1.

As estruturas tanto são feitas para nos agarrarmos como para nos soltarmos delas. 

A aprendizagem começa nos parques infantis. Ou em casa, nos móveis que na infância nos parecem altos como construções de grande engenharia. Coisas a que nos agarramos até nos podermos soltar. Que trepamos para depois não sabermos como descer. 

2.

Muitos escritores usam metáforas para descrever os seus processos. Metáforas que envolvem formas geométricas; círculos onde se regressa ao lugar de onde nunca verdadeiramente se saiu, cumes de montanhas que é preciso conquistar, planos com um horizonte longínquo mas visível. Outra metáfora que me ocorre é o da criança que monta uma estrutura que sabe que a qualquer momento pode desabar. E, no entanto, continua a construi-la. 

3.

Saindo da cidade, chegando a uma pequena vila, não é a ausência de grandes estruturas que me chama a atenção mas antes a antiguidade daquelas que existem. Espanta-me também a quantidade de muros e o trabalho que aqueles muros deram. E a maneira como o trabalho foi feito para que durasse no tempo, até um momento em que se esquecesse todo o trabalho, como se cada muro fizesse parte da própria natureza. 

4.

Uma piscina é uma estrutura ao contrário. Algo no qual mergulhar e depois emergir. Largamo-nos da borda. Atiramo-nos da beira. Afundamo-nos só até sentir o fundo. 

A minha filha nada sozinha numa grande piscina e nunca se afasta muito de uma das bordas. Mergulha a cabeça, avança debaixo de água, levanta a cabeça, e agarra-se à borda como se precisasse de sentir um material concreto, por oposição à água que não pode fechar na mão.

Depois, sobe as escadas da piscina. Corre para a borda. Pendura-se quase em bicos de pé. Atira-se porque sabe que tem fundo. 

5.

Também na cidade, a partir de certa altura, esquecemos todos os braços que carregaram materiais, todas as mãos calejadas, as alturas a que algumas pessoas trabalharam para que se terminassem certas obras. Construções monumentais como a ponte 25 de Abril, por exemplo, feita por mãos de pessoas que logo seriam ignoradas, gente de outros pontos de país, gente de África, todos súbditos de um rei sem coroa. 

Mas, uma vez erguida, seria impossível não se maravilhar com a novidade. E com a semelhança com algo que já existia previamente do outro lado do mundo. 

Como seria ter a perspectiva daquela ponte sobre a cidade pela primeira vez? Imagino que as pessoas atravessassem a ponte sem um destino. Partissem da cidade para logo regressar, sem nenhum objectivo a não ser ver a vista e a emoção de sentir que mãos humanas eram capazes de erguer algo assim. 

6.

Aprendi a apreciar pontes com os meus pais, ambos engenheiros. Pontes, barragens, mas também praças das cidades e a forma como as ruas desembocavam nelas. Postes de electricidade e como a iluminação nocturna muda a vida das pessoas. E ainda: livros e outras obras, porque não sendo artistas tinham esta noção de todo o trabalho de imaginação que implicava que depois algo de concreto aparecesse no mundo. Algo sobre o qual outros construiriam hábitos como antes, ou vidas que seriam muito melhores do que antes. 

7.

Uma história daquelas que não se esquece, embora não seja capaz de a reproduzir tal e qual: em Caxias, enquanto a ponte inaugura e maravilha toda a gente, uma presa política conta os primeiros carros que passam. 

Essa antiga presa política lembrava-se de como contar os carros tinha sido uma maneira de comunicar, outra ponte, entre ela e as companheiras, num momento em que estavam proibidas de falar. Um castigo simples mas eficaz. O motivo era certamente subversivo e, agora, parecer-nos-ia insignificante. 

8.

No carro, a minha filha pede para pôr The Beatles e cantamos juntas. Um refrão, alguns versos, uma ligação mais ou menos suave entre o refrão e o resto; uma estrutura com início, meio, fim. Não necessariamente uma conclusão. Aliás, ainda é melhor se não houver conclusão. Apenas um tema que fica a ecoar. Uma variação de qualquer coisa que já pensámos antes, que pensaremos muito mais vezes depois. 

Cantei exactamente aquelas mesmas canções em miúda num carro. Talvez a filha dela venha a cantar exactamente aquelas canções, noutro carro menos poluente, a sair de Lisboa. 

Encontramo-nos uma à outra naquelas canções. Na sua repetição. No tempo de canção que  sabemos de cor e do qual adivinhamos já o fim. Não é que eu lhe tivesse ensinado, é mais como se estivesse lá para ela aprender. 

9.

A natureza invade o muro – o musgo, as silvas, as raízes de árvores – como nós invadimos todos os muros. Outra metáfora. Bastante gasta. Bastante pouco precisa tendo em conta o tempo que normalmente tarda em invadir muros ainda que se fale muito disso. 

10.

Não há arte sem forma. Mas, na verdade, trata-se apenas de mostrar de maneira mais clara o quanto tudo se desenrola na vida dentro de certos limites, e de como os acontecimentos tendem a criar formas por si mesmos. Padrões. Rupturas. Viagens repetidas. Cidades como lugares que determinam quem as pessoas são. Tudo aparece mais claro dentro dos contornos precisos das páginas de um livro que se leva para as férias, ou de um poema que alguém recita, ou de uma canção partilhada. 

11.

O terror da página em branco não é mais do que o terror do vazio. Imaginemos que nos é dado a construir tudo de início. O que faríamos? Que obra? Que cidade? Que prisões? Que praças para sermos livres e conversadores? Logo para começar, que casa?


Susana Moreira Marques

É jornalista e escritora. Tem colaborado sobretudo com o Público e o Jornal de Negócios. Publicou dois livros de não-ficção. Gosta de cidades pela quantidade de histórias que habitam nelas. Foi para se perder no meio de ainda mais histórias que viveu em Londres cinco anos. Saiu do Porto com 18 achando que era temporário, mas ficou em Lisboa e é a Lisboa que sempre regressa.

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1 Comentário

  1. Olá, Susana Marques
    Gostei deste teu texto com que me identifico.
    Entrevistaste-me uma vez sobre a guerra. A guerra sim, que também tivemos uma guerra, não são só os outros, era o que faltava. A nossa foi de uma geração e já está há muito arquivada, nem sei se passou pelas escolas ou pelos secundários de rapazes já hoje crescidos. Desconfio que não. Que quando muito faz parte da História, como as guerras mundiais, a guerra dos cem anos, as guerras púnicas. Ainda
    guardo um pequeno jornal onde me vi publicado e salientado, nessa entrevista.
    Foi graças a ti, a um teu desafio, que escrevi e fotograficamente ilustrei uma pequena epopeia, uma viagem no clássico e popular eléctrico 28. texto esse em que alguns amigos meus de Lisboa se reviram, o que me deu um grande prazer.
    Foi curioso e simpático um amigo ter-me enviado este “Caderno azul”, já que se lembrava do tal texto e da entrevista, associando-me a ambos.
    Perdemo-nos entretanto, pelo meio da cidade mas ainda guardo umas trocas de emails que mutuamente nos enviámos.
    Vou continuar a ler-te se puder, já que não tenho facebooks nem instagrams (escrevo para amigos com alguma intimidade e raramente para mais do que um em simultâneo) e fico contente por de repente apareceres a escrever coisas dentro dos outros.

    Carlos

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