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Elisabete Vila Viçosa, 37 anos, tinha, desde criança, um gosto especial pela jardinagem. “Sempre tive esse bichinho”, diz. “Mas nunca tive coragem de dizer aos meus pais que queria ser jardineira”. Isto apesar de ter sido o pai a ensinar-lhe a paciência e o cuidado que é preciso ter com as plantas: a primeira árvore que plantou foi no clube de jardinagem, aos 10 anos.

Foi quando, depois de ter sido mãe, perdeu o emprego, na área da comunicação, que esta animadora educativa redescobriu o interesse, e desta vez mais a sério… embora a brincar. Mas já lá vamos. Quando ficou desempregada, resolveu ser mãe a tempo inteiro. E assim foi, durante três anos, até ao dia em que, na marquise do seu apartamento, no Bairro Azul, Elisabete e a filha, Guadalupe, decidiram, numa brincadeira, construir numa taça um jardim para fadas: um bonsai, suculentas, mesas de chá e cadeiras em miniatura.

O resultado foi um mini-jardim encantado. E tão apelativo que quando Elisabete publicou a foto no Instagram teve logo a resposta do seu primeiro cliente.

Reconhecendo a oportunidade e com dificuldade de reingressar no mercado de trabalho, Elisabete arregaçou as mangas, e pensou que isto podia ser uma alternativa: estudou e percebeu que havia negócio na jardinagem em miniatura. Explorou opções para aliar o projeto à sua paixão. Reinventou-se. E hoje é jardineira de mini-jardins encantados.

O marido Pedro tem sido um cúmplice fundamental para o sucesso da Mini Mô Gardens.

O marido, Pedro, tradutor, a trabalhar a partir de casa, tornou mais fácil a conciliação do trabalho de ambos. Para além de auxiliar nas entregas, também fotografa os vasos e partilha as tarefas do dia-a-dia.

“Ser mãe foi o passo fundamental para a Mini Mô ter nascido. Nada seria possível sem a Guadalupe” conta Elisabete. A ideia de criar um jardim de fadas nasceu da vontade de estimular a imaginação e criatividade da filha. Guadalupe, carinhosamente chamada de Lupe, tem 8 anos, e diz que quer ser bailarina. No início do projeto dava ideias para os mini-jardins e continua a ser uma fonte de inspiração, pela sua delicadeza, imaginação e determinação. “É uma menina cheia de sonhos: quer ser bailarina e trabalha muito, todos os dias, para concretizar o seu maior sonho”, diz a mãe.

Para além da Mini Mô Gardens, que criou em 2016, Elisabete colabora também com a Revista Jardins, na qual publica projetos de Do It Yourself para serem realizados por toda a família, aproximando as crianças à natureza.

Educar através da jardinagem

O nome Mô nasceu de uma cantiga de criança inventada por Elisabete: “Chini mô, môná môná mô-ná-mâ”. Mini deriva dos jardins em miniatura.

Nos jardins da Mini Mô não existem apenas fadas – são completamente abertos à imaginação. São pequenos mundos inventados, habitados por criaturas imaginárias, onde pode haver animais, gnomos, dinossauros.

Os vasos têm vários tamanhos: Mini, Midi e Micro, e são personalizados. As plantas utilizadas são sempre a pensar nas crianças. São suculentas, de fácil manutenção, pouca rega e não precisam de luz direta. Cada jardim faz-se acompanhar por um manual de instruções que explica passo a passo os cuidados a ter.

As encomendas são sempre feitas pelo Facebook ou Instagram. O primeiro contacto é sempre importante. Elisabete faz uma proposta de design com cores e temas, de acordo com o pedido do cliente, e cria uma história para os jardins. As entregas são todas feitas em mão na área de Grande Lisboa.

Não deixa de ser surpresa para Elisabete a desconexão das crianças com a natureza, e mesmo a dos adultos. “Hoje temos tudo muito imediato e a natureza não é imediata, tem um ciclo natural e há essa necessidade de respeitar esse ciclo, de observá-lo”, diz a jardineira, que por isso mesmo escreveu um livro sobre jardinagem urbana.

O livro Grandes Jardineiros de Pequenos Jardons foi escrito para aproximar as pessoas da natureza e da jardinagem.

O livro Grandes Jardineiros de Pequenos Jardins nasceu para aproximar as pessoas da natureza a partir da jardinagem, sempre a pensar nas que não têm espaço para a praticar. “Desmistifica toda a linguagem técnica da jardinagem”, pretende estimular o interesse por esta e o sentido de responsabilidade para com a natureza. Para além disso, inclui explicações passo a passo, ideias e dicas para cuidar das plantas em casa, os cuidados a ter e curiosidades interessantes para cativar os mais novos.

Para transmitir o entusiasmo e respeito para com o ambiente, a fundadora da Mini Mô Gardens desenvolve também workshops com os mais pequenos e, por vezes, em família. “As pessoas quando têm esse contacto, através da jardinagem, com as plantas estão muito mais despertas para o mundo em geral, compreendem melhor o ciclo da vida”.

O receio da parte das crianças – porque, como explica, são muitos os que têm medo de tocar na terra – depressa se transforma em satisfação e felicidade com o resultado final. Este é o primeiro passo para a empatia, curiosidade, paciência e respeito pela natureza porque “têm de saber esperar e cuidar da planta para verem resultados”, diz Elisabete.

Cansada do trânsito, da pouca qualidade de vida e do apartamento pequeno, Elisabete acabou por trocar a azáfama da cidade pelo conforto de uma casa maior, em Loures, onde produz, no seu atelier, os jardins em miniatura.

Com o passar do tempo, trabalho e dedicação, o público da Mini Mô Gardens foi crescendo. Os jardins de fadas encantaram não só o coração das crianças, mas também o dos adultos que “se revêm neste mundo mágico de fantasia”.

Durante todo o processo de elaboração do jardim, Elisabete conta que constrói, na maioria das vezes, laços afetivos com os clientes, o que torna o seu trabalho ainda mais gratificante. Os adultos, mais do que as crianças, atribuem memórias delicadas e histórias pessoais aos vasos decorativos e “tentam recuperar essa nostalgia, essa criança que há dentro de si através dos mini-jardins”.

Com um pouco de imaginação, os vasos ganham vida para todos aqueles que se atrevem a acreditar. A sugestão de Elisabete: experimentar e errar. Começar com plantas menos exigentes para que, pouco a pouco, possam todos respirar um pouco mais verde.


* Nascida em Braga, Júlia Mariana Tavares fez de Lisboa casa, com vontade de contar histórias desta cidade cosmopolita e multicultural. Finalista de Ciências da Comunicação da Faculade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa, está a estagiar na Mensagem de Lisboa. Texto editado por Catarina Pires.

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1 Comentário

  1. Parabéns Júlia pelo seu primeiro e maravilhoso trabalho. Espero puder lê-la várias vezes, a dar cartas e a ultrapassar a “diversidade” em direção à “inclusão”.
    Muita força.
    Ulika

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