Casa da Comédia cinema Lisboa Lauro António

As notícias, raras, anunciaram a demolição do prédio onde existiu, durante algumas décadas, a Casa da Comédia. Foi um teatro, e poderão pensar que nada teve a ver com cinema. Para mim, tudo tem a ver com cinema, pois que o cinema, como qualquer arte, é um olhar sobre a vida e esta tem a ver com tudo. 

Mas deixemo-nos de filosofias e olhemos para a recém desaparecida Casa da Comédia. Foi fundada quatro anos depois de eu ter nascido, em 1946, e por essa razão pouco conhecimento tenho desse arranque. Quem a fundou foi um apaixonado por teatro, Fernando Amado, então um dos animadores do Centro Nacional de Cultura, que no dia 16 de Julho de 1946 estreou ali “A Caixa de Pandora” e um “Capricho Teatral” de sua autoria. O espectáculo seria reposto em 1947, mas a este “capricho” seguiu-se um longo hiato de duas décadas com a Casa da Comédia fechada. 

Reabriria em 1962, com Fernando Amado na direcção, mas desta feita de colaboração com João Osório de Castro. A inauguração oficial deste novo espaço, um edifício baixo, de um único andar, no número 24, da rua S. Francisco de Borja, na zona das Janelas Verdes, em Lisboa, ocorre no dia 19 de Julho de 1963, com a apresentação de “Verbo Escuro” e “Regresso ao Paraíso”, de Teixeira de Pascoais. Não assisti a esse espectáculo, mas não perdi o seguinte, por várias razões. A principal terá sido obviamente o facto de ser a estreia no teatro de Maria do Céu Guerra, então minha colega na faculdade de Letras, eu em História, ela em Românticas. A Céu tinha publicado um lindíssimo livro de poemas, “São Mortas as Flores”, tínhamos uma história de grandes afinidades afectivas, eu experimentara um período de certa inclinação poética (supostamente poética, passou rápido) e ambos aparecêramos num recital de “Jovens Poetas”, na SNBA. Na Faculdade de Letras tinha com colega e amiga igualmente a Teresa Amado, filha de Fernando Amado, com quem falávamos de teatro e que me terá alertado para a actividade da Casa da Comédia. 

A estreia da Maria do Céu Guerra no teatro aconteceu com “Deseja-se Mulher”, de Almada Negreiros, o que me permitiu inclusive a assistir a alguns ensaios e conhecer pessoalmente o mestre modernista, a quem muitos anos depois, dediquei um brilhante retospectiva na segunda edição do Famafest, na Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão. Continuei até hoje muito amigo da grande Céu Guerra, com quem trabalhei num filme integrado na série “Histórias de Mulheres”: “Casino Oceano”, segundo “Week End”, de Cardoso Pires (por falar neste autor, excelente biografia saída recentemente, “Integrado Marginal – Biografia de José Cardoso Pires”, de Bruno Vieira Amaral, cuja leitura recomendo vivamente, não só para conhecer o autor, mas a sua época e as principais personagens). 

Voltando a Casa da Comédia e aos anos 60, esse terá sido o seu período de maior fulgor até meados dos anos 90. Por ali passaram intérpretes como Fernanda Lapa, Manuela de Freitas, Santos Manuel, além da já citada Maria do Céu Guerra, Jorge Vale, Morais e Castro, Filipe Ferrer, e alguns mais. Encenadores como Jorge Listopad, Norberto Barroca, Artur Ramos, João Lourenço, Filipe la Féria, entre outros. Cultivava-se uma certa ideia de modernidade e ali vi magníficos espectáculos que recordo.

Por essa altura vi nesse palco “Um Barco para Ítaca”, de Manuel Alegre, “As Espingarda de Mãe Carrar”, de Brecht, “As Aventuras e Desventuras dos Heróis Castrados”, uma colagem de vários textos, “Os Encantos de Medeia”, de António José da Silva, “Oh Papá, Pobre Papá, a Mama Pendurou-te no Armário e Estou Triste”, de Arthur Kopit, estes os que me lembro assim de relance. Sei que foi aqui que vi pela primeira vez em acção actores como o Jorge Vale e o Carlos Paulo Barata Simões que mais tarde entrariam em filmes meus, o primeiro na “Manhã Submersa” e no “Vestido Cor de Fogo”, o segundo só neste último. 

“What Happened to Madalena Iglesias”, com António Cruz e Rita Ribeiro, numa encenação de Filipe La Feria, foi um êxito. Creio que a estreia foi em 1989, mas o espetáculo tornar-se-ia um grande sucesso e rapidamente passou de uma sala com 100 lugares para o Coliseu. “What Happened to Madalena Iglésias” era uma paródia divertidíssima, sobre as relações entre Simone de Oliveira e Madalena Iglésias, baseando-se num célebre filme de Robert Aldrich, “What Happened to Baby Jane”, com Bette Davis e Joan Crawford. Mas Filipe La Feria que dirigiu a Casa da Comédia durante 16 anos, dirigiu peças inesquecíveis, de autores pouco conhecidos em Portugal, como “A Paixão segundo Pier Paolo Pasolini”, “A Marquesa de Sade”, “Eva Péron”, “Savanah Bay”, “A Bela Portuguesa”, “Electra ou a queda das máscaras”, “Noites de Anto” ou “A Ilha do Oriente. Dramaturgos que desafiavam os critérios da censura, como Pier Paolo Pasolini, Marguerite Yourcenar, Marguerite Duras, Yukio Mishima, Agustina Bessa-Luís e Mário Cláudio.

Nestes derradeiros tempos, a Casa da Comédia esteve sobre a direcção de Filipe Crawford, até ser encerrada e agora demolida. A demolição do espaço físico não me incomoda de maneira nenhuma. Era um edifício sem grandes condições e que nada recomendava. Já a existência de um espaço onde se experimentavam novidades e se cultivava a arte cénica não deixava de se saudar e a sua falta será obviamente de lamenta, a menos que as autoridades nacionais e autárquicas cumpram com as suas atribuições e encontrem outros espaços para cumprir idênticas funções. 


*Lauro António é realizador e crítico de cinema – lendário em Portugal. Lisboeta de gema, foi a cidade que também cunhou o seu gosto pelo cinema, e ele próprio mudou a história do seu cinema.

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