estado Novo, considerava as comédias o “cancro pornográfico” da nossa cinematografia.

Curiosamente, foram o que melhor sobreviveu desse tempo, sendo ainda hoje êxitos populares sempre que são apresentadas. Porque são as mais lídimas representantes de um tempo e de um espaço, mesmo com todas as dificuldades que a censura impunha. Elas conseguem captar um pouco do espírito desse período, e dão-nos preciosas indicações sobre imensas questões das mais variadas raízes.

Recordemos hoje, um verdadeiro «clássico» da comédia portuguesa, “A Canção de Lisboa”, de Cottinelli Telmo, que assinala sintomaticamente uma efeméride importante: trata-se do primeiro filme sonoro português, gravado inteiramente em estúdios nacionais.

Subsidiado por duas velhas tias da província, Vasco Leitão (Vasco Santana) tenta tirar, sem muito esforço, um curso de Medicina na Universidade de Lisboa. As reprovações amontoam-se, enquanto Vasco leva uma vida de boa-vai-ela, entre farras, amores e desamores, nos quais avulta o caso de Alice Costa (Beatriz Costa), filha de um alfaiate com uma loja de nome «Estudantina».

Um dia, as tias apeiam-se de um comboio na estação do Rossio, e vêm a Lisboa visitar o sobrinho querido, que julgam já médico bem instalado na capital. Aqui começa o imbróglio inventado por Cottinelli Telmo, que irá progredir com base numa sucessão de mentiras, arquitectadas por Vasco Leitão, de conluio com o alfaiate e o sapateiro, seu senhorio.

Todos querem esmifrar as «velhas», cada um de sua maneira. Até que as aparências caem pela base, e Vasco Leitão aparece na sua situação real. Nem tudo está perdido, todavia, dado que nessa mesma altura Vasco Leitão descobre a sua vocação fadista e enceta uma carreira vertiginosa no «Retiro do Alexandrino».

Uma passagem brilhante pelos exames finais (onde «até sabe o que é o esternocleidomastóideo») faz dele finalmente o dr. Vasco Leitão, com as necessárias consequências («para trás, tias desnaturadas!» ou «Adeus, fadistas da minha terra!», para lá do casamento obrigatório com Alice Costa, então já «Rainha das Costureiras», em eleição promovida pela Academia Recreativa Dr. Barbosa Girão, para «Miss Castelinho»).

Que há de verdadeiramente notável nesta comédia que irá iniciar um ciclo relativamente fecundo durante as décadas de 1930 e 40? Primeiramente, a graça, escorreita e efectivamente popular que ressalta das figuras e das situações.

Há uma grande frescura nos esboços de tipos (quase todos vivendo da força interior de um grupo de actores admiráveis, de à vontade, de comunicabilidade, de espontaneidade) e um humor de raiz ainda revisteira, bem adaptado às necessidades não só do cinema como, no caso, do cinema sonoro.

Vejamos um exemplo: quando enumera os sucessivos namoros de Alice Costa, Vasco vai contando-os até chegar ao Luís, 14, altura em que a janela lhe cai sobre o pescoço como uma guilhotina. Neste particular, o humor nasce da duplicidade de sentidos das palavras, mas também da própria imagem. Este jogo de efeito recíproco entre a palavra e a imagem será o grande trunfo que a comédia desta época explora com sagacidade.

Simultaneamente há uma cuidadosa descrição de ambientes, quase sempre centrados sobre a pequena burguesia lisboeta: a loja do Costa, esses interiores de alfaiataria de bairro; toda a sequência da eleição de «Miss Castelinho», na Academia Recreativa, verdadeira obra-prima de comicidade e excelente apontamento sobre eleições viciadas, o enfatuamento da «mesa», o protocolo ridículo do ambiente, quebrado pela solenidade do «Toca o hino!», ou a «deixa» de quem sabe que o rei vai nu: «Celestina, vamos embora que isto foi tudo uma grande aldrabice!»; o retiro do Alexandrino e o seu clima de marialvismo fadista, que Vasco Leitão, num momento de exaltação, combate («O fado é o veneno da raça. Matem-se os fregueses, matem-se os guitarristas. Eu sou médico. Tenho por dever curar as chagas sociais. Vamos promover uma semana Anti-Fado!»), para logo a seguir deixar a melancolia invadir-lhe o corpo, sentado nos degraus de uma escada, cantando a «má sorte» que seria a sua fortuna.

O ambiente pequeno-burguês fica assim desenhado em traços largos, com as suas próprias aspirações. Veja-se a sequência de Alice Costa sonhando o seu casamento com o Vasquinho, enquanto Beatriz Costa vai cantando o seu ideal de felicidade, ao mesmo tempo que passeia saltitante, em trajes de noivado, pelas ameias do castelo de Sintra: «O meu sonho é realidade; Vou ser feliz; Viver castelos no ar; Viver um falso ideal, uma quimera.» De um lado, o dia-a-dia, risonho, mas mesquinho; do outro, as aspirações utópicas que têm que ver um pouco com o modelo fornecido pela comédia musical americana.

Como iria acontecer quase sempre ao longo dos melhores exemplos da comédia popular portuguesa, também aqui os grandes dramas se reduzem aos casos de amor, que associados a pequenas intrigas sociais, ou policiais, sustentam a ligação para vários episódios cómicos e musicais. Terminando tudo em bem: os equívocos sociais saldam-se por casamentos de amor que nivelam os conflitos de classe; os casos policiais resolvem-se, garantindo a honestidade dos protagonistas («O Pátio das Cantigas», por exemplo); e o amor, triunfando sempre no final, acaba por ajustar o «puzzle» sentimental, mesmo quando, de início, tudo parece irremediavelmente confuso (cite-se novamente «O Pátio das Cantigas»).

Estamos em inícios da década de 1930. A primeira guerra mundial já quase se esqueceu. A derrocada económica da crise de fins dos anos 1920 começa a ser debelada. A Europa resvala lentamente para o nazi-fascismo, mas as multidões entregam-se, sem problemas de consciência, aos prazeres da existência (as que os podem gozar) ou às pequenas alegrias do espectáculo, «fábrica de sonhos».

No caso português, Salazar era ainda uma esperança. A tranquilidade que se gozava não tinha ainda um preço conhecido. Depois da grande balbúrdia da I República, os anos de calma do «Estado Novo» eram ainda promessas que, é conveniente não esquecer, muitos perfilharam. Convictamente, ou por ignorância.

A comédia popular destes anos fala sobretudo de, e para, uma pequena burguesia que o governo tentava tranquilizar, oferecendo postos de trabalho regular numa máquina burocratizada até à medula. Às necessidades do povo e do governo correspondia uma matéria humana como não mais houve no país.

Excelentes intérpretes (Vasco Santana, António Silva, Maria Matos, Beatriz Costa, Ribeirinho, Laura Alves, Barroso Lopes, Mirita Casimiro, e tantos outros), realizadores com certa leveza e inspiração, e uma evidente propensão para o uso da imagem falada (Cottinelli Telmo, Chiança Garcia, Arthur Duarte, Leitão de Barros, António Lopes Ribeiro, etc.), bons argumentistas (numa tradição de teatro de «boulevard», adaptado ao caso português, por André Brun ou Gervásio Lobato, e continuada depois por João Bastos, José Galhardo, António Lopes Ribeiro, Ribeirinho, Vasco Santana) e músicos de inspiradas partituras, que ainda hoje sobrevivem no assobio popular (Raul Portela, Raul Ferrão, Frederico de Freitas, Fernando de Carvalho, etc.).

A CANÇÃO DE LISBOA

Realização: Cottinelli Telmo (Portugal, 1933); Argumento e sequência cinematográfica: Cottinelli Teimo; Diálogos e letras: José Galhardo; Conselheiro técnico: Chianca de Garcia; Fotografia (preto e branco): Henry Barreyre, César de Sá; Operador:  Salazar Dinis; Música: Raul Portela e Raul Ferrão; Direcção Musical: René Bohet, Jaime Silva, Filho; Cenografia: Cottinelli Teimo; Montagem: Cottinelli Teimo, Tonka Taldy, José Gomes Ferreira; Som: Paulo de Brito Aranha, Hans-Christof Wohlrab; Assistente de som: Sousa Santos; Assistente de realização: Carlos Botelho, Emmanuel Altberg; Direcção: Tóbis Portuguesa; Laboratórios: Lisboa Filmes; Intérpretes: Beatriz Costa (Alice), Vasco Santa na (Vasco), António Silva (Caetano), Teresa Gomes e Sofia Santas (as Tias), Ana Maria (Maria da Graça), Manoel de Oliveira (Carlos), Manuel Santos Carvalho (dono do retiro de fados), Alfredo Silva (sapateiro), Silvestre Alecrim (empregado do retiro), Eduardo Fernandes (Quincas), Álvaro de Almeida (homem do chapéu), Maria Albertina (fadista), Olga Vieira, Maria Leonor, Fernanda Campos, Deolinda Gonçalves, Alzira Cosme, Yvonne Fernandes, Corália Escobar, Zeca Fernandes, Júlia da Assunção, Artur Rodrigues, Guimarães Brasão, Reginaldo Duarte, Sebastião Ribeiro, etc.; Duração: 118 minutos; Distribuição: Filmes Castello Lopes; Estreia: São Luiz (7 de Novembro de 1933).


*Lauro António é realizador e crítico de cinema – lendário em Portugal. Lisboeta de gema, foi a cidade que também cunhou o seu gosto pelo cinema, e ele próprio mudou a história do seu cinema.

Entre na conversa

3 Comentários

  1. Bom poder ter tão valiosa informação e recordar este filme. Obrigado Lauro.

  2. Já agora acho importante referir que os cartazes e desenhos do genérico são de Almada Negreiros

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *