Um vídeo de Tóquio acaba de nos mostrar uma mulher e um homem, dançando agarrados a nós. Nós, vermelho e verde, ondeamos num pau de bandeira agitado e frenético, um conjunto quase ameaçador para o japonês marcial que nos introduz no estádio olímpico e nos legendeia: “Portugal”.

Mas a dança não assusta, só empolga e alegra porque o par, a loura e o negro, Telma e Nelson, têm corpos precisos no golpe e exatos ao centímetro. A luta deles, de faz-de-conta, é, tão-só, um grito –  “estamos juntos!” – para o mundo inteiro perceber. Poucas vezes nos dissemos tão bem.

No entanto, há um ano (faz este domingo), um português deu quatro tiros a um português. Numa rua de Moscavide, um branco matou um negro, sentado num banco, porque este era negro. Assim o disse o pobre diabo, antes e depois dos tiros, e um tribunal julgou-o e condenou-o por essa condição de assassino racista.

Insisto nas coincidências temporais trazendo, agora, uma foto de há quase 100 anos, 12 de maio de 1923, e feita em Lisboa. Olhem-na, porque é moldura do que acabo de contar.



Congresso Pan-Africano, 12 de maio de 1923, em Lisboa. Na primeira fila (sentados), 3º da esquerda para a direita, W.E.B. Du Bois, o mais importante líder afro-americano do séc. XX. Todos os demais têm a naiconalidade portuguesa. FotoFundação Mário Soares e Maria Barroso/ Arquivo Mário Pinto de Andrade

Bem enfarpelados, de casaco e colete, gravata ou laço, alguns de polainas, estão lá médicos, engenheiros, pastores religiosos, um deputado parlamentar… Todos negros.

Dos 13 homens que posam só um não tem a nacionalidade portuguesa – já irei a ele, o americano W.E.B. Du Bois. Todos protagonizam uma sessão lisboeta (naquele ano houve outra, em Londres) do III Congresso Pan-Africano. Basicamente, diziam eles: os negros são iguais aos brancos. Há cem anos.

O assunto é central na minha vida e não sei contá-lo sem andar à volta – embora sempre fisgado no essencial. Nos anos 50, temos cinco ou seis anos, estou com a minha prima-irmã Marília, como a de Dirceu, que é de Tomás António Gonzaga que, por ser brasileiro, foi morrer exilado à Ilha de Moçambique, onde vive hoje o meu admirado patrício e amigo José Eduardo Agualusa.

O que eu quero dizer é que a minha Marília não se chamaria talvez assim, não fosse o nosso quintal, onde estávamos, ser luandense. Tal como, nos anos 70, tantas filhas dos meus amigos angolanos não se chamariam Djamila, não fosse ter havido uma heroína argelina.

Então, um dos miúdos, eu ou ela, disse com acinte a palavra preto.

Um carregador do camião Bedford do meu pai ouviu. Acercou-se de nós, tirou um canivete, picou o seu dedo e mostrou-nos a pinga de sangue: “Vermelho, igual ao teu.” Sei que ficámos calados, sob o peso de uma verdade para sempre.

Há dez anos, eu estava em Luanda, minha cidade e do João Van Dunen. Estávamos sozinhos de carro e este guinou ao sabor da conversa, por Angola dentro. Descemos até Catete e a mata de embondeiros começou o seu feitiço telúrico. Outros terão o seu, e como tão bem percebo o que pode fazer aos alentejanos uma velha oliveira ressequida e dramática.

O nosso feitiço, meu e do João, era aquele, pontuado pela graciosidade dos cactus de candelabro, o grosso tronco dos embondeiros, de pele lisa e de um prateado raro em árvores, as folhas e braços ridículos de pequenos, e as múcuas, pendendo como o “estranho fruto” da canção de Billie Holiday.

Naquele viagem de carro já éramos sessentões os dois, filhos dos adolescentes que fomos na década de 60, quando ainda se linchavam negros no sul da América.

Ah, como o feitiço libertava a memória daqueles dois “filhos da terra”, eu branco, ele negro, amigos de bairro desde a adolescência. Quando pássamos por Cassoneca, eu disse ao João: “Devíamos ter virado para Muxima…”

Quando a minha mãe ficou grávida, a avó Maria, mãe da mãe da minha prima Marília, fez uma promessa à santa da ermida da Muxima, numa curva do rio Quanza. A santa era a Nossa Senhora da Conceição, de manto azul e branco, mas a avó Maria, senhora mulata, chamava-lhe Nossa Senhora da Muxima, sua devoção, trazida da sua mãe e da mãe dela…

Se para lá tivéssemos virado, certamente veríamos mulheres de panos, das gentes de Kissama, à volta, mas também de Luanda. Algumas de joelhos e braços abertos, rezando à Mamãe Muxima ou, tão-só, a Muxima, o que em quimbundo quer dizer coração.

Mas o meu amigo não virou ali, nem para outra curva do rio, mais a montante, para Massangano, onde um forte, quatro séculos antes, tinha começado a selar a amizade dos dois já quase velhos, eu e o João, que iam de automóvel por Angola dento. Para muitos – nunca o esquecemos, nem eu nem ele, nas nossas vida e decisões essenciais – aquele forte proporcionou guerras, trapaças, insultos, maldades. Mas para mim e para ele, significou também encontro. Que nós celebrávamos, asfalto fora, através da língua comum.

Parámos no Dondo, sempre sobre o Quanza, porque aquilo era uma conversa de ida e volta, de um dia, entre dois amigos. E foi ali, numa daquela ruas da vila mais do que centenária, com sobrados de paredes grossas, telhas portuguesas, portões debruados a cal e janelas em portadas, foi ali, que o João me disse: “O santomense Ayres de Menezes, foi médico e morreu aqui, no Dondo. Acho que esteve naquele Congresso Pan-Africano de Lisboa…”

Deve ter ouvido de conversa do velho Mateus Van Dunem, seu pai. Era assunto de nosso interesse, de nacionalistas, primeiro, e mais tarde como jornalistas. O João trabalhou no semanário África, em Lisboa, e mais tarde, em Londres, no desk África, da BBC. Entre nós, cavar raízes foi interesse da vida inteira. 

De facto, não foi inteiramente uma serendipity, como chamam os ingleses às coincidências afortunadas com que tínhamos passado aquele dia, eu e o João Van Dunem, a falar. O negro Ayres de Menezes pertencia, a parte inteira, àquele grupo de mais velhos que em Lisboa de há cem anos tentava redimir os negros de uma injustiça e a humanidade em geral de uma estupidez. Mas o congresso não o apanhou em Lisboa.

Ao centro, Ayres de Menezes, médico santomense, fundador do primeiro jornal de estudantes africanos em Lisboa, o Negro em 1911. Na foto, de 1918, Menezes está acompanhado pelos seus conterrâneos Lázaro Espírito Santo, tio da poetisa Alda Espírito Santo, e Januário da Graça Espírito Santo. Este último, professor, iria ver incendiada a sua roça Famosa, em fevereiro de 1953, quando as autoridades coloniais atacaram os proprietários negros de São Tomé. Foto: Fundação Mário Soares e Maria Barroso/ Arquivo Mário Pinto de Andrade

Ayres de Menezes fundou o primeiro jornal de Lisboa sobre a causa africana, O Negro, em 1911 – agora reeditado. Voltou a São Tomé onde exercia medicina e depois foi para o Dondo, em Angola, onde morreu em 1946. Estava quase a avó Maria a fazer a promessa por mim. Um filho, Hugo Azancote de Menezes, também médico, será um dos fundadores do nacionalismo angolano, no exílio. Olhem, mais um a confirmar que a pátria da nossa infância é a que mais nos marca.

O sub-tenente médico José Manuel Azancot de Menezes, da Marinha portuguesa, quando visitou, em abril passado, o hospital santomense que tem o nome do seu bisavô Ayres de Menezes. Foto: telanon.info  

Mas serenpidity já foi um bisneto do santomense, o médico José Manuel Azancot de Menezes, sub-tenente da Marinha portuguesa, ter há poucas semanas, em abril, visitado o principal hospital de São Tomé, de nome “Dr. Ayres de Menezes”. O navio patrulha Setúbal aportara na ilha e Portugal sentiu-se honrado em homenagear o antepassado ilustre de um seu marinheiro.

Era isso que queriam dizer os homens daquela foto de 1923: nós somos.

Vejam, no primeiro plano, sentado, da esquerda para a direita, o segundo negro, de polainas: é o engenheiro Manuel Hermínio Paquete, santomense. Foi para São Paulo, Brasil, onde o edifício ferroviário de Piricicaba se chama “Engenheiro Manuel Hermínio Paquete”.

Entre os sentados, ainda, passem para o quarto, de bigodaça branca e janota de casaco de gola de veludo, José Magalhães (1867-1959), um angolano de Moçamedes. Foi o primeiro  parlamentar negro da República, fundador da Liga Africana e combatente pelos direitos dos negros nas colónias portuguesas.

Magalhães foi professor e diretor do Instituto de Medicina Tropical. Ele gostaria de saber que, em 2019, pela primeira vez, aquele hospital, na rua da Junqueira, seria dirigido por um estrangeiro. Afinal, seu conterrâneo, o angolano Filomeno Fortes.

Na foto de 1923, entre o engenheiro ferroviário santomense e o médico angolano, senta-se uma celebridade mundial, o tal americano, W.E.B. Du Bois (1868-1963). No século XX, tão marcado pelos direitos cívicos da América, ninguém, exceto o pastor Martin Luther King, foi tão importante por esses avanços da civilização.

E a Du Bois foram reservados os anos mais duros, quando o Ocidente estava tentado por supremacias raciais. Sociólogo (ele foi o primeiro negro doutorado por Harvard), ao ativista dos direitos cívicos e pelos direitos políticos dos países africanos foi imposta uma demonstração prévia, de que tantas vezes nos esquecemos e os hipócritas racistas tantas vez escamoteiam.

Isto é, o racismo é pretender que o outro é inferior.

Logo, combater pela igualdade do ponto de vista prático, ter o mesmo direito a um lugar na carruagem, o partilhar de um bebedouro, o decidir pelo país, exigia contraprova prévia: será que és inteiramente homem? 

À criança que fui aos cinco, seis anos, não sei porquê, talvez vergonha, bastou-me um pingo de sangue. E uns olhos duros e sinceros postos em mim – obrigado, carregador de camião, por tudo quanto ganhei.

Um companheiro de tremuno, bola e pés nus na areia vermelha, faltou a um encontro, e confirmou-me a convicção. Na carrinha do meu pai fomos à procura dele e soubemos por um vizinho mulato que os brancos aterrorizados pelo começo da guerra colonial tinham varrido o muceque Marçal. Uma moto passeou-se sobre o  meu companheiro de jogo e um camião recolheu os corpos.

Era o primeiro domingo de abril de 1961, eu tinha 12 anos, um boné e era o primeiro morto meu. Entrei na carrinha, puxei a pala para os olhos e levei-a assim até casa.  

Os da foto de 1923 tinham uma situação ambivalente. Eles próprios e outros, como o modernista Almada Negreiros, o jornalista Mário Domingues e a feminista Georgina Ribas (mãe do musicólogo Tomaz Ribas), lisboetas de origens africanas, viam as suas feições e tom de pele passar pelos pingos da chuva, pois eram reconhecidos, mais ou menos, como iguais…

Honra àqueles a quem o “privilégio” de talvez nunca terem sido proibidos de entrar numa casa de banho, não os impediu de reconhecer que a igualdade, ou quase, não era universalmente aceite. Ao deputado José Magalhães não lhe chegou ser eleito, queria também que todos os seus conterrâneos africanos pudessem eleger.

Vivendo numa sociedade muito radicalizada sobre a questão racial, como a dos Estados Unidos, o sociólogo W.E.B. Du Bois quis discutir o âmago do problema. Nos congressos Pan-Africanos na Europa, importava-lhe lançar as sementes para as independências das colónias, que ele não sabia que haveria de conhecer em vida (morreu já no Gana governado por Nkrumah). E foi o que ele veio fazer a Lisboa.

Mas mais importante foi a discussão pública que Du Bois não desdenhou fazer sobre a alardeada superioridade natural dos brancos. Seis anos depois de ter estado em Lisboa, ele  entrava num duelo sobre igualdade. Em março de 1929, em Chicago, promoveu-se um encontro num pavilhão, com cartazes a dizer “Um dos Maiores Debates da História” e com bilhetes a pagar. A questão era: “Têm os negros as mesmas capacidades intelectuais que as outras raças?”

O cartaz do debate de Chicago, em 1929, entre W.E.B. Du Bois, o mais importante ativista negro dos Estados Unidos, e Lothrop Stoddard, célebre adepto da supremacia branca: “Deve o negro a ser encorarajado a procurar a igualdade cultural? Foto: Credo Library

De um lado, W.E.B. Du Bois, o ativista afro-americano; do outro, Lothrop Stoddard, famoso publicista com livros sobre a superioridade branca.

Stoddard era um admirador de Madison Grant, autor de A Queda da Grande Raça, publicado em 1916. A grande raça era a nórdica, cuja decréscimo de nascimentos teria levado à decadência da Europa. Hitler citava muito o livro, o ataque à miscigenação – a mistura de povos – inspirou-o.

E os portugueses, mesmo os pálidos, deveriam saber que o livro de Grant influenciou as novas leis de imigração dos Estados Unidos, de 1924, que privilegiavam a entrada dos ingleses, irlandeses e alemães, tornando as quotas dos europeus do sul quase irrelevantes. Praticamente, só depois de 1960 pudemos voltar a emigrar para a América.

Grant era das mais influentes famílias nova-iorquinas e foi um dedicado defensor dos bisontes. Era foi administrador do Zoo de Nova Iorque, no Bronx, onde, nas jaulas dos macacos, em 1904, foi exposto um homem chamado Ota Benga, pigmeu do Congo Belga.

Na esteira de Madison Grant e com escrita mais leve e popular, o seu aficionado Stoddard publicou o livro A Crescente Maré da Cor Contra a Supremacia Mundial Branca. Prevenia contra os negros, a nódoa avassaladora. No 90º aniversário do debate de 1929, há dois anos, a revista The New Yorker fez um longo artigo sobre duelo Du Bois versus Stoddard, que resumiu assim: o afro-americano deu uma coça!

É bom apreciar a ironia de isso ter acontecido na cidade de Chicago, onde politicamente iria aparecer três quartos de século depois Barack Obama.

Mas, não nos iludamos, a ideia da superioridade natural dos brancos e o reclamar impudente da falsa ciência do Gobineau de As Desigualdades das Raças Humanas perderam só um debate. É que as ideias certas não têm a garantia definitiva de ganhar, por maior coça deem na discussão. Os racistas Grant e Stoddard  não foram para o caixote do lixo da História, tiveram só o azar geracional de não terem sobrevivido à derrota de Hitler.

Os seus herdeiros foram obrigados a passar algum tempo no armário.

De flash em flash fazem irrupções de maldade insidiosa. Bruno Candé é morto e aparece um palmípede a twittar que o negro é que provocou; uma família de negros pobres recebe a visita de Marcelo e o palmípede mostra a foto do Presidente “com bandidos”, enquanto ele, o palmípede, só se dá “com portugueses de bem”.

Temos de nos armar com a memória. A minha é a que venho contando. Os anos 60 deram-me a conhecer uma mulher que nos mudou muito. Gloria Steinem (há um filme recente sobre ela) e dela aproveito aqui um conselho cínico. Contra os misóginos (outra luta a fazer a falsos superiores), ela disse para seguirmos os nossos instintos:

Se ele parece um pato e anda como um pato e grasna como um pato e vos parece um porco… ele é um porco.”

Sobre racistas, vou rematar de forma tão violenta quanto ela, embora com respeito pelos porcos: um André Ventura é um andré ventura. Vou pelos meus instintos.

Dito isto, neste dia lembro-me de um concidadão que não conheci, o Bruno Candé. Só depois de morrer o encontrei numa reportagem ainda ele não era o desventurado famoso. Há um ano, lembrei no Público essa reportagem, de um jovem repórter do Observador que foi abordado pelo Candé na Zona J e logo ouviu dele uma confissão de amor a Lisboa: “Ah, sobe àquela torre e olha a minha cidade!…”

Apanhei-te logo ali, Bruno Candé, a nossa pátria é a pátria da nossa infância – como sei de ti, lisboeta.

Como estariam orgulhosos de ti os homens da foto de 1923. Como mereces o bailado da Telma e do Nelson. E, mais, que legenda és: “Portugal”.


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9 Comentários

  1. Mais um belo texto, mais um, do Jornalista FERREIRA FERNANDES !
    Uma evocação, a lembrar que os mais abjectos RACISMO, HOMOFOBIA, DESCRIMINAÇÃO, andam por aí à solta, nas práticas,atitudes e palavras dos SEM VERGONHA,, que as negam e gritam constantemente :
    É UMA VERGONHA ! UMA VERGONHA ! É UMA VERGONHA…
    Nomes para quê ? Todos sabemos quem são !

  2. ” Por Angola dentro “….Que saudades eu tenho das crónicas de Ferreira Fernandes na última página do DN….Abraço camarada…
    Manel Frota

  3. Texto de grande profundidade e significado. Admiravelmente bem escrito. Abraço. Jcc

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