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Lembro-me da inauguração do primeiro supermercado de Lisboa. Ficava no Saldanha, entre a sapataria Bambi, onde todos os anos nos compravam sapatos de carneira com atacadores, e a casa de gelados Monte Branco, onde nos deliciávamos com cones de bolacha americana, mas estávamos proibidos de contar à avó, que achava os sorvetes um veneno.

Estreavam-se assim em Portugal os espaços comerciais onde, em vez de pedirmos o que queríamos a uma pessoa que atendia, pesava e fazia a conta atrás do balcão, podíamos agarrar num cesto, servir-nos e pagar à saída.

Contudo, até que a novidade se disseminasse, mantiveram-se ainda durante muito tempo as vendas ao domicílio – o pão que o senhor António trazia de bicicleta e deixava num saco de pano pendurado na porta, o leite, as hortaliças, os ovos… – e as idas às mercearias do bairro, que eram realmente os estabelecimentos mais concorridos. Em primeiro lugar, porque vendiam de tudo (secos e frescos) e fiado; e depois porque tinham por lá uns garotos ainda mal saídos da puberdade que levavam as compras a casa dos clientes, o que dava sobretudo jeito a quem morava num prédio sem elevador.

Como muito bem descreve João Almeida no livro Descalços em Tempos de Botas (e ele sabe do que fala, pois foi um deles), esses rapazes, normalmente pobres, vinham sozinhos das aldeias para aprender um ofício com algum conterrâneo estabelecido na capital, mas não ganhavam um tostão, recebendo apenas uma gorjeta esporádica de algum cliente e o «favor» de comer e dormir na loja, onde ficavam fechados toda a noite e sem maneira de saírem dali se espreitasse algum perigo.

Nós, porém, tão miúdos como eles, desconhecíamos as duras circunstâncias que já enfrentavam com onze ou doze anos; e, desejosos de pregar partidas, arranjávamos um cúmplice com voz adulta que imitava um dos vizinhos do prédio em frente e toca de fazer uma encomenda à mercearia, pedindo a entrega em casa. Então, íamos para a janela ver o marçano sair da loja carregado que nem um burro e, pouco depois, regressar com tudo às costas e ainda levar um raspanete (quando não um tabefe) do merceeiro que, infalivelmente, o responsabilizava pelo engano.

Ríamos a bandeiras despregadas atrás das cortinas, ignorando que, à noite, debaixo de uma manta de trapos, o mais certo era o pobre aprendiz chorar com saudades da família…

Um dia, alguém tocou à porta lá de casa e, do corredor, ouvimos a nossa mãe abrir e dizer quase logo:

– Ó filho, mas eu não pedi nada ao senhor Vítor. Tens a certeza de que não é lá para cima?

– E, olhando primeiro para nós (desta vez inocentes, mas só por mero acaso) e depois para a saca de batatas pesadíssima, acrescentou: – Isto tem ar de malandrice… Mas, deixa lá, os meus filhos vão ajudar-te a levar tudo lá para baixo.

Remédio santo. Depois daquela, as partidas passaram a ser muito mais inocentes: ligar a todos os Coelhos da lista telefónica para os avisar de que abrira a época da caça…

Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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