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O que é uma história de imigração? Partir do ponto A em direção ao ponto B e de volta. Carregar a casa que queremos construir às costas em direção ao sonho que desejamos concretizar. É um acumular de esperança. Sempre a esperança subjacente de que a vida que está por vir será infinitamente melhor da vida que teríamos tido.

É isto e muito mais de inexplicável. Não há linearidade na imigração. Apenas a noção esbatida de que o ponto para o qual partimos é, muitas vezes, apenas a primeira estação de comboio, o primeiro aeroporto, o primeiro porto de chegada.

Alguma vez dedicaram algum tempo a pensar no modo como o imigrante recém-chegado a um novo país também pode vir a sofrer da condição de ser imigrante-emigrante?

Imaginem um indivíduo que partiu do seu país na adolescência, foi levado para Portugal, por exemplo, onde viveu cerca de quinze anos e depois as circunstâncias de vida forçam-no a partir de novo para outro país inteiramente diferente. Aí reside outros tantos anos, mas nunca se esqueceu de Portugal onde deixou uma parte de si. Regressa sempre a Portugal na esperança de lá poder voltar a viver e reviver momentos de felicidade, mesmo se a nostalgia e a memória traiçoeira pintem o passado com cores mais alegres.

Essa é, em parte, a história da minha irmã mais velha que viveu anos suficientes em Lisboa para formar uma ligação que duraria a vida inteira. Chegou adolescente a Lisboa, estudou em várias escolas lisboetas, formou-se numa universidade lisboeta, teve vários empregos e depois partiu de novo, quando decidiu formar a sua própria família.

Grenoble, Beirute, Paris são cidades onde viveu e trabalhou, mas era Lisboa que tinha sempre na sua mente. Tinha saudades da cidade, criara uma ligação sentimental a Lisboa e, após as suas filhas nascerem em Paris, passou a ter o hábito de passar grande parte das suas férias de verão em Lisboa, enquanto falava com um sotaque português afrancesado, levando muitos a julgarem que seria uma emigrante portuguesa radicada em França há muitos anos. O que não é falso, mas conta apenas uma parte da sua história.

Como veem, não há nada de linear na imigração.

Como a minha irmã, há muitos mais. Imigrantes-emigrantes que deixam pedaços de si em cada partida e destino, lugares de adoção em nada relacionados com o seu sangue ou ascendência, enquanto constroem e desfazem casas. As muitas línguas que falam disfarçam o lugar de proveniência. Não conseguimos identificar a origem a não ser que perguntemos e, muitas vezes, acabamos surpreendidos com as respostas.

Na sua mais recente visita a Lisboa, com as minhas sobrinhas francesas, a minha irmã encontrou a cidade irremediavelmente mudada. Sabe que as cidades têm de evoluir e adaptar-se, sabe que as suas memórias são de uma cidade que já quase não existe e deu lugar a outra, sabe que a velha lógica mercantil turística capturou a cidade, da mesma forma que capturou outras capitais europeias.

Lisboa deixara de ser o segredo mais bem guardado. Estava reabilitada e mais bonita, mas perdera grande parte das suas pessoas e algumas das qualidades que a tornavam autêntica. Visitou zonas que eram especiais para si, percorreu velhos roteiros de memória afetiva ao lado das filhas e visitaram bairros históricos, mas também outras partes reinventadas da cidade.

E pela primeira vez reparou, não sem espanto, que o seu sotaque era por vezes visto com alguma hostilidade, causando-lhe vários dissabores. Deu por si a pensar como já não era uma cidade tão acolhedora como dantes. Havia mais desconfiança, mais dureza, uma impaciência prestes a explodir.

Ainda não lhe perguntei, mas duvido que no próximo ano regresse a Lisboa. É difícil ter de aceitar um regresso não tão feliz aos lugares onde fomos felizes. É possível que no próximo verão decida regressar ao Líbano, onde passou a sua infância. Descobri nesta sua última visita que ela foi a única a conhecer (e a lembrar-se) da avó, bisavó e trisavó, várias gerações que, por um breve período de tempo, se cruzaram em vida. São linhas hereditárias longínquas que assombram a memória da minha irmã, e outros como ela.

Há uma citação de John Berger do livro E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias, que diz: “Emigrar é sempre desmantelar o centro do mundo, é um movimento que conduz a um outro mundo perdido, desorientado e fragmentado.” Berger reconheceu a natureza fragmentada da experiência da imigração-emigração.

Enquanto colecionamos fragmentos do mundo nas nossas jornadas, aprendemos a lição mais dura: para o imigrante-emigrante, não há lugares de pertença que nos façam sentir completos.


Safaa Dib

Enquanto luso-libanesa, vive entre duas culturas desde que se lembra, mas Lisboa é onde assentou o coração. Desde muito cedo ingressou no mundo da edição de livros e divulgação literária. Nunca pessoa de se restringir a uma área só, é proprietária de um estabelecimento de cozinha libanesa em Lisboa e, nos últimos anos, ingressou na atividade política, sendo dirigente do LIVRE.

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