Nem sempre uma ida ao barbeiro é questão de cabelo. Também pode ser questão de caderneta predial.

O Salão Miguel fechara para férias e eu precisava de aliviar esta coisa densa e revolta que se me agarra à cabeça. Encontrei em Campo de Ourique uma montra embaciada e dentro cadeiras antigas e as paredes forradas a espelho. Não faltava sequer o calendário com paisagens de montanhas e a televisão ligada no programa da tarde.

Isto foi há alguns anos. Esqueci a cara do velho barbeiro que me apontou a cadeira e me pôs aquela espécie de toga. Mas era cara de quem desconfiava de mim. Olhava-me como ao som de Morricone, com os olhos semicerrados de quem reencontrara finalmente o adversário. Era cara do duelo final.

Sentado, com ele atrás estudando as tesouras e as lâminas de barbear, achei injusto eu não ter uma faca, um canivete de ponta e mola, uma catana. Depois vi-lhe em pormenor as mãos enrugadas, mãos de três vezes trinta anos, e pareceu-me que estávamos equilibrados para o confronto.

A sinfonia da tesoura a desbastar a coisa densa começou à volta das orelhas. Quanto mais corte, mais eu me tornava Sansão – fraco e abatido à conta daqueles gestos incertos que metiam as lâminas onde calhasse. Mas ao barbeiro faltava ser Dalila.

Disse-lhe «Cuidado, homem», e ele garantiu-me: «São muitos anos, muito cabelo, muita vida», não havia perigo. Eu que ficasse descansado, as mãos que me punha na cabeça eram de Deus. E eu um abençoado. «Já vi tanto corte, tenho muita experiência.» Depois acrescentou: «Só raramente faço saltar qualquer coisa.»

Não tenho muita sorte com lâminas. Um dia, desbravava um silvado quando a catana mordeu a minha perna, dando um risco limpo, e tão branco de osso, que a enfermeira teve prazer em coser-me. E também não tenho muito jeito para as histórias que me acontecem. Deixo-as correr, meto-me todo nelas, ainda que me arrisque a ficar sem a ponta das orelhas. 

«Muito bem, então despache-se, por favor, que eu estou com pressa», disse ao homem. «E desculpe, já agora, não cheguei a perguntar-lhe quanto era.»

«O senhor quer saber isso para quê?», disse ele depois de travar o andamento da tesoura num qualquer desalinho junto à nuca.

«Para pagar…», respondi-lhe.

«Pois, sendo assim temos um problema», disse ele, e cortou a eito algures. «É que se eu lhe digo o preço e o senhor acha barato, pensa que está a ser mal servido. Se lhe digo o preço e acha caro, pensa que está a ser enganado.»

Eu não pensava em maus serviços ou enganos de dinheiro, pensava em amputação de partes do corpo e – por favor, hoje não – em golpes na carótida. E pensava em mim com tosses de sangue no chão da barbearia enquanto o homem, em vez de chamar a ambulância, me dizia: «Com tantos anos de experiência, como é que isto me foi acontecer?»

«Perguntei por perguntar», disse-lhe.

«Aí é que está o mal. Perguntar ofende. A juventude devia ter mais respeito. Eu já vou velho para isto. Você acha-se com certeza melhor do que eu.»

Eu era um verme. Um chimpanzé em frenesim alimentar. O guarda imbecil que em 1453 se esqueceu de fechar o portão de Constantinopla durante o cerco inimigo. Era D. Afonso VI, aprisionado e louco. Era a pessoa que dera uma catanada na própria perna. Era o que o bramidor de tesouras entendesse. Só não era melhor do que ele.

Fechei os olhos e deixei correr o zás-zás-zás das lâminas. Aqui, ali, a unha descida do dedo mindinho do velho roçava-me o pescoço. E eu, que fico derrotado pelos derrotados, cheio dum peso na consciência que não sei explicar, fui imaginando um fio de angústias que justificasse o ataque ao cliente. O filho que o esquecera, a mulher já morta, a mesa vazia ao jantar – os novos clientes que o ofendiam perguntando-lhe o preço.

Quando abri os olhos, não vi o serviço acabado porque tinha à minha frente várias cadernetas prediais. «Olhe bem para ver. São tudo propriedades minhas, apartamentos, anexos, o diabo a quatro. Quanto é que o senhor ganha, afinal? Até deve ser licenciado e não tem metade do que eu tenho. À malta recém-licenciada falta-lhe tudo, até a boa educação. A mim não me falta nada, nem o imobiliário.»

O meu imobiliário era um T1 com espaço para a cama, uns livros e a esperança de conseguir pagar a renda. Nunca vira uma caderneta predial, menos ainda um leque delas debaixo do nariz como coisa que se obriga a comer. Ia a dizer-lhe um desculpe não estou com fome quando o homem me tirou a toga e me deu o toque no ombro que os barbeiros dão quando é para levantar. Saltei da cadeira. 

Acompanhou-me à porta e aí ficou, de braços cruzados, a ver se eu desaparecia na esquina seguinte. Os olhos ainda mais semicerrados, o Morricone a silenciar-se, a pose de quem derrotou o inimigo.

Em casa, observei-me ao espelho. No pescoço, corria o percurso seco de um sangue que não deixara incómodo. A coisa antes densa e revolta que se me agarrava à cabeça agora era um pêlo com sarna, o cabelo de uma criança a quem a mãe arrancara os piolhos a talhadas de tesoura.

Mas sobrevivera ao corte e só me tinha custado seis euros. 


Afonso Reis Cabral

Nasceu em Lisboa em 1990. Cresceu no Porto, mas voltou às origens para frequentar a esplanada da FCSH. Aos 21 anos, escreveu os primeiros capítulos de O Meu Irmão numa mezzanine com vista para a Tapada das Necessidades. Mudado para Campo de Ourique, escreveu os primeiros capítulos de Pão de Açúcar num terraço com vista para as Amoreiras. Há muito destas paisagens nos seus livros, embora Lisboa não esteja lá.

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6 Comentários

  1. Gosto muito de ler as suas escritas. Um prazer…escreva mais que há quem precise de estórias bem contadas. Abraço

  2. Acho que conheco esse barbeiro,fui la uma vez com o meu marido,de passagem.Reconheci o calendario!Ah!Ah!

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