Num recorte de jornal digital dos arquivos da Fundação José Saramago, leio a frase proferida pelo autor em Buenos Aires, “Ser emigrante não é deixar a terra, é levar a terra consigo”. Essa frase, tão cristalina e simples, encerra todas as profundezas da experiência do emigrante.

Na hora da partida, os emigrantes transportam num lugar do coração todos os sabores, cheiros, memórias de infância, dores e alegrias, contradições e aflições da terra que os viu nascer. Por vezes, nem é a terra que os viu nascer, mas é onde flui o sangue do seu sangue.

Passei grande parte da adolescência e início da vida adulta a fugir dessa herança, a invisibilizar-me, não querendo nunca dar palco à estrangeira em mim. A assimilar a cultura de Lisboa, os hábitos e vivências de Lisboa, a ser amiga das pessoas de Lisboa, de um modo que eu desejava que fosse perfeito. Se o fiz, foi na tentativa de me sentir menos só, o que revelou alguma ingenuidade da minha parte, pois a solidão nunca se vai embora.

Essa é a única constante na vida de um imigrante. É um estranho entre os seus e um estranho entre os outros. Talvez por isso tenha sempre gostado tanto do título de inspiração bíblica do livro de Robert E. Heinlein, Um Estranho numa Terra Estranha, a história de um alienígena marciano e a sua difícil integração entre terráqueos.

Após um período de alguma turbulência e cansaço, quis criar um espaço onde sentisse maior segurança e conforto. Dei por mim a abrir o meu próprio estabelecimento de cozinha libanesa, em Lisboa, que se tornou, para mim, um porto seguro onde confluem várias das minhas identidades.

Decidira parar de fugir dessas várias identidades. Criei exatamente o espaço que queria, com as estantes onde estão alguns dos meus autores favoritos expostos em oposição às estantes de mercearia onde se encontram os produtos que dão o sabor certo às especialidades libanesas. De certo modo, foi a minha forma de me reconciliar e reencontrar com uma herança que eu tentara negar durante um longo período de tempo.

Nesse espaço já circularam centenas de pessoas de várias nacionalidades, e teriam continuado a circular muito mais se não fosse o longo arrastar da pandemia. Não faltam portugueses ou europeus a trabalhar em Lisboa, mas os clientes brasileiros são especiais porque também eles fazem parte das imensas correntes migratórias libanesas pelo mundo fora, através dos seus antepassados.

Falam-me da infância passada em torno da comida da avó libanesa, da saudade de comer um bom kibbé, algo que inexplicavelmente não encontram em lado nenhum em Lisboa. São dos poucos clientes a reconhecer, de imediato, o chá mate que sirvo, cuja história estabelece pontes migratórias entre a América Latina e o Médio Oriente. Explico-lhes que, ao contrário de várias cidades do Brasil, a comida libanesa e síria não é tão comum em Lisboa.

Portugal não teve de acolher enormes vagas de imigração de libaneses e sírios desde o século XIX e, por isso, não teve direito à mesma assimilação gastronómica da comida árabe. É muito por causa desses clientes brasileiros que gosto de expor, nas minhas estantes, livros de Milton Hatoum e Raduan Nassar.

Mas é, sem dúvida, no contacto com outros libaneses que me recordo sempre como faço parte de uma grande diáspora. Um amigo libanês da família despediu-se de nós num dia em que coincidiu ser um dos mais importantes feriados islâmicos e desejei-lhe Eid Moubarak, a felicitação típica islâmica em dias de festa.

Mais tarde, a minha mãe explicou-me que ele é cristão, um facto que teria sido óbvio para qualquer libanês, mas não para mim que estou desligada das nuances da realidade local. Para a maioria dos libaneses que habitam no Líbano, as divisões por linhas setoriais religiosas são tão naturais como beber água, fruto de guerras e conflitos de muitos séculos. Para mim, é contranatura.

Não é só a religião que dá azo a situações curiosas, mas também a política é um terreno fértil para momentos tanto cómicos como tensos.  Não creio que os lisboetas saibam da sorte que têm em viver numa sociedade livre de tabus em que a simples menção a religião ou a política não gera situações hostis.

E depois surgem momentos que nos ultrapassam e nos apanham na curva, como no dia em que se deu a explosão de Beirute há cerca de um ano. Desse apocalipse brotou uma tal onda calorosa de solidariedade por parte de tantos amigos, conhecidos e clientes que não minto quando digo que, por breves momentos, a minha solidão foi aliviada. É bom sentir que não temos de ser, sempre, estranhos em terras estranhas.  


Safaa Dib

Enquanto luso-libanesa, vive entre duas culturas desde que se lembra, mas Lisboa é onde assentou o coração. Desde muito cedo ingressou no mundo da edição de livros e divulgação literária. Nunca pessoa de se restringir a uma área só, é proprietária de um estabelecimento de cozinha libanesa em Lisboa e, nos últimos anos, ingressou na atividade política, sendo dirigente do LIVRE.

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7 Comentários

  1. Cara Safaa Dib
    Obrigada por tão bela crónica.
    Também sou ex-transgeira.
    Da sua crónica veio ao meu encontro uma frase transbordando sororidade: « Se o fiz, foi na tentativa de me sentir menos só, o que revelou alguma ingenuidade da minha parte, pois a solidão nunca se vai embora.»
    Espero visitá-la em breve na sua casa. Sou uma amante da culinária libaneza.
    Receba um beijo e um abraço.
    Ulika

  2. Parabens Safaa! Sempre um deleite ler seus textos.

    Cypriano, FF, Coimbra.

  3. Lindo texto.Tenho uma filha a viver há 20 anos fora de Portugal e percebi-a tão bem.

  4. Bela crónica. Não sou de Lisboa mas tive, ao longo de muitos anos, várias afinidades, cumplicidades até, com jornais e com gente muito interessante. Alfacinhas e não só mas, todos, inebriados com essa Lisboa que nos faz bem.

  5. Parabéns pelo seu belo texto, abordando um tema tão comum a tantos de nós. Viver onde não se nasceu ou foi criado, tentando estabelecer pontes e criar raízes, intenções nem sempre compreendidas e frequentemente mal aceites. Na minha infância e adolescência, habituei-me a conviver e criar amizade com muitos libaneses que, também eles, procuravam encontrar um rumo, um modo de criar e sustentar os filhos numa terra distante, onde eram pouco mais do que tolerados. Refiro -me a uma antiga colónia portuguesa onde nasci, há 7 décadas, onde as circunstâncias da vida me impediram de voltar, mas de que conservo vivas todas as memórias.
    Espero ir à sua casa, em breve, desfrutar do ambiente e da deliciosa comida dessa terra mítica que é o Líbano.
    Obrigado.

  6. Adorei a sua crónica, que deixa transparecer a sua imensa sensibilidade! Todos somos, de uma forma ou de outra, estrangeiros, mas as fronteiras também se esbatem e abatem quando nos deixamos cativar pelos sabores de outras paragens! Terei muito gosto em passar, em breve, pela sua Casa dos Cedros!

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